Produção Literaria

DISCURSO DE AGRADECIMENTO PELA HOMENAGEM – Por Clodovil Soares

Ilustríssima Senhora Raquel Rocha, digníssima Presidente da Academia de Letras de Itabuna,

Ilustríssimo Senhor Cyro de Mattos, nosso admirável Presidente de Honra,

Confrades e confreiras desta respeitável Academia de Letras, demais autoridades presentes,

Senhoras e senhores,

Recebo esta homenagem, nesta noite, com um sentimento profundo de gratidão, de humildade e, acima de tudo, de responsabilidade.

Gratidão, porque ser reconhecido por uma instituição da grandeza moral e intelectual da Academia de Letras de Itabuna representa muito mais do que uma honraria; representa um gesto que toca o espírito de quem acredita que servir à vida pública é também servir à memória, à identidade e à alma do seu povo.

Humildade, porque sei que nenhum homem constrói nada sozinho. Cada conquista nasce do diálogo, da confiança e da união de pessoas que acreditam em uma mesma causa.

E responsabilidade, porque toda homenagem verdadeira não apenas reconhece o passado, mas também nos lembra do compromisso que temos com o futuro.

A aprovação do título de utilidade pública da ALITA na Câmara Municipal foi, para mim, mais do que um ato administrativo ou legislativo. Foi um ato de justiça!

Justiça para com uma instituição que há tantos anos se dedica a preservar aquilo que nenhuma cidade pode perder: sua cultura, sua literatura, sua memória e a identidade da sua gente.

Graças a vocês, Itabuna não é só “a cidade do cacau”; é a cidade das letras que unem! Em tempos de divisões — políticas, sociais e digitais —, a ALITA é o antídoto. É reconhecer que a ALITA presta um serviço essencial: educa, emociona, une e promove cultura! A ALITA incentiva o surgimento de mentes brilhantes no desafio do rigor acadêmico — quando promove seminários sobre literatura grapiúna e organiza oficinas para jovens —, ao mesmo tempo em que conquista corações com a poesia, fazendo chorar e rir a alma e a essência do seu povo.

Uma cidade não é feita apenas de ruas, de prédios ou de praças. Uma cidade é feita de histórias. É feita de vozes. É feita de pessoas que escrevem, pensam, ensinam e inspiram.

E a ALITA tem sido exatamente isso: um farol cultural para Itabuna.

Ao longo de sua trajetória, esta Academia tem mantido viva a chama da palavra em um tempo em que, muitas vezes, o silêncio da indiferença ameaça apagar aquilo que é mais nobre em uma sociedade: o pensamento.

Por isso, quando esta Casa buscou o reconhecimento público que lhe era devido, eu compreendi imediatamente que não se tratava apenas de aprovar um projeto. Tratava-se de reconhecer oficialmente o valor de uma instituição que já era valiosa há muito tempo no coração da nossa cidade.

Quero aqui expressar minha admiração à Presidente Raquel Rocha, cuja liderança firme, sensível e determinada foi essencial para que esse momento pudesse acontecer.

Sua dedicação à cultura itabunense demonstra que a verdadeira liderança não é aquela que apenas ocupa um cargo, mas aquela que inspira uma missão e busca cumpri-la.

Quero também render minha mais sincera reverência ao mestre Cyro de Mattos, uma das maiores referências literárias do nosso país. Sua trajetória ultrapassa as páginas dos livros.

Sua vida se tornou um capítulo importante da própria história cultural de Itabuna. Escritores como Cyro de Mattos não apenas escrevem palavras — escrevem um legado!

E, quando uma cidade aprende a honrar seus mestres, ela demonstra maturidade para construir um futuro melhor.

Aos confrades e confreiras desta Academia, quero dizer que esta homenagem me toca profundamente porque vem de mulheres e homens que dedicam suas vidas à inteligência, à arte e à preservação da nossa identidade coletiva.

Receber o reconhecimento de vocês é algo que levarei comigo com enorme honra.

Saibam que meu mandato continuará sempre de portas abertas para esta Academia e para todos os projetos que a impulsionam. Porque acredito que a alocação de recursos em cultura não é gasto. É investimento em consciência. É investimento em educação. É investimento em cidadania. É investimento em humanidade.

