Produção Literaria

ARTIGO — SIMBIOSE – Por Gustavo Velôso

*Gustavo Velôso

13/04/2026

Simbiose é convivência que não se explica por isolamento. Dois organismos se encontram, se ajustam e passam a existir em relação. Não é fusão nem perda de identidade. É presença recíproca. Cada um permanece o que é, mas já não é o mesmo fora do vínculo. A vida, nesse ponto, deixa de ser individual para se tornar relacional.

Na biologia, a simbiose assume formas distintas. Há relações em que ambos se beneficiam, como no mutualismo. Outras em que um se favorece sem prejuízo do outro, como no comensalismo. E há aquelas em que um se sustenta à custa do outro, como no parasitismo. A diferença entre elas não está apenas no resultado, mas na forma como a interação se estabelece e se mantém. Em todos os casos, o que se revela é um princípio comum: a vida se organiza em rede, não em isolamento.

Essa lógica não se limita ao campo biológico. A experiência humana também se constrói em relações que sustentam, tensionam ou transformam. Comunidades, instituições e vínculos cotidianos operam em regimes de interdependência. Ninguém se forma sozinho. O que se chama de autonomia frequentemente repousa sobre estruturas invisíveis de apoio, troca e influência. A simbiose, nesse sentido, não é exceção — é condição.

Mas nem toda relação é equilíbrio. Há vínculos que fortalecem e há vínculos que consomem. Reconhecer a natureza dessas relações é parte do discernimento necessário para sustentar a própria existência. A simbiose que constrói não elimina conflitos, mas os atravessa sem romper a base que mantém os envolvidos. Já a relação que se torna predatória dissolve essa base e compromete o conjunto.

Pensar a simbiose é deslocar o olhar. Em vez de perguntar o que algo é por si, passa-se a observar como se conecta, como responde e como se mantém no tempo. A identidade deixa de ser ponto fixo e passa a ser processo. A existência, então, não se define pelo isolamento, mas pela capacidade de coexistir.

No fim, a simbiose revela um princípio simples e exigente: viver é sustentar relações. Algumas ampliam, outras limitam. O que define o percurso não é a ausência de vínculos, mas a qualidade deles.

*Gustavo Velôso é escritor ferradense, autor da Coleção Raízes Grapiúnas – Selo FERRADAS e Membro Fundador da Academia de Letras de Itabuna (ALITA).

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ARTIGO — INTERDEPENDÊNCIA – Por Gustavo Velôso

*Gustavo Velôso

06/04/2026

 

Interdependência não é dependência disfarçada. É reconhecimento de que nenhuma existência se sustenta sozinha. O indivíduo não desaparece na relação, mas também não se completa fora dela. Há um equilíbrio silencioso entre autonomia e vínculo. Viver é negociar esse ponto.

A ideia de independência absoluta é mais construção do que realidade. Toda ação, mesmo a mais simples, se apoia em estruturas que não aparecem de imediato. Há redes de suporte, trocas contínuas, influências que atravessam decisões e moldam caminhos. O que se chama de escolha individual raramente nasce isolado. Surge de um campo de relações que a torna possível.

Na prática, interdependência se manifesta em diferentes níveis. No plano material, envolve produção, circulação e acesso. No plano social, organiza convivência, regras e pertencimento. No plano humano, sustenta afetos, linguagem e construção de sentido. Esses níveis não operam separados. Se cruzam, se reforçam e, por vezes, entram em tensão.

Reconhecer a interdependência não significa abdicar da própria posição. Significa compreender limites e possibilidades dentro de um sistema mais amplo. A autonomia, nesse contexto, não é ausência de vínculo, mas capacidade de agir sem romper o tecido que sustenta a convivência. É movimento consciente dentro de uma rede que não se controla por completo.

Há, porém, um risco recorrente: confundir interdependência com submissão. Quando a relação deixa de ser troca e passa a ser imposição, o equilíbrio se rompe. O vínculo deixa de sustentar e passa a limitar. Nesse ponto, a interdependência perde seu caráter estrutural e se torna assimétrica. O desafio está em perceber esse deslocamento antes que ele se consolide.

Pensar a interdependência é abandonar a ideia de centro isolado. Não há ponto único de controle. Há conexões. Há fluxos. Há ajustes constantes. A estabilidade não vem da rigidez, mas da capacidade de adaptação dentro das relações que se estabelecem.

