UM DICIONÁRIO DIFERENTE- Ruy Póvoas

Está dito: dicionário é um repositório idiossincrático do léxico. E existem muitos tipos de publicações que guardam tal característica.

E agora, é dado à luz um dicionário diferente. Trata-se do Pequeno dicionário de personagens da história de Ilhéus e Porto Seguro. Em que reside, porém, a referida diferença? Comecemos pela autoria. É uma publicação que traz os nomes de Henrique Campos Simões e Marcelo Henrique Dias, dois Henriques. Dicionarizemos, portanto. E porque os dicionários pululam na iternete, vamos até lá.

Acessando www.dicionariodenomesproprios.com.br/henrique/,

somos informados que Henrique significa “senhor do lar”, “príncipe do lar” ou “governante da casa”. Tem origem no nome germânico Haimirich, composto pela união dos elementos heim, que significa “lar”, “casa”, e rik, que quer dizer “senhor”, “príncipe”, “poder”. Dessa junção, resulta o significado “senhor do lar”, “príncipe do lar” ou “governante da casa”.

Então? Estamos diante de uma publicação de dois príncipes e senhores, dois Governantes da Casa. O primeiro deles, Henrique Campos Simões, já não está mais no nosso meio. Há mais de ano, ele viajou para outra dimensão. O segundo, Marcelo Henrique Dias, continua seus trabalhos de ensino e pesquisa, na Universidade Estadual de Santa Cruz, cuja editora, a Editus, fez a publicação.

Depois que Henrique Simões se foi, a professora Maria de Lourdes Netto Simões (Tica Simões) aliou-se ao outro Henrique. Ambos mergulharam nos originais do dicionário em apreço. De tal trabalho profícuo, juntamente com o empenho da Editus, na pessoa de sua diretora, professora Rita Argolo, resultou uma obra que veio para ficar.

Mais uma diferença entre as que fazem do livro um dicionário diferente. Trata-se do trajeto percorrido por Henrique Campos Simões, levantando dados necessários. Bebeu nas fontes mais destacadas a esse respeito, em Portugal. Disso, no entanto, o texto de apresentação da professora Maria de Lourdes e o de Marcelo Dias dão conta de maneira brilhante.

E a diferença vai se expandindo. O inventário dos personativos é simplesmente singular. Não se trata apenas do repositório de nomes de pessoas que viveram no Brasil, nos tempos coloniais. O arrolamento vai para muito além disso. A leitura dos verbetes, diga-se de imediato, lavrados com objetividade, há de revelar o retrato e o perfil de nossas origens genéticas e socioculturais. É justamente no exame dos dados fornecidos, revisitados lá, no passado, que podemos entender melhor nosso povo, no presente. Vejamos um exemplo notório na página 177:

NUNES, Antônio (1591). Cristão-novo, morador em Porto Seguro, acusado, durante a Visitação do Santo Ofício na Bahia, de estar juntamente com outros cristãos-novos examinando uma “Toura” (Torá).

Qualquer leitora ou leitor familiarizado com a história do Brasil há de se dar conta da riqueza dos conteúdos informados em tal verbete. À primeira vista, há de alcançar apenas fatos curiosos do passado. A reflexão, no entanto, trará analogias com o que nos acontece no momento. O exame de um volume da Torá não mais se constitui crime. O Santo Ofício, que de santo nada tinha, foi dissolvido com o passar do tempo. Não há como negar, mutatis mutandis, coisas semelhantes ainda continuam acontecendo. Afinal, se as leis e o poder da Igreja de Roma foram diluídos, o imaginário que os providenciou ainda continua agindo, engendrando novas formas de expressar preconceito.

Diferença marcante também pode ser constatada na Nota ao leitor, da redação dos apresentadores, nos termos seguintes: “[A pesquisa] recebeu colaboração da Profa. Janete Ruiz de Macedo que contribuiu, aproximadamente, com cem verbetes (aqui identificados com suas iniciais JRM).” Conforme se vê, trata-se de alentada contribuição, a ponto da Profa. Janete receber merecido reconhecimento.