Uma sociedade que valoriza seus escritores valoriza seu pensamento. Uma sociedade que valoriza seus poetas valoriza sua sensibilidade. E uma sociedade que valoriza sua memória constrói seu futuro com mais dignidade.

Hoje, recebo esta homenagem não como um ponto de chegada. Recebo-a como um chamado para continuar e prosseguir defendendo aquilo que eleva a nossa cidade, que fortalece a identidade do nosso povo. Por isso, continuarei servindo com seriedade, com respeito e com amor por Itabuna.

Quero encerrar dizendo que existem homenagens que ficam na parede. Mas existem homenagens que ficam na alma. E esta, sem dúvida, ficará guardada em meu coração.

Parabéns, ALITA, pelos seus 15 anos! Avante, ALITA! Avante, Itabuna!

Muito obrigado a todos!

 

 

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PARA CLODOVIL: DISCURSO DE AMIZADE E DE AMIGOS – Por Cyro de Mattos

Os amigos não recuam diante da calúnia que feriu o companheiro inocente, de pronto expressam a sua solidariedade contra o malfeitorque macula a honra de quem anda acompanhado do bem. São firmes, solidários, sinceros. Em certas ocasiões oferecem a barca para que alcancemos a outra margem porque sozinho não sabemos como chegar ao outro lado do rio. Põem as suas mãos em nossas mãos para que a vida fique viável. Assim, com o brilho na celebração do afeto, as suas luzes não se apagam, sobrepairam nas manhãs serenas.
São esses que nos vestem de verdade quando menos o bem se espera deles. Trazem no cotidiano do mundo um abraço generoso. No gesto desse abraço a vida expande-se amável. É digna de uma cena inventada, que põe a esperança em nossa caminhada. De nosso ser nada tiram, ao contrário somam, a amizade, dizem, nunca debanda.

E porque na Câmara de Vereadores de Itabuna o vereador Clodovil teve uma atuação relevante para que a Academia de Letras local fosse reconhecida como instituição de utilidade pública, numa conduta irretocável, aquela entidade manifesta agora o seu apreço pelo ato valoroso de um amigo. Homenageia o edil com uma placa de honra ao mérito. Maneira que encontrou para externar a sua gratidão a quem falou alto e trouxe benesses às Letras, às Artes , às Ciências e à Cultura.

Nem sempre os amigos se conhecem pessoalmente na formação da amizade, embora continuem próximos na rotina da vida. Tenho feito amigos que nunca os vi pessoalmente. Os contatos forjados pelo aceno das distâncias se consolidaram na passagem do tempo através da correspondência realizada com afirmações positivas, agradáveis. A ausência foi sendo substituída pela alegria e o prazer de sentir a vida como se estivéssemos próximos. Perto ou distante, a arte da amizade é necessária para que o entendimento decorrente do gesto das mãos nas mãos torne a vida sem dominações, ciúmes e traições.

O ideal seria que as relações de apreço e afeto resultassem duma união geral para que a vida fosse forte e bela, com benesses suficientes para todos que caminham nela. Como tal ainda não aconteceu, lembro um poema do mineiro Elias José, querido amigo, de saudosa memória, que só tive o prazer de ver uma vez quando apareceu por essas bandas de cá no sul da Bahia. Esse mineiro de Guaxupé, escritor de mão cheia, na prosa e no verso, enviou-me o poema “Amigo” quando ainda era inédito.

A palavra AMIGO

Abre-se com a gente
E sabe escutar e guardar
Queixas e segredos.
Chora a dor que é nossa,
Faz festa na nossa alegria.

O mundo seria mínimo
E sem a menor graça,
Se não existisse a graça,
Se não existisse a luz
Da palavra AMIGO.

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DISCURSO PROFERIDO NA SOLENIDADE DE LANÇAMENTO DA REVISTA GURIATÃ Nº 7. – Por Clóvis Silveira Góis Júnior

A cada lançamento de uma Guriatã, a sexta arte se enriquece. Aqui, a literatura grapiúna é representada por uma plêiade de intelectuais que, após imergirem em um processo cognoscitivo e sapiencial, exteriorizam, por meio da escrita, sua maneira de entender o mundo. Não o fazem apenas como forma de registro factual ou histórico, mas com elegância, espontaneidade, graça, estilo, suavidade e coesão. Os saberes alitanos são, assim, anualmente transmitidos a insignes e ávidos leitores — aqueles que não se satisfazem com escritos rasos, ordinários e transitórios.

