ARTIGO — SIMBIOSE – Por Gustavo Velôso

*Gustavo Velôso

13/04/2026

Simbiose é convivência que não se explica por isolamento. Dois organismos se encontram, se ajustam e passam a existir em relação. Não é fusão nem perda de identidade. É presença recíproca. Cada um permanece o que é, mas já não é o mesmo fora do vínculo. A vida, nesse ponto, deixa de ser individual para se tornar relacional.

Na biologia, a simbiose assume formas distintas. Há relações em que ambos se beneficiam, como no mutualismo. Outras em que um se favorece sem prejuízo do outro, como no comensalismo. E há aquelas em que um se sustenta à custa do outro, como no parasitismo. A diferença entre elas não está apenas no resultado, mas na forma como a interação se estabelece e se mantém. Em todos os casos, o que se revela é um princípio comum: a vida se organiza em rede, não em isolamento.

Essa lógica não se limita ao campo biológico. A experiência humana também se constrói em relações que sustentam, tensionam ou transformam. Comunidades, instituições e vínculos cotidianos operam em regimes de interdependência. Ninguém se forma sozinho. O que se chama de autonomia frequentemente repousa sobre estruturas invisíveis de apoio, troca e influência. A simbiose, nesse sentido, não é exceção — é condição.

Mas nem toda relação é equilíbrio. Há vínculos que fortalecem e há vínculos que consomem. Reconhecer a natureza dessas relações é parte do discernimento necessário para sustentar a própria existência. A simbiose que constrói não elimina conflitos, mas os atravessa sem romper a base que mantém os envolvidos. Já a relação que se torna predatória dissolve essa base e compromete o conjunto.

Pensar a simbiose é deslocar o olhar. Em vez de perguntar o que algo é por si, passa-se a observar como se conecta, como responde e como se mantém no tempo. A identidade deixa de ser ponto fixo e passa a ser processo. A existência, então, não se define pelo isolamento, mas pela capacidade de coexistir.

No fim, a simbiose revela um princípio simples e exigente: viver é sustentar relações. Algumas ampliam, outras limitam. O que define o percurso não é a ausência de vínculos, mas a qualidade deles.

*Gustavo Velôso é escritor ferradense, autor da Coleção Raízes Grapiúnas – Selo FERRADAS e Membro Fundador da Academia de Letras de Itabuna (ALITA).

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ARTIGO — INTERDEPENDÊNCIA – Por Gustavo Velôso

*Gustavo Velôso

06/04/2026

 

Interdependência não é dependência disfarçada. É reconhecimento de que nenhuma existência se sustenta sozinha. O indivíduo não desaparece na relação, mas também não se completa fora dela. Há um equilíbrio silencioso entre autonomia e vínculo. Viver é negociar esse ponto.

A ideia de independência absoluta é mais construção do que realidade. Toda ação, mesmo a mais simples, se apoia em estruturas que não aparecem de imediato. Há redes de suporte, trocas contínuas, influências que atravessam decisões e moldam caminhos. O que se chama de escolha individual raramente nasce isolado. Surge de um campo de relações que a torna possível.

Na prática, interdependência se manifesta em diferentes níveis. No plano material, envolve produção, circulação e acesso. No plano social, organiza convivência, regras e pertencimento. No plano humano, sustenta afetos, linguagem e construção de sentido. Esses níveis não operam separados. Se cruzam, se reforçam e, por vezes, entram em tensão.

Reconhecer a interdependência não significa abdicar da própria posição. Significa compreender limites e possibilidades dentro de um sistema mais amplo. A autonomia, nesse contexto, não é ausência de vínculo, mas capacidade de agir sem romper o tecido que sustenta a convivência. É movimento consciente dentro de uma rede que não se controla por completo.

Há, porém, um risco recorrente: confundir interdependência com submissão. Quando a relação deixa de ser troca e passa a ser imposição, o equilíbrio se rompe. O vínculo deixa de sustentar e passa a limitar. Nesse ponto, a interdependência perde seu caráter estrutural e se torna assimétrica. O desafio está em perceber esse deslocamento antes que ele se consolide.

Pensar a interdependência é abandonar a ideia de centro isolado. Não há ponto único de controle. Há conexões. Há fluxos. Há ajustes constantes. A estabilidade não vem da rigidez, mas da capacidade de adaptação dentro das relações que se estabelecem.