E as diferenças que caracterizam o Dicionário… vão se acumulando. Após o inventário dos antropônimos, cobrindo as letras de A a Z, uma série de seções também faz parte do livro. Inventários do plantel de pessoas escravizadas, de acordo documentos examinados. Um exemplo fiel de como as pessoas escravizadas eram vistas e consideradas: “Maria, mãe dos ditos crioulos, já velha, que não serve”. Qualquer semelhança com o que acontece atualmente não é mera coincidência. Se pessoas não mais recebem epíteto de escrava, sua condição social guarda ainda a mesma consideração por elas aos olhos de certos segmentos sociais da atualidade.

O Dicionário… ainda nos brinda com um quadro em que constam todos os governadores e vice-reis do Brasil, de 1.549 a 1.754. A maioria deles nunca foi vista nos livros de História adotados. E as peculiaridades continuam a fazer parte do Dicionário… Quatro quadros relacionando os nomes, por dinastias e data, da monarquia portuguesa, desde D. Afonso Henrique que nasceu em 1.604, a D. Manuel II, falecido em 1910. Trezentos anos de cobertura, portanto. Tais dados testemunham empenho, zelo e cuidados por parte de seus dois autores e primor da revisão.

Por último, duas outras seções fecham o Dicionário… Uma relação dos verbetes e referências bibliográficas. Quanto a esses dois itens, trata-se de mais uma peculiaridade, pois não se costuma constar tais itens num repositório idiossincrático do léxico, mormente se as palavras aludem exclusivamente a nomes de pessoas.

Se hoje a caravela da capa do Dicionário…, idealizada por Deise Francis Krause, já foi arquivada, ela ainda é uma lembrança do passado no nosso imaginário, mas não descartada enquanto símbolo de representatividade. Ela transportou para o Brasil dores, lágrimas, sangue derramado e pessoas que foram tratadas pior do que animais. Também foi ela que levou para a Europa nossa madeira de lei, nossos metais e pedras preciosas. Por isso mesmo, ela ainda resiste no fundo de nosso imaginário. E é justamente disso que o Pequeno dicionário se empenha em dar conta. Por isso mesmo, trata-se de um dicionário diferente, cujas qualidades trazem consigo o denodo de seus autores.

Ruy Póvoas

Junho 2022

ajalah@uol.com.br

 

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DISCURSO NA INAUGURAÇÃO DA AGÊNCIA SICREDI NO SHOPPING JEQUITIBÁ- Silvio Porto

 

Shopping Jequitibá, um sonho que se tornou realidade!

” Não estacione sua alma em espaços onde não cabem seus sonhos!…”
Jamais!!!
Jamais estacione sua alma, ela precisa de movimento.
Jamais estacione seus sonhos, eles precisam de liberdade.
Jamais estacione sua esperança, ela precisa de espaço.
Somos alma em evolução, somos o caminho que ensina, somos a luz que sempre vence a escuridão…”

Nada é para sempre, mas exemplos de homens empreendedores e com amor a sua terra , ficam eternizados na nossa memória.
Helenilson herdou de seu pai a vocação para o agronegócio e foi além expandindo os negócios da família Chaves e sendo o responsável pelo desenvolvimento e expansão imobiliária da cidade de Itabuna, modernizando a arquitetura e a urbanização da cidade.
Um visionário, sendo um dos primeiros empresários a acreditar no oeste da Bahia, como a região de grande futuro, e apostou no crescimento da soja e na sua industrialização com a Olvebasa.
Contra alguns estudos preliminares técnicos e financeiros , encarou o desafio de construir o primeiro Shopping Center do Sul da Bahia e mostrou que estava certo, sendo hoje um dos mais rentáveis de cidades de médio porte.
Cito alguns exemplos da visão empresarial de Helenilson, que deixará saudades , principalmente quem teve a sorte de conviver com seus ensinamentos valiosos.
Sempre teve um olhar especial para ações sociais e contribuiu muito na área educacional .
Tenho certeza que seus filhos e esposa seguirá sua pegada e manterá viva a história e tradição da família Chaves na região sul da Bahia.
Esta certeza foi certeira!