No fim, a interdependência revela um princípio direto: ninguém se sustenta sozinho, mas nem por isso deixa de ser responsável pelo que constrói nas relações que mantém.

*Gustavo Velôso é escritor ferradense, autor da Coleção Raízes Grapiúnas – Selo FERRADAS e Membro Fundador da Academia de Letras de Itabuna (ALITA).

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MEU PROFESSOR LUÍS HENRIQUE – Por Cyro de Mattos

Ano de tristezas, de perdas importantes, irrecuperáveis.  Mal me refaço da perda do amigo João Carlos Teixeira Gomes, o nosso querido Joca, recebo outra notícia que abala e nos tira do sério. Leio no jornal que o professor e escritor Luís Henrique Dias Tavares  também nos deixou. Professor emérito da Universidade Federal da Bahia, membro ilustre da Academia de Letras da Bahia, ficcionista dos bons e um dos mais completos conhecedores de história da Bahia. Há tempos que se comentava na Academia de Letras  sobre o seu estado de saúde delicado.

A vida é curta, a morte é uma coisa deplorável. Mas no caso do professor Luís Henrique, se era para continuar a sofrer, sem possibilidades de voltar ao convívio natural de familiares e amigos, prostrado na cama como alguém inútil, sem forças, em difícil quadro clínico, pensava comigo, talvez fosse melhor partir para o descanso definitivo na cidade onde se tem um sono sem sonho.

Ninguém quer abdicar da esperança de que o ente querido pode retomar a vida saudável, nessas horas críticas em que tudo que é feito não reverte o quadro.  Onde há um fio de vida, sempre o coração é aceso com a chama que nos conforta, com a expectativa que nos dá a fé de que os dias poderão voltar ao ritmo anterior das ocorrências normais.

Luís Henrique Dias Tavares foi meu professor de história no Colégio da Bahia (Central), nos idos de 1955. Era querido pelos alunos, que ficavam seduzidos com sua maneira simples de proferir a aula de história. Fazia-nos ver que a história guardava conhecimentos necessários para que se conhecesse a memória da cidade, inclusive a sua beleza antiga. Dominava com competência o assunto que ensinava com prazer. Ninguém naquele momento, sustentado com o saber do professor de estatura baixa, guardião da memória da cidade, ficava desinteressado do que estava sendo transmitido sem esforço. Seus ensinamentos chegavam precisos, acessíveis, com uma didática lúcida, que só fazia bem aos alunos.

Mostrou-se como mais uma faceta de sua personalidade que era um primoroso escritor, premiado pela Academia Brasileira de Letras.  Ao lado do professor de história, havia nele um escritor que relatava as coisas para que fossem absorvidas com prazer pelo leitor atento. Como ficcionista desempenhava seu papel de mentiroso, não o historiador que conta tudo como se deu, não tirando nem pondo, interessado em dizer a verdade. Na condição de ficcionista, sua prosa prazerosa passava a sensação de que era um bom aluno de Cervantes, esse criador da personalização no romance, eterno narrador clássico.

Aquele homem baixinho, de coração generoso, foi o responsável pelo meu ingresso na Academia de Letras da Bahia. Telefonou-me perguntando se eu não queria fazer parte da entidade, que precisava de gente nova para renovar seus quadros. Fiquei surpreso com o convite, embora a generosidade fosse uma das marcas de seu caráter, andava com ele para que a vida fosse útil, se tornasse beneficiada com novas riquezas de conhecimento.

Um dia tudo tem seu fim.  É assim que fomos feitos para passar como o vento durante as estações. Como esse que agora esteve aqui e num instante foi embora. Nessa estrada em que seguimos como passageiros de uma viagem sem volta, na qual vemos como somos limitados, náufragos de um barco que é levado rumo ao porto de mares desconhecidos.

Adianto que professo os valores cristãos, mas como baiano também tenho a crença nos orixás, herdada de minha bisavó paterna, que foi escrava no Brasil colônia. Essa condição sincrética de fé sempre me motivou a não hesitar ante os desafios na jornada vida. É o que me dá força para ser útil ao outros e assim me veja menos incompleto.  Compele-me que siga adiante escrevendo ficções e poemas na tentativa de fazer a leitura do mundo um pouco mais acessível.  Não vou mudar o mundo com os meus escritos, mas não posso deixar de ser um testemunho de meu tempo quando escrevo.  Justamente como nesse agudo instante em que acabo de concluir um poema para ser dedicado como testemunho afetivo ao meu saudoso professor.