No fim, a interdependência revela um princípio direto: ninguém se sustenta sozinho, mas nem por isso deixa de ser responsável pelo que constrói nas relações que mantém.

*Gustavo Velôso é escritor ferradense, autor da Coleção Raízes Grapiúnas – Selo FERRADAS e Membro Fundador da Academia de Letras de Itabuna (ALITA).

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MEU PROFESSOR LUÍS HENRIQUE – Por Cyro de Mattos

Ano de tristezas, de perdas importantes, irrecuperáveis.  Mal me refaço da perda do amigo João Carlos Teixeira Gomes, o nosso querido Joca, recebo outra notícia que abala e nos tira do sério. Leio no jornal que o professor e escritor Luís Henrique Dias Tavares  também nos deixou. Professor emérito da Universidade Federal da Bahia, membro ilustre da Academia de Letras da Bahia, ficcionista dos bons e um dos mais completos conhecedores de história da Bahia. Há tempos que se comentava na Academia de Letras  sobre o seu estado de saúde delicado.

A vida é curta, a morte é uma coisa deplorável. Mas no caso do professor Luís Henrique, se era para continuar a sofrer, sem possibilidades de voltar ao convívio natural de familiares e amigos, prostrado na cama como alguém inútil, sem forças, em difícil quadro clínico, pensava comigo, talvez fosse melhor partir para o descanso definitivo na cidade onde se tem um sono sem sonho.

Ninguém quer abdicar da esperança de que o ente querido pode retomar a vida saudável, nessas horas críticas em que tudo que é feito não reverte o quadro.  Onde há um fio de vida, sempre o coração é aceso com a chama que nos conforta, com a expectativa que nos dá a fé de que os dias poderão voltar ao ritmo anterior das ocorrências normais.

Luís Henrique Dias Tavares foi meu professor de história no Colégio da Bahia (Central), nos idos de 1955. Era querido pelos alunos, que ficavam seduzidos com sua maneira simples de proferir a aula de história. Fazia-nos ver que a história guardava conhecimentos necessários para que se conhecesse a memória da cidade, inclusive a sua beleza antiga. Dominava com competência o assunto que ensinava com prazer. Ninguém naquele momento, sustentado com o saber do professor de estatura baixa, guardião da memória da cidade, ficava desinteressado do que estava sendo transmitido sem esforço. Seus ensinamentos chegavam precisos, acessíveis, com uma didática lúcida, que só fazia bem aos alunos.

Mostrou-se como mais uma faceta de sua personalidade que era um primoroso escritor, premiado pela Academia Brasileira de Letras.  Ao lado do professor de história, havia nele um escritor que relatava as coisas para que fossem absorvidas com prazer pelo leitor atento. Como ficcionista desempenhava seu papel de mentiroso, não o historiador que conta tudo como se deu, não tirando nem pondo, interessado em dizer a verdade. Na condição de ficcionista, sua prosa prazerosa passava a sensação de que era um bom aluno de Cervantes, esse criador da personalização no romance, eterno narrador clássico.

Aquele homem baixinho, de coração generoso, foi o responsável pelo meu ingresso na Academia de Letras da Bahia. Telefonou-me perguntando se eu não queria fazer parte da entidade, que precisava de gente nova para renovar seus quadros. Fiquei surpreso com o convite, embora a generosidade fosse uma das marcas de seu caráter, andava com ele para que a vida fosse útil, se tornasse beneficiada com novas riquezas de conhecimento.

Um dia tudo tem seu fim.  É assim que fomos feitos para passar como o vento durante as estações. Como esse que agora esteve aqui e num instante foi embora. Nessa estrada em que seguimos como passageiros de uma viagem sem volta, na qual vemos como somos limitados, náufragos de um barco que é levado rumo ao porto de mares desconhecidos.

Adianto que professo os valores cristãos, mas como baiano também tenho a crença nos orixás, herdada de minha bisavó paterna, que foi escrava no Brasil colônia. Essa condição sincrética de fé sempre me motivou a não hesitar ante os desafios na jornada vida. É o que me dá força para ser útil ao outros e assim me veja menos incompleto.  Compele-me que siga adiante escrevendo ficções e poemas na tentativa de fazer a leitura do mundo um pouco mais acessível.  Não vou mudar o mundo com os meus escritos, mas não posso deixar de ser um testemunho de meu tempo quando escrevo.  Justamente como nesse agudo instante em que acabo de concluir um poema para ser dedicado como testemunho afetivo ao meu saudoso professor.