O jovem Manoel Chaves Neto, segue a pegada do pai, e transforma mais ainda em realidade o sonho de seu pai, e com maestria e liderança vem fazendo um trabalho auspicioso, com gestão profissionalizada e pessoas competentes ao seu lado e consolidando Itabuna como um polo de desenvolvimento comercial, oferecendo a nossa região sul da Bahia está maravilhosa obra que é o nosso Shopping, orgulho do solo grapiuna e que ainda vai mais longe o sonho inicial, com expansão em breve para a cidade de Ilhéus.
Isto se chama trabalho eficiente.
Isto é Itabuna!
E o Sicredi que tem na sua visão principal desenvolver a economia local e regional, estará ao lado dos grandes empreendedores .
E a nossa vocação!
Sonhar juntos, leva a progresso, desenvolvimento, felicidade e melhor qualidade de vida para nossa comunidade.
Sicredi sempre junto !

Por motivos superiores, Neto não pode estar presente neste momento, mas temos aqui o representando o meu querido amigo e cunhado Ivan Maia.
Ivan que sempre esteve ao lado de Helenilson e da família, recebeu está delegação de Neto, reconhecendo o valor que Ivan teve para o Grupo Chaves , seu compromisso, sua lealdade e seu eficiente trabalho na consolidação do Grupo Chaves.
Obrigado Ivan pela presença.

Agora vamos falar de outro sonho!
O Sicredi Integração Bahia!
Quando pensei em fundar uma cooperativa de crédito voltada inicialmente para a saúde, a primeira pessoa que fui me aconselhar foi Helenilson.
Muito valiosa sua orientação e ensinamentos.

Faço esta analogia:
Falar do sonho de Helenilson Chaves ao conceber a ideia do Shopping Jequitiba.
O nosso sonho de termos uma cooperativa de crédito e financeira em Itabuna.
Eu preciso de todos aqui hoje para sonharmos juntos.
Cooperativismo é isto: sonho coletivo, inteligência coletiva.
Cooperativismo é cooperação!
Qual o conceito?
Uma cooperativa nasce do desejo nobre de pessoas que pensam em construir e desenvolver a comunidade onde ele está inserido.
O segredo está aí:
O interesse pela comunidade, o foco de desenvolver a economia local, de fazer uma economia voltada para os interesses nossos de nossas cidades onde moramos , onde vivemos .
O nosso marketing maior é dizer : nós estamos aqui para trabalharmos juntos com a comunidade.
A nossa marca tem 122 anos.
Somos Sicredi Integração , que significa parceria, juntar ideias e projetos.
O nosso modelo sempre teve atitudes de progresso.
Fizemos isto na saúde de Itabuna.
Financiamos todos os investimentos de medicina de alta complexidade na Santa Casa de Itabuna, de Ilheus, de Jequie.
Do Hospital Beira Rio, das Clínicas de Imagem, das Hemodinamicas, Medicina Hiperbarica, Clínicas Populares, Cooperativas de saúde.
Temos 300 produtos financeiros para oferecer a Itabuna , Ilheus, Jequie, Itajuipe e Itapetinga.
E agora aos lojistas do Shopping, estamos oferecendo uma alternativa segura e voltada para as necessidades local e regional.
Aqui agora tem Sicredi!
O Sicredi somos nós , o Sicredi é você.

Segunda maior instituição financeira em desembolsos de crédito rural no país,
20bi 2019/2020
29bi 2020/2021
38bi 2021/2022
31% acima do orçamento anterior
Metade do PIB do agro estão nas cooperativas brasileiras.

Hoje, vemos que cada vez mais governos nacionais e organizações internacionais
valorizam a capacidade de nosso modelo de negócios para construir relações econômicas, sociais e culturais que promovam justiça social, equidade, inclusão e solidariedade.

Temos um grande negócio em andamento com a prefeitura de Itabuna para investimento no fornecimento de água para a periferia de Itabuna com eficiência e despoluição do rio Cachoeira.
Isto é sustentabilidade! E Cidadania!