Pensando naquele mestre inesquecível, escrevi o poema curto que transcrevo abaixo, calcado nos enunciados impassíveis do tempo.

 

Ó tempo tu quiseste

 

Tuas asas produzem o voo

no ciclo das questões

que não se decifram.

Até no encanto assustas,

a flor que aparece perfeita

breve no pó desaparece.

Costumas negar o amor

com a solidão das horas

em tua oferta do enigma.

O que se foi não tem volta.

Sempre se esgotam as lições

que deram flores ao presente.

 

Ele ocupou a cadeira 1 da Academia de Letras da Bahia, que tem como patrono Frei Vicente de Salvador. A competência, a eficiência e  o bom trato  foram marcas do caráter do acadêmico que tanto zelou por essa casa das letras.

Um adendo. O professor Luís Henrique nasceu em 25 de janeiro de 1926, em Nazaré, faleceu em 22 de junho de 2020, em Salvador.

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IDEOLOGIA E DIGNIDADE DE ADONIAS FILHO – Por Cyro de Mattos

Em suas criações literárias, Adonias Filho movimenta-se como resultado da união harmoniosa nascida da inspiração e transpiração. Uma técnica moderna que o autor concebe e executa para montar suas histórias imprime na escrita atraente uma densidade dramática, tão dele, que preenche o conteúdo com várias dimensões, formado de conflitos, já demonstrando seu discurso coeso a intenção de romper com os elementos da cronologia linear, de princípio, meio e fim, sempre presentes no texto previsível constituído de acontecimentos excepcionais das narrativas tradicionais. Na escrita mítica, de expressão elíptica, pulsa um estilo nervoso, tantas vezes poético, carregado de significados e abrangências que ultrapassam a realidade imediata.

A obra literária motivada por certa região enfoca o peculiar de determinada cultura, tendo por fundo um cenário típico, cujas condições refletem-se no conteúdo da narrativa, conferindo-lhe nota especial. Os estudiosos dizem que o que faz uma obra regional é o fato de mostrar-se presa, em sua matéria narrativa, a um contexto cultural específico, que se propõe a retratar e de onde vai haurir a sua substância. Isso não a impede de adquirir sentido universal, em função de seu significado portador de humanidades, sentimento do mundo, mensagem vertical da existência, fazendo com que ultrapasse as fronteiras da região retratada.

É o caso desse consagrado narrador, muitas vezes um criador de histórias que tem como cenário a região cacaueira baiana na época da infância quando a selva era impenetrável e hostil. Percebe-se nesse artesão da linguagem uma moderna forma de ser contada a história, harmonizada com a representação das essencialidades da criatura, as quais são retiradas do ambiente onde habitam.

Esse narrador de estilo sincopado e poético é uma das vozes fundamentais da melhor literatura de todos os tempos. Influenciado pelos dramaturgos gregos, Shakespeare, o cinema, do fundo trágico de seus romances, novelas e contos emanam personagens em cujos passos e travessias ressoam os sortilégios da morte através de entonações bíblicas.

Sua arte literária é um corpo vivo decorrente de sentimento humano trabalhado em nível do estético, metáfora aguda da vida, como forma de conhecimento do outro mais o mundo. Emerge de acontecimentos que o escritor captou, em suas auscultações no interior da vida ou que tomou conhecimento através da fala dos mais velhos, principalmente quando a história recriada é desenvolvida na infância da região cacaueira baiana. Tudo que escreveu como ficcionista reveste-se de qualidades expressivas.

Digamos que a liberdade como valor do comportamento humano é a condição essencial para o exercício da vida. A vocação criadora do sujeito sucumbe sem ela. Desvia-se do caminho que o leva para a democracia.  Era essa a crença de Adonias Filho como um homem político, intelectual que pensa e sente a arte de governar os povos na difícil e misteriosa lei da existência. Seu pensamento é contrário aos regimes totalitários, nos quais uma classe de governantes detém o poder, tornando-se uma nova classe, que domina e dirige, dita as normas para que todos cumpram, sem possibilidade de efetuar o diálogo franco e a crítica livre. E dela tira proveito como uma classe dotada de privilégios. Era contrário, portanto, que fosse instaurado no Brasil o regime autoritário no qual a classe proletária fosse a beneficiada no contexto socioeconômico e político. Isso se opõe à própria índole do nosso povo, que no curso da história lutou pela liberdade e procurou preservá-la no sentimento de mundo sob vários aspectos.