Pensando naquele mestre inesquecível, escrevi o poema curto que transcrevo abaixo, calcado nos enunciados impassíveis do tempo.

 

Ó tempo tu quiseste

 

Tuas asas produzem o voo

no ciclo das questões

que não se decifram.

Até no encanto assustas,

a flor que aparece perfeita

breve no pó desaparece.

Costumas negar o amor

com a solidão das horas

em tua oferta do enigma.

O que se foi não tem volta.

Sempre se esgotam as lições

que deram flores ao presente.

 

Ele ocupou a cadeira 1 da Academia de Letras da Bahia, que tem como patrono Frei Vicente de Salvador. A competência, a eficiência e  o bom trato  foram marcas do caráter do acadêmico que tanto zelou por essa casa das letras.

Um adendo. O professor Luís Henrique nasceu em 25 de janeiro de 1926, em Nazaré, faleceu em 22 de junho de 2020, em Salvador.

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ALITA lança documentário sobre a trajetória de João Otávio Macedo

A Academia de Letras de Itabuna (ALITA) estreou mais um episódio do projeto Documentários Alitanos, desta vez dedicado ao Dr. João Otávio Macedo, figura de grande relevância na história intelectual e cultural da instituição.

No documentário, João Otávio compartilha lembranças de sua infância em Itabuna, marcada por simplicidade e forte incentivo ao estudo, além de narrar sua precoce atuação como professor. Sua trajetória acadêmica o levou à medicina, área em que construiu uma carreira sólida como urologista e médico legista, exercendo também a docência ao longo de sua vida.

O depoimento revela ainda aspectos pessoais marcantes, como sua relação com a esposa Zina, recordada com emoção, e sua paixão pela leitura, pela história e pela preservação da memória. Ao longo da narrativa, evidencia-se uma vida pautada pelo conhecimento, pela dedicação à família e pelo compromisso com a sociedade.

O documentário integra a série produzida pela ALITA com o objetivo de registrar as histórias de seus membros, formando um importante acervo audiovisual da memória da Academia.

A produção tem direção da presidente Raquel Rocha, direção de fotografia e edição de Sávio Lawinscky, e trilha sonora original de Lima Junior.

O filme já está disponível no canal oficial da ALITA no YouTube no link abaixo.

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Em gesto de apoio à cultura, Santa Casa de Itabuna cede espaço para a nova sede da ALITA

A Academia de Letras de Itabuna (ALITA) alcançou uma importante conquista institucional com a cessão, em regime de comodato, de um imóvel localizado no bairro Pontalzinho, onde passará a funcionar sua nova sede. Instituição de utilidade pública, a ALITA reafirma, com essa conquista, seu compromisso com a cultura e a literatura na região.

O espaço foi disponibilizado pela Santa Casa de Misericórdia de Itabuna, sob a gestão do provedor Francisco Valdece, fortalecendo o vínculo entre instituições comprometidas com o desenvolvimento humano, social e cultural da cidade.

A relação entre a Santa Casa e a ALITA já possui uma trajetória histórica: a instituição foi registrada nos poemas de Cyro de Mattos, nos documentários dirigidos por Raquel Rocha e foi, ainda, a primeira a receber a Medalha Jorge Amado, a mais alta honraria da Academia.

A concretização da cessão contou com a articulação do Dr. Silvio Porto, membro e Diretor de Comunicação da ALITA, cuja atuação foi fundamental para viabilizar a parceria.

A entrega das chaves foi realizada durante reunião institucional que contou com a presença do provedor Francisco Valdece, do vice-provedor Peter Deviris Santos Lemos, da presidente da ALITA, Raquel Rocha, do primeiro tesoureiro André Wermann e do Dr. Silvio Porto, marcando oficialmente o início de uma nova etapa para a Academia.

Na ocasião, a presidente destacou a relevância da conquista:

“A nova sede representa um passo fundamental para a consolidação da ALITA. Ter um espaço próprio nos permitirá acomodar nosso acervo, acolher melhor nossos membros e desenvolver projetos culturais com maior alcance.”

Também presente, o Dr. Silvio Porto ressaltou o significado mais amplo da parceria:

“A medicina nasceu como arte, e esta parceria reafirma a importância de unir ciência, cultura e sensibilidade humana em benefício da sociedade.”