Esta parceria enche-nos de orgulho e responsabilidade. Certamente nos dá a oportunidade de mostrar que estamos inseridos os interesses da nossa comunidade e que nossa principal missão é contribuir para a construção de um mundo melhor.
No cenário atual, isso se traduz em ações efetivas gerando economias mais inclusivas, solidárias e equitativas.
Economias que respeitem o meio ambiente e que resultem em paz positiva, como resultado de estruturas sociais integradas baseadas em valores e princípios comuns que só o modelo cooperativista pode oferecer.
A nossa presença é complementada pela imensa capacidade de inovação que demonstramos em áreas como a transformação digital, as energias renováveis e o setor da saúde.

É por isso que podemos dizer com orgulho que carregamos uma Identidade única, uma identidade que se chama Itabuna, Ilheus, Itajuipe, Jequie e Itapetinga, com profundas raízes históricas neste chão grapiuna e que hoje devemos ir mais fundo para oferecer ao nosso universo geográfico um futuro melhor.

Desenvolver a economia local!
E o nosso compromisso!

Muito Obrigado!

Silvio Porto de Oliveira
Presidente do Conselho de Administração.

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Livro de Cyro de Mattos participa da Feira Literária de Madri

Com o tema “Folhear o mundo”, a 81ª edição da Feira do Livro de Madri teve início na sexta-feira última (27), no Parque do El Retiro, um dos principais pontos turísticos da capital da Espanha, e será encerrada em 12 de junho. Com o livro Guitarra de Salamanca, de Cyro de Mattos, poesia, (foto) a Editora Verbum, de  Madrid, estará apresentando no seu estande  uma de suas novidades no mega evento, ao lado de obras de  renomados escritores e autores da nova geração da literatura espanhola.

A feira conta com 378 estandes e 423 expositores e, de acordo com os organizadores, a edição teve o número recorde de pedidos de participação de livreiros. A diretora do evento, Eva Orúe, destacou que esta será “a maior feira em tamanho até agora, neste século”. Mais de quatro mil escritores estarão autografando ou lançando suas obras, durante as duas semanas de evento.

Fonte: Blog Costa do Cacau

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SONETO DA FLAUTA PLENA- Cyro de Mattos

 

Canções aconteceram quando a vida
em carícia de flauta era sentida.
Agora, zangada, pisa na relva,
emerge nos gritos hostis da selva.

Canções aconteceram quando a vida
em carícia de lenço era tocada.
Tinha aquela música que não ceva
tremores fortes numas folhas de erva.

Ira erra e-l-e-t-r-ô-n-i-c-a de pantera,
telex informa calendas de guerra,
rosas enfermas: água, céu e terra.

Apesar dessas vozes que na cena
Ululam, febris na corrente insana,
Deixo que se vá minha flauta plena.

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POEMA: ACADEMIA DE LETRAS DE ITABUNA (ALITA) – Cyro de Mattos

Para Raquel Rocha

A árvore dá os frutos
que atravessam as estações

os poemas dão as palavras
que surpreendem os seres e as coisas

os poemas dão as palavras
que perduram a infância como asa

os poemas dão as palavras
que transportam os verdes e os maduros

os poemas dão as palavras
que a agonia do agudo mundo gera

os poemas dão as palavras
nas vestes da vida e da morte

bom então nunca esquecer
que as raízes te sustentam

nesses ares sopram cantares
com alma força e vida

 

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GRITO, GRITO, GRITO- Cyro de Mattos

Cyro de Mattos

Não, não é um homem,
ou o que parece ser
com o nome de homem,
um que mata o inocente
durante colossal pesadelo.

Chama-se Putin o horror,
o semeador de explosivos,
discípulo de outras chacinas
quando o ódio se instalou
com manadas sanguinárias
entre sombras e abismos.

Em duro clamor meu grito,
embora frágil, sem proveito
para impedir as ambições,
não se esconde nos medos.
Não hesita em confirmar
que a vida é boa e bela,
a insana fera que golpeia
é que não dá valor a ela.

Só os lobos entre as febres
proclamam com os uivos loucos
o triste funeral de horas tristes.
Não temem o estúpido vício,
inconsequente na conquista,
o estupro insaciável, diabólico,
que os transmuda numa gesta
de bombas e memórias doloridas.