A serventia de uma boa leitura é extraordinária: nutre o intelecto, regala o coração, acalenta a alma e promove agudeza de espírito. É quase um presente divino! Asseguro aos presentes que as confreiras e os confrades da Academia de Letras de Itabuna, cientes de tamanha responsabilidade — quase um sacerdócio —, continuam a produzir textos condizentes com essa expectativa. Sem falsa modéstia, o material publicado em nossa revista é a fina-flor da literatura sul-baiana.

Em tempos de leitura fast food, de textos rasteiros, de polarização política, de pensamentos engessados por ideologias, de extrema mornidão e acomodação intelectiva e de elogios à parvoíce, certamente o leitor da Guriatã assemelha-se a um tuaregue diante de uma cacimba de água fria.

A nossa revista é obra seminal da literatura grapiúna, servindo, inclusive, para estimular e moldar novos escritores, ao dar azo a criativas e refinadas produções.

Abarcando uma pluralidade de gêneros literários, as produções desta sétima edição são chanceladas por alitanos.

Publicamente, agradeço e enalteço a participação de Ceres Marylise, de Maria Luíza Nora (Baísa) e de Raquel Rocha, conspícuas alitanas que compõem o nosso Conselho Editorial.

Ceres,“compartilhar é palmilhar o mesmo caminho e chegar juntos ao destino desejado.” Baísa, “em cada entrega, reafirmamos nosso compromisso.”

Raquel, “acima de todas as liberdades, dê-me autonomia!”

Confreiras do Conselho Editorial, as palavras que lhes dedico são: compartilhar, entrega e autonomia

Desejo uma leitura proveitosa e prazerosa

 

Clóvis Silveira Góis Júnior

Diretor da Revista

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DISCURSO DE POSSE NA ACADEMIA DE LETRAS DE ITABUNA (ALITA) – Por Renée Albagli Nogueira

Ainda há tempo para sonhar!

Ao refletir sobre o Hino da Academia de Letras de Itabuna, de autoria do eminente poeta e Presidente de Honra desta casa, Cyro de Mattos, percebo que suas palavras ressoam com vigor e revelam a beleza de cada novo dia:

A cidade contigo conhece

Que a vida não é coisa vã,

É a palavra solta a dizer

A beleza de cada manhã.

Imortal é tua maneira de ser,

Tua luz que nunca se apaga,

Ideal é a página que escreves

Pra voar com as asas da alma.

Tudo vale, tudo anda, com Deus,

Que nos deu a razão e a emoção,

O sentido de viver com o amor

Pra dizer o que vem do coração.

Com um dos símbolos da Alita, saúdo a ilustre Presidente desta Academia, Raquel Rocha, cuja competência e dedicação engrandecem esta Casa. Saúdo todos os confrades e confreiras e lhes digo que a presença de cada um de vocês na Alita foi a maior inspiração para o desejo de compartilhar desta convivência, nesta Casa de Cultura. Com o trecho do hino da ALITA “O sentido de viver com o amor/Pra dizer o que vem do coração”, saúdo todos os familiares, na pessoa de Cláudio, meu esposo, aqui presente, responsável por todo legado, que lhes ofereço. A Academia de Letras de Itabuna, carinhosamente chamada ALITA, foi fundada em 19 de abril de 2011, tendo como Patrono o escritor Adonias Filho.

Hoje, a Alita celebra 15 anos de atividades dedicadas às Letras e ao Saber, que sob a liderança de Cyro de Mattos, com a participação dos juízes Marcos Antonio Santos Bandeira e Antônio Raymundo Viveiros Laranjeira Barbosa, além do saudoso promotor Carlos Eduardo Lima Passos da Silva, insistiram na criação de mais uma Academia de Letras em Itabuna.

As reuniões preliminares ocorreram na Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania (FICC), onde foram discutidos o quadro de Patronos e de Membros Efetivos, o Estatuto e o Regimento. A saudosa confreira Sônia Maron desempenhou papel relevante na elaboração desses documentos.