A liberdade nasce com o homem, é da própria índole do povo brasileiro. Nasceu com o povo, que é dela herdeiro de um bem indisponível.   É parte fundamental de seu instinto e do seu caráter, gerando no complexo social a própria personalidade nacional e, por extensão, demonstrando que o povo assim já dispõe de vocação democrática.

“A liberdade e o humanismo se fundem como se um estivesse a mover o outro”. (In: A nação grapiúna, editora Tempo Brasileiro, Rio, 1965, p. 9).

Para Adonias Filho, fora da liberdade todos os resultados são condenáveis.

“O homem nasce senhor de si mesmo, livre em sua consciência e seu trabalho, nessa liberdade todo o direito, toda a ordem, toda a justiça, a segurança inteira da sociedade.” (In: A nação grapiúna, p.  10)

Achava que na liberdade se contém a própria inteligência com a sua função intelectual.

“A liberdade exige a luta contra a censura ideológica, contra o comando do partido único nas artes e nas ciências, contra o bloqueio cultural, ainda hoje oprimindo povos e humilhando o homem.” (In: A nação grapiúna, p. 22)

No entanto, se no regime totalitário, de extrema esquerda com base na ideologia marxista, a liberdade é algemada pela classe que detém o poder e dita a norma para que todos obedeçam, em campo oposto, de extrema direita veemente, tal fato de caráter niilista não deixa de acontecer. Aqui também, nesse sistema político organizado oposto ao regime comunista, tudo é censurado e controlado para que as ideias e a utopia não funcionem como ameaças ao regime instalado.

Setores da intelectualidade brasileira sempre acharam que Adonias Filho era um bom romancista em qualquer boa literatura, mas seu credo político de direita não passava de grave equívoco. O autor de Memórias de Lázaro defendia o direito de liberdade e expressão, mas combatia com as armas da inteligência quando de sua concepção política divergia-se, argumentavam seus opositores.  Cobravam dele uma postura política coerente, humana e verdadeira.

Tentavam tirar o foco sobre o romancista esplêndido para o do homem político, discutível, nivelando dimensões diferentes para subtrair o valor literário e ferir a construção estética de um projeto bem-sucedido.

Adonias Filho era um homem sem vaidade, inveja, não guardava ódio. Elegia a generosidade e o diálogo proveitoso na discussão dirigida para colher os bons frutos da vida. Muitas vezes se incompatibilizara com generais e coronéis para que soltassem artistas da esquerda presos.  E sempre conseguia, apesar de que muitos escritores tidos como da extrema esquerda denunciarem companheiros, à época, levando-os à prisão e ao exílio.

Mas o que importa mesmo não é o seu credo no regime político de direita com bases democráticas, mas a sua condição de escritor que inventou com engenho e arte uma das obras mais importantes da ficção brasileira. Deixando de lado um dos momentos de sua fase de adolescente político, militante da direita, o que vale é a visão pertinente de um dos maiores intérpretes da natureza humana sob o pesadelo de sangue e de servidão da morte. Sua dicção, ora com entonação bíblica, ora em mergulhos profundos no existencial entrelaçado com o regional, enfatiza o trágico, mas exalta também o lírico, como se vê em algumas narrativas primorosas de Léguas de promissão e Largo da Palma.

 

Referência 

FILHO, Adonias. AMADO, Jorge.  A nação grapiúna, Discursos na Academia  Brasileira de Letras, Editora Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, 1965.

BERTIÉ, Ludmila. Adonias Filho – a força da terra, Editora Solisluna, Lauro de  Freitas, Bahia, 2015.

ELLISON, Fred. Adonias Filho, in Dictionary of literary biography, volume One

Hundred Forty-Five, Modern latin-american fiction writers, Detroit, A Brucccoli

Clark Layman Book Gale Research Inc. Detroit, Washington, D. C., London,

  1. (pág. 10).

MATTOS, Cyro de. As criações de Adonias Filho, Edição da Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, 2017.

 

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DISCURSO — MEDALHA JORGE AMADO À FUNDAÇÃO DR. BALDOINO LOPES DE AZEVÊDO – Por Silvio Porto de Oliveira

Academia de Letras de Itabuna — 23 de outubro de 2025

Senhoras e senhores, confrades e confreiras, autoridades, amigos da comunidade, colaboradores e residentes do Lar dos Idosos: boa noite.