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NOTA DE PESAR PELO FALECIMENTO DE ADALGISA PORTO

NOTA DE PESAR DA ACADEMIA DE LETRAS DE ITABUNA

Com profundo pesar, apresentamos nossos sentimentos pela morte Dona Adalgisa, mãe do confrade Dr. Silvio Porto e da confreira Dra. Sione Porto.
Neste momento, nos unimos a todos os amigos e familiares de Dona Adalgiza, manifestando nossa solidariedade. Rogamos a Deus, que na sua infinita bondade e misericórdia conforte a todos neste momento de dor e saudade.
Para Sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
– mistério profundo –
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo, baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade

 

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Palestra de Heloisa Prazeres em ocasião a abertura do ano de 2022 da ALITA

ABERTURA DO ANO ACADÊMICO DA ACADEMIA DE LETRAS DE ITABUNA

 Heloísa Prazeres

Boa noite, saúdo as pessoas presentes a este ato solene de abertura do Ano Acadêmico de 2022, agradeço a honra e a gentileza do convite à Ilma. Senhora Presidente, Silmara Santos Oliveira, saúdo ilustres Sras. e Srs. acadêmicos desta Casa de Adonias Filho, fundada em 19 de abril de 2011, em cuja solenidade estive presente. Consciente do nobre significado desta tarefa, com muita alegria, participo da reunião, remotamente, ainda, em face das medidas a que o remanescente estado de pandemia nos obriga. Almejo que neste novo ano, possa-se deixar para trás esta travessia marcada pelo medo e pelo sofrimento.

Cabe-me, ainda, como filha da cidade de Itabuna, saudar com especial deferência e admiração mestres e jovens membros integrantes desta Casa, no vigor de sua primeira década de existência. Nascida há dez anos, a Academia de Letras de Itabuna, ALITA, é o resultado do sonho de apaixonados pela Literatura e pela Língua Portuguesa. Desde cedo, sou testemunha de que, a ALITA, logo compôs o seu quadro, com um grupo de luminares titulares, como é da tradição, onde foram acolhidas mais de uma dezena de mulheres.

A estas dedico, de entrada, e no epílogo do mês de março, feminino, o poema:  bicho-da-seda

 

bem cedo ouço sentidos ocultos

escuto o rumor de leves asas

encontro o casulo do inseto

(viajam mariposas recém-natas)

 

então a ficção arma o meu dia

provê o curso e o comentário −

palavras silenciadas já acolhem

os múltiplos sentidos do ditado

ora construo efêmera arquitetura

rascunho de tramas sobre tecidos

fabulações de cultivo próprio

ofício feminino do expurgo

(PRAZERES, 2020, p. 14).

A promoção e coordenação das Letras e da Cultura é um desafio sem tamanho e requer o melhor das sensibilidades e da adesão às instituições públicas. Há que haver brilho no olhar, expressão de vontade e equilíbrio, entre pensamento e ação, pois, o incentivo às Letras e Artes, Saberes e Fazeres (literatura, ensaística, artes dramáticas, performances e manifestações culturais populares) implica propor miradas inclusivas e interventivas sobre o real.

 Quem de vocês já não sentiu desassossego sobre a atual situação a que vivemos sujeitos? Principalmente nos dias que correm, quando a ameaça da guerra baixou sobre o planeta, em virtude do dissídio e despreparo de líderes mundiais. A poeta polonesa Wislawa Szymborska (1923-2012), prêmio Nobel de literatura de 1996, registra todo o estranhamento e indignação em relação à ausência que a morte impõe e que desconcerta a naturalidade do mundo:

[…]

Morrer — isso não se faz a um gato.

Pois o que há de fazer um gato

numa casa vazia

[…]

(SZYMBORSKA, Poemas, 2011).

Quero lhes dizer, que, uma espécie de desconforto me acompanha; não exclusivamente pelo momento em que vivemos, mas por uma condição natural de pensar que, mesmo quando o tempo decorre animador, sei não permanecerá assim, devido àquilo que nos condiciona como seres no tempo, na expressão de Martin Heidegger, quando se refere à nossa condição de efemeridade. Talvez seja esta a chave visível da percepção do poético, expresso, desde sempre, e contundentemente na contemporaneidade.