Em sua crônica, Cyro de Mattos destaca: “Avante, Academia de Letras de Itabuna, com seu espírito de corpo constituído de valores indiscutíveis e formas de conhecimento da vida desde o seu amanhecer, andamento para o bem das letras e grandeza da cultura local, da Bahia e do Brasil”. E relembra os versos de Fernando Pessoa: “Deus quer, o homem sonha e a obra nasce”.

Sempre compreendi a Universidade como agente de desenvolvimento, cujo compromisso com a sociedade deve estar fundamentado em bases ontológicas, epistemológicas e metodológicas, contribuindo para o avanço educacional, social, político, cultural, econômico e ambiental da região.

Por essa razão, ressalto o imprescindível papel do professor, motivo pelo qual me honra ocupar a cadeira de um docente da Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC, Professor Carlos Valder do Nascimento. E desta forma, homenageio todos os professores da Universidade Estadual de Santa Cruz.

O Professor Carlos Valder bacharelou-se em Direito pela Federação das Escolas Superiores de Ilhéus e Itabuna (FESPI) em 1978 e obteve o doutorado na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). A sua tese abordou a adequação do sistema tributário nacional à ordem econômica e social. Ao longo de mais de três décadas, exerceu a função de Professor Adjunto de Direito Tributário na UESC. Também lecionou na Escola de Magistratura do Trabalho (EMATRA) e na Escola Superior de Advocacia Orlando Gomes da OAB-BA.

Além disso, atuou na área jurídica da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (CEPLAC), foi Procurador Seccional da Advocacia-Geral da União (AGU) entre 1993 e 2003, Procurador-Chefe da Procuradoria Federal da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e advogado parecerista no Estado da Bahia. Era membro efetivo da Academia de Letras de Ilhéus.

Na instalação da Academia de Letras de Itabuna, Sabóia Ribeiro foi escolhido Patrono da Cadeira número 23, que tenho a honra de ocupar nesta solenidade. Sua escolha representa grande valor cultural, pois foi precursor da Literatura do Cacau e único ficcionista grapiúna a retratar, nas letras do cacau, a geografia típica da região com seus dramas, costumes e valores, descrevendo episódios da Barra do Rio de Contas, Taboquinhas e Vila do Arcanjo São Miguel, núcleos humanos do início do século XX, pertencentes a Ilhéus e hoje integrando Itacaré.

Sua obra reflete o cotidiano da Região Cacaueira, com ênfase em contos realistas que capturam tipos e cenários locais.

Nascido em 07 de janeiro de 1898, em Jaguaribe, Ceará, era filho de Raymundo Francisco Ribeiro, Juiz de Direito e um dos fundadores da Faculdade de Direito do Ceará, e Maria José (Bandeira de Melo) Saboya Ribeiro, de famílias tradicionais. Casado com Georgina Xavier de Oliveira, teve quatro filhos: Temira, Gilberto, Nélia e Eliane.

Sua vida multifacetada exemplifica a intersecção entre medicina, política e literatura no Brasil do século XX.

Sua vocação literária surgiu cedo: aos dezoito anos, quando estreou como crítico na Folha do Povo, de Fortaleza, analisando o romancista Rodolfo Theófilo, com quem manteve uma longa amizade, seguido de um ensaio sobre Pápi Junior.

Após mudar-se para Salvador em 1920 e, posteriormente, para Ilhéus, imergiu na cultura baiana, que inspirou suas narrativas. Nesse período colaborou com as revistas A Luva e Renascença.

Em 1921, em visita ao Ceará, sob influência do Romantismo e Parnasianismo, recitou seus primeiros versos, editados na Bahia, sob o título de Rosas de Malherbe, álbum de poesia publicado como suplemento de O Malho.

Formou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina da Bahia, doutorando-se em 1926 com a tese Ensaio Nasográfico de Augusto dos Anjos, analisando aspectos psiquiátricos da poesia do autor paraibano.

Após ser contratado pela Companhia Industrial de Tecidos, transferiu-se para Valença. Posteriormente, casou-se com Georgina (Xavier de Oliveira) Sabóia Ribeiro em 4 de fevereiro de 1928. Já estabelecido em Itapira (Ubaitaba), foi responsável pela instalação da agência dos Correios e Telégrafos na localidade. Aí, escreveu Rincões dos Frutos de Ouro e decidiu depois exercer a medicina em Tijucas e Florianópolis, em Santa Catarina.