 Hoje a Academia de Letras de Itabuna abre o coração para celebrar uma obra que honra a nossa cidade com gestos diários de humanidade. Ao conceder a Medalha Jorge Amado à Fundação Dr. Baldoino Lopes de Azevêdo, a Academia reconhece um trabalho que transforma a palavra “solidariedade” em prática cotidiana — silenciosa, constante e luminosa.

A história que aqui reverenciamos começa em abril de 1988, quando a Fundação nasce voltada às crianças carentes do bairro de Fátima, pela Creche Pequeno Lar, com aulas e regime de semi-internato. Dois anos depois, em 1990, vem a Escola Estadual Dr. Aníbal Muniz Silvany, fruto de um convênio com a Secretaria de Educação do Estado da Bahia. Foram dez anos de serviço abnegado até que, diante do aumento da evasão escolar, a instituição — com sabedoria e fidelidade à sua missão — ajusta a rota.

É então que o médico e presidente da Fundação, Dr. Baldoino Lopes de Azevêdo, volta o olhar para outra fronteira de cuidado: o idoso em vulnerabilidade. Levanta apartamentos e enfermarias no conhecido Lar dos Idosos, que hoje abriga 73 pessoas em regime de internato. E faz questão de reafirmar: a Fundação não é casa de saúde; é uma instituição social — um lar que devolve pertencimento, segurança e afeto a quem mais precisa.

Essa obra nos comove porque se sustenta em dois pilares que definem a grandeza de Itabuna: trabalho e ternura. Trabalho, para manter o cuidado especializado funcionando todos os dias, sem feriado para a dignidade. Ternura, para que cada idoso seja chamado pelo nome, ouvido nas suas memórias, respeitado nas suas escolhas, amparado nas suas dores e convidado a recomeçar.

Ao evocarmos Jorge Amado — que fez do nosso chão grapiúna um território universal — lembramos que a literatura nasce do humano. E não há literatura mais alta do que salvar a dignidade de um semelhante. Nas páginas vivas da Fundação, cada quarto é uma crônica; cada gesto, um capítulo; cada sorriso restituído, um desfecho feliz que a vida insistiu em escrever.

Dr. Baldoino, receba nesta noite a gratidão de Itabuna. Na pessoa do senhor, a Academia saúda toda a equipe — dirigentes, colaboradores, voluntários e parceiros — que faz do Lar dos Idosos um abrigo de corpo e alma. O senhor nos ensina que medicina e compromisso social não se excluem: se completam. Que o bisturi da competência e o abraço da compaixão podem e devem caminhar juntos.

Por tudo isso, em nome da Academia de Letras de Itabuna, tenho a honra de conferir a Medalha Jorge Amado à Fundação Dr. Baldoino Lopes de Azevêdo, pelo conjunto de relevantes serviços prestados à nossa comunidade. Que esta medalha seja mais do que um reconhecimento: seja um abraço público da cidade aos que cuidam de seus velhos com profissionalismo e calor humano.

Que sigamos, inspirados por este exemplo, plantando árvores de cuidado em cada rua de Itabuna — porque quem cuida de gente cuida da história, e a história que cuidamos hoje é o futuro que desejamos colher.

 

Muito obrigado.

Silvio Porto de Oliveira

23/10/2025

 

 

HOMENAGEM AO DEDICADO MÉDICO

  1. BALDOINO LOPES DE AZEVÊDO

 

 

“Por sua dedicação incansável e cuidado compassivo, expressamos nossa profunda gratidão pelo compromisso em proporcionar atendimento humanizado, que tem feito a diferença na vida de idosos em situação de vulnerabilidade e de risco pessoal e social.”

 

 

Silvio Porto de Oliveira

Academia de Letras de Itabuna — 23/10/2025

 

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DISCURSO DE AGRADECIMENTO DA FUNDAÇÃO BALDOÍNO – Por Kátia Guedes de Azevedo

Boa noite a todos!

Quero cumprimentar a todos os presentes; autoridades, representantes da Academia de Letras de Itabuna, presidente, diretores, voluntários e demais convidados.