Com a nova sede, a ALITA amplia sua atuação e presença na comunidade, fortalecendo seu papel como espaço de promoção da literatura, da memória e da cultura regional.

 

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IDEOLOGIA E DIGNIDADE DE ADONIAS FILHO – Por Cyro de Mattos

Em suas criações literárias, Adonias Filho movimenta-se como resultado da união harmoniosa nascida da inspiração e transpiração. Uma técnica moderna que o autor concebe e executa para montar suas histórias imprime na escrita atraente uma densidade dramática, tão dele, que preenche o conteúdo com várias dimensões, formado de conflitos, já demonstrando seu discurso coeso a intenção de romper com os elementos da cronologia linear, de princípio, meio e fim, sempre presentes no texto previsível constituído de acontecimentos excepcionais das narrativas tradicionais. Na escrita mítica, de expressão elíptica, pulsa um estilo nervoso, tantas vezes poético, carregado de significados e abrangências que ultrapassam a realidade imediata.

A obra literária motivada por certa região enfoca o peculiar de determinada cultura, tendo por fundo um cenário típico, cujas condições refletem-se no conteúdo da narrativa, conferindo-lhe nota especial. Os estudiosos dizem que o que faz uma obra regional é o fato de mostrar-se presa, em sua matéria narrativa, a um contexto cultural específico, que se propõe a retratar e de onde vai haurir a sua substância. Isso não a impede de adquirir sentido universal, em função de seu significado portador de humanidades, sentimento do mundo, mensagem vertical da existência, fazendo com que ultrapasse as fronteiras da região retratada.

É o caso desse consagrado narrador, muitas vezes um criador de histórias que tem como cenário a região cacaueira baiana na época da infância quando a selva era impenetrável e hostil. Percebe-se nesse artesão da linguagem uma moderna forma de ser contada a história, harmonizada com a representação das essencialidades da criatura, as quais são retiradas do ambiente onde habitam.

Esse narrador de estilo sincopado e poético é uma das vozes fundamentais da melhor literatura de todos os tempos. Influenciado pelos dramaturgos gregos, Shakespeare, o cinema, do fundo trágico de seus romances, novelas e contos emanam personagens em cujos passos e travessias ressoam os sortilégios da morte através de entonações bíblicas.

Sua arte literária é um corpo vivo decorrente de sentimento humano trabalhado em nível do estético, metáfora aguda da vida, como forma de conhecimento do outro mais o mundo. Emerge de acontecimentos que o escritor captou, em suas auscultações no interior da vida ou que tomou conhecimento através da fala dos mais velhos, principalmente quando a história recriada é desenvolvida na infância da região cacaueira baiana. Tudo que escreveu como ficcionista reveste-se de qualidades expressivas.

Digamos que a liberdade como valor do comportamento humano é a condição essencial para o exercício da vida. A vocação criadora do sujeito sucumbe sem ela. Desvia-se do caminho que o leva para a democracia.  Era essa a crença de Adonias Filho como um homem político, intelectual que pensa e sente a arte de governar os povos na difícil e misteriosa lei da existência. Seu pensamento é contrário aos regimes totalitários, nos quais uma classe de governantes detém o poder, tornando-se uma nova classe, que domina e dirige, dita as normas para que todos cumpram, sem possibilidade de efetuar o diálogo franco e a crítica livre. E dela tira proveito como uma classe dotada de privilégios. Era contrário, portanto, que fosse instaurado no Brasil o regime autoritário no qual a classe proletária fosse a beneficiada no contexto socioeconômico e político. Isso se opõe à própria índole do nosso povo, que no curso da história lutou pela liberdade e procurou preservá-la no sentimento de mundo sob vários aspectos.

A liberdade nasce com o homem, é da própria índole do povo brasileiro. Nasceu com o povo, que é dela herdeiro de um bem indisponível.   É parte fundamental de seu instinto e do seu caráter, gerando no complexo social a própria personalidade nacional e, por extensão, demonstrando que o povo assim já dispõe de vocação democrática.

“A liberdade e o humanismo se fundem como se um estivesse a mover o outro”. (In: A nação grapiúna, editora Tempo Brasileiro, Rio, 1965, p. 9).

Para Adonias Filho, fora da liberdade todos os resultados são condenáveis.

“O homem nasce senhor de si mesmo, livre em sua consciência e seu trabalho, nessa liberdade todo o direito, toda a ordem, toda a justiça, a segurança inteira da sociedade.” (In: A nação grapiúna, p.  10)

Achava que na liberdade se contém a própria inteligência com a sua função intelectual.