Aos 36 anos, em 1933, publicou Rincões dos Frutos de Ouro, livro de contos ambientados na região do cacau do Sul da Bahia. Essa obra, também conhecida como Tipos e Cenários do Sul Baiano, permaneceu como sua principal marca literária, sendo objeto de referências e estudos acadêmicos.

O livro foi aprovado por unanimidade no plenário da Academia Brasileira de Letras, concedendo a Sabóia Ribeiro o Prêmio Ramos da Paz. A obra destaca-se pelo realismo na representação de paisagens agrestes, vaqueiros e costumes locais. Os contos evocam o sertão baiano através de descrições vívidas de penedos, rios e tropeiros, evidenciando a influência do regionalismo.

Após passar um ano no Acre, Sabóia Ribeiro retornou a Itapira (atual Ubaitaba), onde foi eleito prefeito, exercendo o cargo entre 1937 e 1941. Durante sua gestão, realizou a implantação da luz elétrica e a urbanização das praças.

Entre 1941 e 1947, Sabóia Ribeiro viveu em Ilhéus, onde exerceu atividades em Pediatria e Clínica Geral, atuando tanto em seu consultório particular quanto no Ambulatório Santa Isabel. Além disso, dirigiu a Escola Comercial de Ilhéus, ministrando aulas de Português, e colaborou com o Diário da Tarde, utilizando o pseudônimo João da Terra de Ninguém.

Em dezembro de 1947, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se especializou em Medicina Neonatal e passou a exercer funções no Hospital General Vargas, atualmente conhecido como Hospital Bonsucesso.

Ele publicou em 1957 o livro Roteiro de Adolfo Caminha, um estudo dedicado ao romancista cearense, que lhe rendeu o Prêmio Adolfo Caminha.

Sabóia Ribeiro faleceu em 07 de agosto de 1968 e o seu corpo está sepultado na Catedral de São Sebastião no Rio de Janeiro.

Os dados biográficos do escritor foram colhidos da biografia assinada por sua filha, a professora e biblioteconomista Eliane de Oliveira Sabóia Ribeiro, membro da Academia de Letras de Ilhéus.

A produção literária de Sabóia Ribeiro inclui contos, poesias e ensaios, com foco em temas regionais baianos e análises literárias. Embora não extensa em quantidade, sua obra é impactante, especialmente na literatura regionalista.

 

Sabóia Ribeiro destaca-se pelo uso apurado da linguagem regional e pela riqueza vocabular, conferindo à sua narrativa profundidade e autenticidade. Sua escrita revela um domínio singular das palavras, valorizando o universo cultural do Sul da Bahia.

No conto Gente Nativa, do livro Rincões do Cacau, o autor retrata com intensidade a volatilidade dos preços do cacau e seus efeitos devastadores sobre a vida dos pequenos lavradores. O protagonista, Manuel Calixto, simboliza o produtor rural que, entre a esperança de uma safra promissora e a decepção com a queda dos preços, enfrenta adversidades provocadas por fatores externos e especulações de mercado. Após árdua dedicação, Calixto vê sua produção desvalorizada e, movido pelo desespero, opta por destruir o fruto de seu trabalho no rio, diante do olhar perplexo da comunidade.

A narrativa de Sabóia Ribeiro dialoga com a realidade atual, deixando evidente que o pequeno produtor permanece vulnerável a oscilações relevantes causadas por fatores como mudanças climáticas, doenças nas lavouras, variações na demanda global e a influência de grandes agentes financeiros internacionais.

O autor emprega termos típicos do universo rural baiano, como arrobas, burrama, embandeirar, panacú, tulha dos caroços, entre outros, compondo um retrato vivo e particular do ambiente cacaueiro. Essa escolha lexical não apenas ambienta o leitor, mas também valoriza a cultura local e o aproxima das experiências dos lavradores.