É com imensa gratidão e alegria que me coloco hoje para falar em nome de todos os que foram tocados pela nobre missão da Fundação Dr. Baldoino. Em nome do Instituidor, Baldoino Lopes de Azevedo, creche, diretores, conselheiros, voluntários, e crianças e principalmente os idosos, que são a razão de tudo isso.

Há quase 40 anos, a Fundação Baldoíno tem sido um farol de esperança e dignidade para inúmeras famílias. Em abril de 1985 começou a atuar com crianças, criando então a Creche Pequeno Lar, passado algum tempo depois a ter a parceria do Estado, na Escola Estadual Dr. Anibal Muniz Silvany, homenagem feita a seu orientador na anatomia patológica. Sentindo a necessidade de retribuir o cuidado que recebeu ao ir estudar em Salvador, veio a criar o abrigo Lar dos Idosos, hoje denominada ILPI. A Fundação também prestou auxílio a portadores de neoplasias através da Casa de Apoio, assim como aos portadores de HIV.

Hoje, mantemos em funcionamento apenas a creche Pequeno Lar (em parceria com o município) e a ILPI com 59 internos, atendendo na creche 106 crianças de 2 a 4 anos.

Na ILPI nem todos são pessoas idosos, 08 albergados têm menos de 60 anos e possuem patologias diversas.

Não se trata apenas de um espaço físico, mas de um verdadeiro Lar, onde cada pessoa é vista, ouvida e valorizada. A dedicação de cada voluntario e funcionário é prova de que a empatia e o carinho podem de fato transformar vidas.

Nossos idosos são a nossa história viva. São eles que carregam as memorias, as tradições e a sabedoria que moldaram nossa comunidade. Itabuna é um município com grande numero de idosos, em torno de 30 mil pessoas. Segundo o ultimo censo, mais de 17% da população esta inserida nos 60+. Precisamos de politicas públicas que envolvam aspectos de saúde e assistência social, com serviços oferecidos pela prefeitura e instituições especializadas.

A realidade do envelhecimento populacional no Brasil com seus desafios estruturais, também se reflete no crescente abandono e necessidade de adaptação dos serviços do município a demanda de uma população que envelhece rapidamente, exigindo ações e serviços como centros de referência em saúde e assistência em ILPI”s.

A Fundação Dr. Baldoino não apenas cuida deles, mas nos lembra da importância de honrar e respeitar essa valiosa etapa da vida.

Trabalhamos em prol de manter a dignidade e a qualidade de vida dessas pessoas. Não podemos parar, precisamos da ajuda da sociedade para continuarmos com nossas ações.

A Instituição nos inspira a olhar para o futuro com mais esperança. O que fazemos hoje para os nossos idosos, construímos para a nossa própria velhice e para os nossos filhos. Que esta homenagem sirva como um lembrete de que o verdadeiro valor de uma sociedade se mede pela forma como ela trata seus membros mais vulneráveis.

Mais uma vez nosso muito obrigada a todos.

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Discurso da Presidente Raquel Rocha na Solenidade de Outorga da Medalha Jorge Amado 2025

Senhoras e senhores, boa noite.

Mais uma vez, a Academia de Letras de Itabuna (ALITA) se reúne para celebrar e para afirmar publicamente aquilo em que acreditamos: a cultura transforma, a educação liberta e o cuidado com o outro é uma das mais nobres formas de existência.

Hoje realizamos a segunda edição da Medalha Jorge Amado, nossa mais alta distinção, idealizada pelo escritor Cyro de Mattos, presidente de honra da nossa instituição.  Sua sensibilidade e visão de futuro nos trouxeram este gesto simbólico e profundo: homenagear, anualmente, personalidades e instituições que dignificam a arte, a ciência, a cultura e o compromisso humano.

Essa medalha é um símbolo carrega o nome de Jorge Amado e, com ele, a alma da nossa região, a força da literatura, o olhar para os invisíveis e a defesa dos valores que constroem uma sociedade mais justa e sensível.

No ano passado, homenageamos a professora Renée Albagli, ex-reitora da UESC, por sua contribuição histórica à educação superior, e a Santa Casa de Misericórdia de Itabuna, por sua atuação centenária no cuidado com a saúde dos mais vulneráveis.

Neste ano de 2025, temos, mais uma vez, a honra de homenagear dois nomes escolhidos com sabedoria. Ambos indicados por Cyro de Mattos e aprovados por unanimidade pelos membros da Academia: a Fundação Dr. Baldoino Lopes de Azevêdo e o escritor Jorge de Souza Araújo.