A questão mais relevante que configura o contexto atual é a globalização e o avanço da tecnologia − mundo digital, que dissipou a vida como a conhecíamos, e alterou a nossa percepção espaciotemporal. Agora, na definição de periodização literária, incidem questões de gênero, raça, origem social, códigos e recursos de mídia, cenário saudavelmente heterogêneo da vida e da arte. A face hegemônica dos grandes centros foi ultrapassada. O crítico brasileiro, Antonio Candido, ao analisar este cenário heterogêneo identificou-o como animador e provocador do desejo de compreensão do seu destino (CANDIDO, 1979).

Abro, a seguir, um espaço de homenagem a autores já denominados “sem idade”; num um recorte do aspecto espaciotemporal, em sua poesia ˗ sendo este espaço imaginário ou localizável em mapas. Abordo a perspectiva, em exemplos, na poesia de Florisvaldo Mattos (1932); Cyro de Mattos (1939) e Renato de Oliveira Prata (1938), e faço breve reflexão sobre as suas estratégias de criadores. Sistematizando:

  1. a) a lírica como espaço de apropriação e paródia da tradição clássica e moderna;
  2. b) a poesia como afirmação ecológica ou a ecopoesia;
  3. c) o tratamento poético-elegíaco em espaço cosmopolita.

FLORISVALDO MATTOS

O poeta Florisvaldo Mattos é um escritor ativo nas últimas sete décadas. Além de poeta, é um intelectual, jornalista, professor, mediador cultural, conforme obra literária e atividade ensaística. Há registro de alentados estudos suscitados por sua poesia lírica e épico-lírica, legado que se alinha com o perfil irrequieto e fértil do escritor, que, constantemente, se renova e atua com regularidade nos meios acadêmicos e de difusão literária e cultural, inclusive nas redes sociais.

Há um aspecto de sua poética, que adota a ótica de uma releitura de temas clássicos e modernos, sob prisma contemporâneo, pois sua poesia encontrou formas não lineares de se relacionar com a história. O seu olhar almeja a um tom imaginativo, que prioriza as estruturas, no espaço discursivo, e sua poética abraça o desvio lírico, em textos, que induzem a semelhanças, mas que levam a pensar a literatura, hoje, nas dessemelhanças, com relação à tradição recuperada. A voz florisvaldeana, nesse modelo, pode configurar uma arquitetura bucólica, apoiada em fontes clássicas, e ambientação telúrica, como se lê, no excerto,

Sem ser Títiro[1], nem ser Melibeu,

nem recostado estar numa jaqueira,

como também não para doces ócios,

apuro a mente e escavo chão de auroras,

(MATTOS, F., 2016, “Lavra de pater famílias”, p.33).

 

A sua voz encosta-se no significado da tradição, parece habitar um pré-existente espaço temático, que exalta a sua linhagem,

Netos de Homero e, também, filhos de Virgílio,

Dias, noites, sol, chuva, calmos ou molestos,

Em ameno sítio, ou partindo para o exílio,

…É de humanidade que se trata, de existências,

…Farta, como areia do mar, em minudências.

(MATTOS, F., 2016, “Poema das minudências”, p.103).

Fiel ao projeto pessoal de restabelecer esse tom lírico vinculado a predecessores das tradições clássica e moderna, numa perspectiva contemporânea, que o autor tão bem conhece e estuda − e da qual se apropria − cumpre-se o destino que lhe cabe de consagrado escritor brasileiro; cria-se a atmosfera desejada, que se pode utilizar para reflexão e melhor entendimento das estratégias do criador contemporâneo.

CYRO DE MATTOS

Uma das vozes mais contundentes e prolíficas da literatura produzida na região sul baiana, Cyro de Mattos impõe-se na literatura brasileira pela força de suas narrativas e de sua poesia; seu impacto transcende fronteiras nacionais, dando-se a leituras em Portugal, Itália, França, Espanha, Alemanha, Dinamarca, Rússia e Estados Unidos. Contista, cronista, poeta, romancista, ensaísta, premiado no Brasil, Portugal, Itália e México; primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz e Membro fundador da Academia de Letras de Itabuna, Cyro também é o ilustre idealizador e editor da Revista Guriatã. O escritor possui vasto acervo crítico sobre sua fatura revelada num estilo impregnado de registros de fala. Bem assim, sua poesia, situada na região − reduto que propõe respostas alusivas ao lugar geográfico de onde fala o escritor. Teluricamente, seu verso exalta o lócus, o território e sua leitura confirma o potencial poético, que em si carrega o próprio eu-lírico. Seu texto oferece mais do que o faria a escrita etnográfica. A paisagem do sul transforma-se miticamente na personificação de uma maneira de ver e o sentimento de pertencimento, em relação à terra, às pessoas e à vida e ao mistério, reverbera,