Sabóia Ribeiro constrói sua beleza poética a partir da oralidade, da força das imagens e da musicalidade das palavras, como se observa em trechos de Gente Nativa, de Rincões do Cacau:

Ao iniciar o conto, o autor descreve o otimismo que permeia a comunidade rural diante das promessas de uma safra abundante: “Florara, cedo, o cacaueiro, a mais não poder, e os preços se anunciavam bastante altos, com tendência a subir sempre, adiantavam as pessoas que liam os jornais vindos da capital. Todos exultavam diante da próspera perspectiva” (Ribeiro.2005, p.73).

 

Essa euforia é reforçada pelas imagens da natureza exuberante, que Sabóia Ribeiro retrata com delicadeza, revelando o cenário das plantações de cacau em pleno florescimento:

Logo em março, a floração vestia, abundante, as extensas plantações — pequenina, branca, cor de espermacete, pétalas escancaradas. O tempo permanecia sempre ótimo. Sol escasso, chuvas miúdas, as terras bem refrescadas. O vento, uma eterna e fagueira brisa (Ribeiro, 2005, p.73).

No entanto, o autor também revela o ambiente agreste e suas sutilezas, com uma descrição visualmente marcante, em que Manuel Calixto, tomado pelo desespero e raiva, leva seus burros até o rio para romper os sacos de cacau com golpes de faca, despejando toda a produção na água.

Diante das pétreas lâminas, que se continuavam, desde a margem, rio a dentro, desenhando uma imagem confusa, que obrigava à maior cautela, com frequentes hiatos, que formavam, dentro da caudal, pequenas poças invisíveis e traiçoeiras — os animais velhacavam, fungando, ao encostar as broncas narinas na superfície da água (Ribeiro, 2005, p.81).

Sabóia Ribeiro destaca a importância do pequeno produtor como origem e sustentáculo do ciclo produtivo, ao tempo que evidencia a desigualdade existente entre os diferentes agentes do campo, revelando o ciclo de endividamento que marca a trajetória do pequeno cacauicultor.

No seu conto O Cacau e o Fazendeiro, escrito em 1966, ele diz:

Era simples, antigamente, ser fazendeiro de cacau. O pequeno, esse, já possuía denominação diferente, própria: burareiro. Mas era desse que nascia aquele.

[…] O invasor, de seu, só trazia uma coisa, afora a família: sua disposição de trabalhar, deitar roça.

Outros vieram, depois, de mais longe: de Sergipe, da caatinga, do São Francisco.

Sim, havia o comércio. O pequeno lavrador fazia a sua compra, acertava pagar com o cacau, quando o colhesse. Fazia, assim, a sua conta. Cacau, é bom saber, só dá colheita depois de cinco anos. Então, aos primeiros frutos, aquela conta já havia crescido bastante, com juros e tudo. De modo que o burareiro, ao estrear como produtor, é já um endividado (Ribeiro, 2005, p.165).

Assim, Sabóia Ribeiro entrelaça, com sensibilidade, a esperança dos lavradores, a beleza da natureza e os desafios do cotidiano rural, proporcionando ao leitor uma experiência poética e realista da vida na região cacaueira do Sul da Bahia.

Este ano, a Editus – Editora da Universidade Estadual de Santa Cruz, fundada em 1996, celebra três décadas de trajetória. A criação da editora representou um dos projetos culturais mais significativos de nossa gestão à frente da reitoria, idealizado para dar voz escrita à produção literária, científica e cultural do corpo docente, reafirmando o papel da universidade como produtora de conhecimento, e publicar títulos de escritores regionais.

A Editus teve uma estreia brilhante sob a direção da Professora Maria Luiza Nora Andrade, autora do livro de poemas A Ética da Paixão e uma das integrantes da ALITA.

Vale destacar que a inauguração da Editus contou com obras publicadas de dois grandes escritores: Cyro de Mattos (Doutor Honoris Causa pela UESC), do romancista e articulista Euclides Neto, além do Professor Flávio José Simões Costa, personalidade importante na história do ensino superior de nossa região. Cyro de Mattos apresentou o livro Berro de Fogo e Outras Histórias; Flávio Simões lançou Antônio Conselheiro, Louco?; e Euclides Neto publicou o seu livro Dicionareco das Roças de Cacau.

A Quarta Revolução Industrial trouxe a Revolução Digital, baseada no aprendizado de máquina e na inteligência artificial. Essencialmente, a inteligência artificial substitui tarefas repetitivas.