“A liberdade exige a luta contra a censura ideológica, contra o comando do partido único nas artes e nas ciências, contra o bloqueio cultural, ainda hoje oprimindo povos e humilhando o homem.” (In: A nação grapiúna, p. 22)

No entanto, se no regime totalitário, de extrema esquerda com base na ideologia marxista, a liberdade é algemada pela classe que detém o poder e dita a norma para que todos obedeçam, em campo oposto, de extrema direita veemente, tal fato de caráter niilista não deixa de acontecer. Aqui também, nesse sistema político organizado oposto ao regime comunista, tudo é censurado e controlado para que as ideias e a utopia não funcionem como ameaças ao regime instalado.

Setores da intelectualidade brasileira sempre acharam que Adonias Filho era um bom romancista em qualquer boa literatura, mas seu credo político de direita não passava de grave equívoco. O autor de Memórias de Lázaro defendia o direito de liberdade e expressão, mas combatia com as armas da inteligência quando de sua concepção política divergia-se, argumentavam seus opositores.  Cobravam dele uma postura política coerente, humana e verdadeira.

Tentavam tirar o foco sobre o romancista esplêndido para o do homem político, discutível, nivelando dimensões diferentes para subtrair o valor literário e ferir a construção estética de um projeto bem-sucedido.

Adonias Filho era um homem sem vaidade, inveja, não guardava ódio. Elegia a generosidade e o diálogo proveitoso na discussão dirigida para colher os bons frutos da vida. Muitas vezes se incompatibilizara com generais e coronéis para que soltassem artistas da esquerda presos.  E sempre conseguia, apesar de que muitos escritores tidos como da extrema esquerda denunciarem companheiros, à época, levando-os à prisão e ao exílio.

Mas o que importa mesmo não é o seu credo no regime político de direita com bases democráticas, mas a sua condição de escritor que inventou com engenho e arte uma das obras mais importantes da ficção brasileira. Deixando de lado um dos momentos de sua fase de adolescente político, militante da direita, o que vale é a visão pertinente de um dos maiores intérpretes da natureza humana sob o pesadelo de sangue e de servidão da morte. Sua dicção, ora com entonação bíblica, ora em mergulhos profundos no existencial entrelaçado com o regional, enfatiza o trágico, mas exalta também o lírico, como se vê em algumas narrativas primorosas de Léguas de promissão e Largo da Palma.

 

Referência 

FILHO, Adonias. AMADO, Jorge.  A nação grapiúna, Discursos na Academia  Brasileira de Letras, Editora Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, 1965.

BERTIÉ, Ludmila. Adonias Filho – a força da terra, Editora Solisluna, Lauro de  Freitas, Bahia, 2015.

ELLISON, Fred. Adonias Filho, in Dictionary of literary biography, volume One

Hundred Forty-Five, Modern latin-american fiction writers, Detroit, A Brucccoli

Clark Layman Book Gale Research Inc. Detroit, Washington, D. C., London,

  1. (pág. 10).

MATTOS, Cyro de. As criações de Adonias Filho, Edição da Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, 2017.

 

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MATÉRIA – Literatura, sensibilidade e espiritualidade

 

Pedro Dhones Rodrigues da Silva é um jovem escritor natural de Pau Brasil, no sul da Bahia, que vem se consolidando como uma voz sensível e original da literatura brasileira contemporânea. Estudante de Ciências Econômicas na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) e de Administração pela UNOPAR, encontrou na escrita o espaço mais autêntico para expressar uma mente criativa, intensa e profundamente reflexiva.

Diagnosticado com autismo, TDAH e Síndrome de Tourette, Pedro transforma a neurodivergência em potência criadora. Sua literatura nasce de uma percepção ampliada do mundo, marcada pelo hiperfoco, pela sensibilidade emocional e por uma forma singular de interpretar a realidade.

Em Mil Vidas em Um Ano Só, seu romance, Pedro Dhones constrói uma narrativa que mistura romance histórico, espiritualidade, misticismo e filosofia. A obra acompanha a trajetória de Frederick e Lina, duas almas presas a um destino que se repete ao longo da história da humanidade, atravessando séculos, impérios, culturas e religiões , da Lapônia ancestral às ruas modernas de Avignon.