Onda por onda

no navio do meu corpo,

entre ostra e vento

nas águas idênticas

de mim embora diverso.

Da aurora ao arrebol

meu canto inconcluso

da humana solidão.

Bebo tudo do mistério

sem nunca ter chegado perto

(MATTOS, C., 2020, “Cerco das águas”. Inéditos. In: Canto até hoje, p. 454).

Sua visão ideológica e poética encontra-se no controle das experiências que encarnam as fontes imagéticas e o próprio ato poético. Sua voz impressiona sem efeitos de literatização; a dicção convence o leitor e o vínculo com o lugar revela moldes próprios, não autoritários,

A ferida de arpão

e singrar no unguento.

Os detritos na areia

e vidrilhar no vento.

As manchas azedando

e a lua que clareia.

É o sol é o sal

num jeito de cantar

macio na pedra.

Ó leopardo sapiente,

ensina-me teu navegar

em líquido segredo.

(MATTOS, C., 2020, “Lamento”. Inéditos. In: Canto até hoje, p. 445).

Na recepção dessas imagens do lugar, comovem o leitor sentimentos de satisfação, luta, respeito e comprometimento com o espaço geográfico, tradução da ecopoesia, que a sua obra exalta.

RENATO DE OLIVEIRA PRATA

Suas proposições poéticas vieram a público, quando recebeu o Prêmio Braskem de Arte e Cultura – Literatura, em 2003, por seu livro Sob o cerco de muros e pássaros. Com o livro Mar interior (PRATA, 2015), recebeu o Prêmio do Selo João Ubaldo Ribeiro, de poesia, e editou recentemente a sua sexta coletânea, Um tempo visto da ponte (PRATA, 2020). Na fronteira do entendimento da função da literatura, hoje, inscreve-se o seu trabalho (cf. PRAZERES, 2020), no qual proponho a qualidade de vizinho da reflexão,

Vez por outra

No canto me perco

Fujo ao trivial

Saio do cerco

E revisito o caos.

(PRATA, 2020, “Intervalo”, p. 32).

Ou quando da opção por um tipo privilegiado de comunicação, articulado com buscas que consolidam a sua poética − atrai para si e para a obra a discussão sobre o sentido e o alcance da poesia, demonstrando a percepção da escuridão, na qual estamos imersos. Para o filósofo italiano, Giorgio Agamben, tal compreensão implica a percepção do contemporâneo, ou seja, o poeta mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não luzes, mas a escuridão (cf. AGAMBEN, 2009, p.62-63),

Tempo de barbárie é qualquer tempo

Num refluxo do Mediterrâneo

Serve-se sal e morte

Para imigrantes traficados

(PRATA, 2020, “SOS no Mare Nostrum”, p. 116).

Trata-se de equivalente da dimensão social reencenada. “Mare Nostrum” é um texto alusivo à tragédia real, contemporânea, e à condição trágica do imigrante; este é um dos interesses do teórico e crítico, Homi Bhabha (2011), que estuda as lacunas no poeta contemporâneo e enfatiza a questão das minorias globais.

Por meio dessas breves sinalizações, concluo admitindo a possibilidade de cruzamento de metáforas na configuração de contextos da poesia dos poetas contemporâneos “sem idade” e grapiúnas, aqui brevemente lidos, todos em pleno desenvolvimento, considerando-se sua profícua produção.

Confesso que as vozes da poesia me provocam, permanente, a iminência do risco e da urgência, que, talvez, apenas a atividade criativa possa compensar, pois, como adverte Cyro de Mattos, citando Cecília Meireles: Mas a vida, / A vida só é possível/ Reinventada. (MEIRELES apud MATTOS, C., 2020, p. 31).