Entretanto, nesta nova era, a criatividade humana continuará sendo indispensável, assim como a empatia e a coragem. As dimensões emocionais e afetivas permanecem exclusivas do ser humano; as máquinas jamais serão capazes de tocar uma sinfonia de Beethoven, cantar uma ária de La Traviata de Verdi ou interpretar uma peça de Shakespeare nos palcos.

Para ilustrar, gostaria de afirmar que a inteligência artificial não será capaz de interpretar as emoções do nosso Reitor Poeta Alessandro Fernandes de Santana, quando escreveu o seu livro Rascunhos Reais.

 

Do mesmo modo, a inteligência artificial jamais substituirá a pesquisadora e ensaísta Maria de Lourdes Neto Simões (Tica Simões), cuja produção literária capta o pensamento sobre os limites do gênero que orientam o século XXI, unindo questões teóricas relativas à literatura, ao patrimônio cultural e à viagem, ao tempo em que adentra o olhar para a produção literária sul-baiana.

Tampouco poderá replicar a literatura em versos e prosas de Ruy do Carmo Póvoas, Doutor Honoris Causa pela UESC, autor de obras como Vocabulário da Paixão, A linguagem do Candomblé, A Fala do Santo, Da Porteira para Fora e A Viagem de Orixalá.

Igualmente, a inteligência artificial não conseguiria conceber e executar os projetos da historiadora Janete Ruiz de Macêdo, responsável pela criação do Centro de Documentação Regional – CEDOC, na UESC, e pela implementação de arquivos municipais em 23 municípios.

E para provar que os componentes emocionais e afetivos são atividades que a Inteligência Artificial não saberá fazer, citamos a escritora e romancista Margarida Cordeiro Fahel, cujas obras são reveladoras não só da sua inteligência, alta sensibilidade e sentido ético da vida, além de, para mim, proporcionar uma experiência enriquecedora de convivência.

Na segunda orelha do livro Entre Margens, de Margarida Fahel, o jornalista e cronista Antônio Lopes escreveu:

A autora fala de gente, e gente oscila entre a extrema bondade e a reles mesquinharia, temas universais, idiossincrasias que formam esse tipo faceiro dito homo sapiens[…]. Na tessitura de Margarida Fahel, bordadeira de invejável perícia, o bem vence o mal, a virtude se impõe ao pecado: os maus recebem o castigo; os bons a recompensa. Não creio que possa haver melhor mensagem para nossa tão sofrida realidade (Fahel, 2018).

Esta é Margarida Fahel, escritora e ex-vice-reitora da UESC, com quem tive o privilégio de conviver!

Reitero: os componentes emocionais e afetivos são atividades que a inteligência artificial jamais saberá realizar, como se observa no cuidado exemplar oferecido por meu genro Cyro Serpa e minha filha Cláudia aos meus netos, Luís

Fernando e Isabel, para que cultivem e preservem valores essenciais como inteligência, sensibilidade e ética.

Para concluir, afirmo: a máquina nunca poderá substituir a grandeza do ser humano! Esta é minha convicção. E, ao assumir uma cadeira nesta Casa de Produção Literária, convido todos à reflexão sobre esse tema.

Referências:

RIBEIRO, João Felipe Sabóia. Rincões dos frutos de ouro (tipos e cenários do sul baiano). 2. ed. Rev. e ampl. Ilhéus, BA: Editus, 2005.

FAHEL, Margarida Cordeiro. Entre Margens. 1. ed. Ibicaraí, BA: Via Litterarum Editora: 2018.

Minicurrículo

Renée Albagli Nogueira. Doutora em Educação pela Universidade Federal da Bahia. Mestra em Gestão Universitária pela Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro. Aperfeiçoamento na DePaul University, em Chicago, USA. Especialista em Genética pela Unicamp e em Biologia Geral pela PUC Minas. Licenciada em Biologia Celular pela Universidade Santa Úrsula. Reitora da Universidade Estadual de Santa Cruz (1996-2000 e 2000-2004); Conselheira Estadual de Educação (2004-2008 e 2008-2012); e Presidente do Conselho Estadual de Educação (2007-2008).