A narrativa reflete sobre o tempo, o amor, o perdão e a busca por sentido diante da dor, com uma linguagem refinada, envolvente e de forte dimensão imagética. O místico e o humano coexistem na obra, e a alma se apresenta como verdadeira protagonista.

O livro dialoga intimamente com as vivências do próprio autor, especialmente com a sensação de viver “mil vidas em um só corpo”, o peso das memórias, a fragmentação emocional e a permanente necessidade de recomeçar. Mais do que uma narrativa ficcional, a obra se estabelece como uma reflexão sobre a natureza espiritual e emocional do ser humano.

Pedro Dhones Rodrigues da Silva representa uma nova geração de escritores que unem sensibilidade, reflexão e compromisso social, afirmando a literatura como espaço de elaboração interior, pertencimento e transformação.

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NOTA DE PESAR – Dr. Baldoino Lopes de Azevêdo (1940–2025)

A Academia de Letras de Itabuna (ALITA) manifesta seu mais profundo pesar pelo falecimento do médico, filantropo e humanista Dr. Baldoino Lopes de Azevêdo, ocorrido nesta terça-feira, 23 de dezembro de 2025, aos 85 anos, em decorrência de complicações clínicas, após longo tratamento contra o câncer.

Nascido em 24 de abril de 1940, na cidade de Jequié, Dr. Baldoino fixou-se em Itabuna, onde construiu uma trajetória marcada pelo pioneirismo, pelo compromisso com a saúde pública e pela solidariedade. Foi um dos primeiros médicos a atuar em Itabuna, tornando-se referência ética e profissional, respeitado em toda a região sul da Bahia.

Seu legado, no entanto, foi além dos consultórios e laboratórios. Em 1988, fundou a Fundação Dr. Baldoino Lopes de Azevêdo, no bairro de Fátima, que se tornou referência e cuidado para idosos, crianças e pessoas em situação de vulnerabilidade.

Reconhecendo a grandeza desse trabalho, a ALITA teve a honra de homenageá-lo em vida, por meio da Medalha Jorge Amado – Edição 2025, concedida à Fundação, fruto de uma indicação do escritor Cyro de Mattos, presidente de honra da Academia. O reconhecimento foi um sinal de gratidão pública a uma vida dedicada à dignidade humana.

Neste momento de dor, a ALITA se solidariza com os filhos Kátia, Alexander e Fernanda, com a esposa e toda a família, bem como com os colaboradores e assistidos da Fundação que leva seu nome. Itabuna perde uma de suas figuras mais admiráveis e generosas.

 

Raquel Silva Rocha
Academia de Letras de Itabuna – ALITA
23 de dezembro de 2025

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Academia Brasileira de Letras publica livro de Cyro de Mattos sobre o escritor Adonias Filho

Reunindo onze ensaios, o livro As Criações de Adonias Filho, de Cyro de Mattos, acaba de ser publicado pela Academia Brasileira de Letras na Coleção Austregésilo de Athayde, com prefácio do professor doutor Marcus Mota, da Universidade de Brasília. Contista, cronista, poeta, romancista, ensaísta, autor de livros infantis e juvenis, este é o segundo livro do escritor Cyro de Mattos na área do ensaio, o primeiro foi A Anotação e a Escrita.

O livro As Criações de Adonias Filho apresenta os seguintes ensaios: Trilhas do Homem, Um Criador da Literatura do Cacau, Regional de Alcance Universal, Da Linguagem Romanesca, Mares Trágicos da Bahia e África, Contra a Noite sem Madrugada, Seis Prosas Urbanas de Ficção Breve, Um Forte de Magias e Mitos, Representação do Negro, Indianismo Adoniano e O Mito na Selva Grapiúna.

Além disso, a obra traz, no final, uma cronologia sobre fatos marcantes na vida do consagrado romancista, nascido em Itajuípe, ex-membro da Academia Brasileira de Letras, a relação de suas obras, e um levantamento de obras de e sobre Adonias Filho, muito útil.

No prefácio, o professor, doutor e escritor Marcus Mota observa:

“Creio que este livro é uma grande contribuição para tornar acessível a obra de Adonias Filho, ao balancear atenta escolha de trechos dessa obra com comentários pertinentes e bem propostos. É, novamente, livro de escritor sobre escritor, com todo o cuidado e devoção de alguém que dedicou sua vida para a literatura. Creio que não pode haver melhor homenagem: ser lido por alguém que de fato ama escrever.”

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