Já quase concluindo, parafraseio o Papa Francisco, quando adverte: Nada deste mundo nos é indiferente (FRANCISCO, Laudato SI, 2015). De onde se extrai uma visão epistemológica realista, mas com uma nesga de esperança. Assim, o cultivo do conhecimento superior deve ser permeado pela busca da sabedoria que nos dê sentido e direção. No mundo que almejamos construir, não há espaço para monólogos. Busca-se o gesto em direção ao outro.

É essa atitude, de empatia, que a Academia de Letras de Itabuna traduz como sua casa no simbólico abraço das letras, expresso no seu emblema — equilíbrio, interlocução, qualidades constituintes da visão feminina de sua liderança. Casa da palavra e delicadeza, Casa de Adonias Filho. A disposição genuína em relacionar-se, a confiança no novo é a vitória do espírito acadêmico, que permite à Casa receber, variedade de pessoas vinculadas a assuntos diversos: psicanálise, teatro, cultura afro-brasileira, direito, ressaltando-se a atividade dos mestres que se dedicam ao amparo do saber da ancestralidade e da voz vigorosa de procedência popular.

Imortalizado pelo seu entusiasmo pelas Letras, o quadro da instituição permanece vivo por meio dos que escrevem os tesouros que hoje habitam no seu acervo, como as obras dos autores aqui citados. A Academia também está viva, no Facebook, no Instagram, na sua página institucional, enfim, na rede mundial, recebendo visitas virtuais, globalmente.

Finalizo refletindo que a crítica e a resiliência são instrumentos de sobrevivência num mundo que se deseje habitável, onde inexista espaço para preconceitos e discriminações. O saber, as letras e artes consolidaram-se, ao longo dos séculos. A voz feminina possui o seu espaço definido. E, se os editores e livreiros são atores indispensáveis à circulação do livro, deve-se exclusivamente aos escritores o cultivo da terra literária. O que é mais afirmativo que a diversidade, que se deve afirmar numa cultura, numa civilização, mistura de etnias, religiões e cores? A Academia de Letras de Itabuna segue, fiel à sua missão de promover literatura, riqueza e dinamismo da língua, leal aos seus fundadores, amiga das pessoas que acolhe ou que por ela passem, compromete-se com as que virão.

Formulo votos de dias prósperos e ativos para a próxima década! Muito obrigada.

Salvador, 30 de março de 2022.

REFERÊNCIAS

BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte, MG: Ed. UFMG, 2011.

CANDIDO, Antonio. [Efemeridade]. In: CELSO, Antonio Lafer (org.). Esboço de figura: Homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Duas Cidades, 1979.

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Heloísa Prata e Prazeres é poeta e ensaísta. Professora adjunta aposen­tada do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia, UFBA. Bacharel e Mestre em Letras pela UFBA, cumpriu doutorado em Lite­ratura, University of Cincinnati, OH. EUA. Foi titular na Universidade Salvador, UNIFACS. Coordenou o Núcleo de Referência Cultural da Fundação Cultural do Estado da Bahia. Publicou em livro, Temas e teimas em narrativas baianas do Centro-Sul. FCJA; UNIFACS; SECULT, 2000; Pequena História, poemas selecionados. Salvador: Quarteto, 2014; Casa onde habitamos, poesia. São Paulo Scortecci, 2016; Arco de sentidos, literatura, tradução e memória cultural. Itabuna: Mondrongo (2018). Tenda acesa, poemas. São Paulo Scortecci, 2020. A vigília dos peixes, poemas. São Paulo Scortecci, 2021. Membro vitalício do International Alumini Association. Desde 2021 ocupa a Cadeira nº 26 da Academia de Letras da Bahia.

[1] Na mitologia grega, os títiros (Tityroi) eram seres rústicos que tocavam flauta no cortejo do deus Dioniso. Melibeu relativo a Melibeia, antiga cidade da Tessália (Grécia), ou a seu natural ou habitante.

Palestra de Heloisa Prazeres em ocasião a abertura do ano de 2022 da ALITA Read More »