A Fundação Dr. Baldoino nasceu de um gesto de gratidão. Dr. Baldoino, médico e homem de fé, transformou sua trajetória pessoal em uma missão social. O que começou com uma creche, logo evoluiu para o acolhimento de idosos em situação de vulnerabilidade. Hoje, o Lar dos Idosos, mantido com dificuldades e amor, abriga dezenas de vidas que ali reencontram dignidade, afeto e paz. É um espaço de humanidade, onde se cultiva o respeito à memória, às histórias e à espiritualidade.

Já o professor Jorge de Souza Araújo é um intelectual de grandeza rara. Poeta, ensaísta, educador e pensador, autor de quase 50 livros, é uma referência da literatura brasileira e um mestre do pensamento crítico e humanista.  Sua obra transita entre o sertão de sua Baixa Grande natal e os grandes temas da cultura ocidental, com densidade ímpar. Jorge não apenas escreve, ele pensa com o coração e sente com a razão. Ao recebê-lo aqui hoje, celebramos sua obra, sua presença entre nós e seu exemplo de intelectualidade comprometida com o humano.

Senhoras e senhores, esta comenda carrega consigo o nome de Jorge Amado, mas também o sopro de tantas vozes que, como ele, narram, cuidam, acolhem, educam e transformam. A ALITA, por meio da Medalha Jorge Amado, faz mais do que homenagear: ela perpetua histórias que merecem ser lembradas e replicadas.

Parabenizo com emoção os homenageados deste ano e agradeço ao querido Cyro de Mattos por sua iniciativa brilhante, que já se consolidou como um dos momentos mais significativos da nossa vida acadêmica e cultural.

Muito obrigada a todos. Que esta noite seja mais uma página bela na história de nossa cidade e da nossa Academia.

Raquel Rocha

23 de outubro de 2025

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QUANTO AMOR PODE CABER EM UMA DESPEDIDA? – Por Raquel Rocha

Há histórias que não se medem em números, mas em vidas tocadas. A da Escola Pio XII é uma delas, uma jornada de 56 anos iniciada pelas mãos firmes, humildes e visionárias de Eliabe Izabel de Moraes. E é também com ela que essa história se encerra.

Fundada em 1969 por Eliabe e sua irmã Eliúde, a Pio XII nasceu pequena, com apenas 36 alunos, em uma casa simples, com carteiras feitas pelo pai das duas moças. Mas desde o princípio carregava o amor à educação, o compromisso com o ser humano, a crença de que ensinar é também cuidar, acolher e transformar

Eliabe dedicou a maior parte da sua vida à escola. Educou três gerações. Viu pais voltarem com os filhos, e depois os filhos voltarem com seus filhos. Como diretora, conheceu de perto centenas de famílias. Acompanhou suas rotinas, desafios, erros e acertos. Viu esforços de mães e pais. Angústias, conquistas, momentos de crise e de superação de cada família. Orientou com firmeza e acolheu com empatia. Fez parte da vida de cada uma dessas família, como educadora, conselheira e, muitas vezes, como amiga.

Sou testemunha desse amor e dessa dedicação. Minhas duas filhas estudaram na Escola Pio XII. E, como toda mãe, eu também sentia aquele receio de deixar minhas filhas pequenas longe de mim. Mas na Pio XII eu não sofri, porque sabia que elas estavam seguras e amadas. Essa escola foi mais do que uma instituição de ensino: foi uma extensão da minha família. E sei que foi assim para muitas outras famílias também. O cuidado, a atenção, a presença constante de Eliabe criaram um ambiente de confiança e afeto que nenhuma mãe vai esquecer.

Agora, aos 56 anos de existência, a Escola Pio XII encerra seu ciclo. Não por falta de amor ou de força, mas porque sua fundadora, sem herdeiros para assumir a missão, entendeu que era hora de concluir com alegria e gratidão essa obra de uma vida inteira.

Encerrar esse CNPJ é, na verdade, eternizá-lo. A Pio XII continuará viva na memória dos que por ela passaram, nos ensinamentos deixados, nas amizades cultivadas, nas escolhas de vida que ali começaram. Eliabe encerra a jornada como começou: com coragem, serenidade e amor

Sua história não termina com o fim da escola. Ela permanece onde sempre esteve: no coração de cada aluno que aprendeu mais do que matérias, aprendeu valores. Permanece na cidade que cresceu junto com a escola. E permanece na certeza de que algumas missões são tão grandiosas que, mesmo quando se encerram, continuam a florescer por gerações.

Obrigada, Eliabe.
Por ter começado, sustentado e concluído com tanta beleza uma obra que é, ao mesmo tempo, escola e testemunho de dedicação.

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DISCURSO DA PRESIDENTE DA ALITA EM OCASIÃO DA POSSE DE ADEMILTON BATISTA E JEFFSON BRAGA.

DISCURSO DA PRESIDENTE DA ALITA EM OCASIÃO DA POSSE DE ADEMILTON BATISTA E JEFFSON BRAGA.

Por Raquel Rocha*

Excelentíssimos confrades e confreiras, ilustres autoridades, diletos convidados.

Nesta noite de júbilo e significado, a augusta Academia de Letras de Itabuna acolhe, com reverência e alegria, dois novos confrades que ora se incorporam ao nosso sodalício. Passam a compor este egrégio corpo acadêmico os senhores Ademilton Batista Santos, que ocupará a Cadeira nº 4, consagrada à memória de Helena Borborema, e Jeffson Oliveira Braga, eleito para a Cadeira nº 37, sob o patrocínio de Luiz Gama. Ambas as cadeiras não apenas homenageiam nomes de relevo, mas simbolizam o compromisso com a herança imaterial de nossa gente.

Que os novos imortais, doravante investidos deste dever honroso, saibam guardar com zelo o legado de seus patronos e perpetuar, com sua obra e conduta, a dignidade que se espera de um acadêmico.

Ademilton Batista é homem de sensibilidade aguda, transita entre as artes com naturalidade: a poesia, o rádio, o cinema e a ação social. Ao lado de seu filho, criou o programa Café com Poesia e Cinema e o projeto Poesia que Cura, iniciativas que conjugam lirismo e cuidado, em hospitais, telas e almas. Jeffson Oliveira Braga, por sua vez, é espírito cultivado, afeito à reflexão profunda. Professor, jurista e ensaísta, um homem do pensamento e da escrita. Sua produção acadêmica insere-se nos debates do mundo contemporâneo. É um cultivador da palavra pensada.

Diletos empossados,

A ALITA não é apenas um repositório de nomes ilustres. É uma morada da palavra, um território onde a memória se faz ato, e o verbo, permanência. Esperamos que aqui lancem raízes— e também asas. Que não ocupem apenas cadeiras, mas postos de trabalho e entrega. Que não apenas tragam sua obra, mas também sua disposição de servir à cultura, à literatura e à cidade.

Aqui se trabalha. Com afinco, com esmero, com amor à linguagem e à missão que nos foi confiada. A ALITA é grande e tornar-se-á ainda maior com a presença dos que nela ingressam com humildade e ardor.

Como nos inspira o hino da ALITA, de autoria do estimado confrade Cyro de Mattos, a cidade, conosco, conhece que a vida não é coisa vã, e que é pela palavra, essa centelha divina que nos distingue, que a beleza de cada manhã se anuncia.

Na jornada de cada acadêmico, buscamos voar com as asas da alma, escrevendo páginas que não se apagam, orientadas por razão, emoção e o sentido de viver com amor, pois é assim que se diz, com autenticidade, o que vem do coração.

Sejam, pois, bem-vindos a esta Casa. Que o vosso labor aqui seja fecundo e memorável.

Muito obrigada.

12 de setembro de 2025

*Raquel Rocha é graduada em Psicologia, Comunicação Social (Rádio e TV) e Ciências Econômicas pela UESC, com pós-graduação em Saúde Mental, Neuropsicologia e Terapia Familiar. Possui formação em Psicanálise. Como cineasta, dirigiu diversos documentários premiados. No teatro, produziu e dirigiu peças, e também atua como apresentadora de TV. Tem experiência em divulgação cultural nas áreas de teatro, cinema, música e projetos sociais. Desenvolve pesquisas em Psicologia, Psicanálise, Saúde Mental e Cinema. É membro da Academia de Letras de Itabuna (ALITA), ocupando a cadeira 25, cuja patrona é Elvira Foeppel.

DISCURSO DA PRESIDENTE DA ALITA EM OCASIÃO DA POSSE DE ADEMILTON BATISTA E JEFFSON BRAGA. Read More »