 

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PARABÉNS, ALITA – Por Gustavo Velôso

 

*Gustavo Velôso

19/04/2026

 

Dezenove de abril é dia de celebrar a palavra, a memória e a cultura. Parabenizo a Academia de Letras de Itabuna — ALITA — pelos seus 15 anos de criação e fundação, trajetória construída com dedicação, compromisso e amor à literatura. Registro meu respeito e gratidão aos idealizadores e fundadores que transformaram um sonho em instituição viva. Faço uma menção especial ao Confrade Cyro de Mattos, pela indicação que me trouxe a esta Casa, honra que carrego com responsabilidade. Orgulho-me de ser fundador desta Academia, ocupando a cadeira 15, que tem como patrono José Haroldo Castro Vieira, referência que inspira nosso compromisso com a palavra e com a cultura. Aos confrades e confreiras, e a todas as diretorias que ajudaram a construir essa história, meu reconhecimento. Registro, de forma especial, à presidente confreira Raquel Rocha, que vem exercendo um papel ímpar como presidente da Academia, ao confrade Silvio Porto e à Santa Casa de Misericórdia de Itabuna, pela realização de um sonho alitano: nossa sede. Que a ALITA siga firme como guardiã da literatura grapiúna, projetando o passado, vivendo o presente e construindo o futuro. Parabéns, ALITA, pelos seus 15 anos.

 

*Gustavo Velôso é escritor ferradense, autor da Coleção Raízes Grapiúnas – Selo FERRADAS e Membro Fundador da Academia de Letras de Itabuna (ALITA).

 

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ARTIGO — SIMBIOSE – Por Gustavo Velôso

*Gustavo Velôso

13/04/2026

Simbiose é convivência que não se explica por isolamento. Dois organismos se encontram, se ajustam e passam a existir em relação. Não é fusão nem perda de identidade. É presença recíproca. Cada um permanece o que é, mas já não é o mesmo fora do vínculo. A vida, nesse ponto, deixa de ser individual para se tornar relacional.

Na biologia, a simbiose assume formas distintas. Há relações em que ambos se beneficiam, como no mutualismo. Outras em que um se favorece sem prejuízo do outro, como no comensalismo. E há aquelas em que um se sustenta à custa do outro, como no parasitismo. A diferença entre elas não está apenas no resultado, mas na forma como a interação se estabelece e se mantém. Em todos os casos, o que se revela é um princípio comum: a vida se organiza em rede, não em isolamento.

Essa lógica não se limita ao campo biológico. A experiência humana também se constrói em relações que sustentam, tensionam ou transformam. Comunidades, instituições e vínculos cotidianos operam em regimes de interdependência. Ninguém se forma sozinho. O que se chama de autonomia frequentemente repousa sobre estruturas invisíveis de apoio, troca e influência. A simbiose, nesse sentido, não é exceção — é condição.

Mas nem toda relação é equilíbrio. Há vínculos que fortalecem e há vínculos que consomem. Reconhecer a natureza dessas relações é parte do discernimento necessário para sustentar a própria existência. A simbiose que constrói não elimina conflitos, mas os atravessa sem romper a base que mantém os envolvidos. Já a relação que se torna predatória dissolve essa base e compromete o conjunto.

Pensar a simbiose é deslocar o olhar. Em vez de perguntar o que algo é por si, passa-se a observar como se conecta, como responde e como se mantém no tempo. A identidade deixa de ser ponto fixo e passa a ser processo. A existência, então, não se define pelo isolamento, mas pela capacidade de coexistir.

No fim, a simbiose revela um princípio simples e exigente: viver é sustentar relações. Algumas ampliam, outras limitam. O que define o percurso não é a ausência de vínculos, mas a qualidade deles.

*Gustavo Velôso é escritor ferradense, autor da Coleção Raízes Grapiúnas – Selo FERRADAS e Membro Fundador da Academia de Letras de Itabuna (ALITA).

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ARTIGO — INTERDEPENDÊNCIA – Por Gustavo Velôso

*Gustavo Velôso

06/04/2026

 

Interdependência não é dependência disfarçada. É reconhecimento de que nenhuma existência se sustenta sozinha. O indivíduo não desaparece na relação, mas também não se completa fora dela. Há um equilíbrio silencioso entre autonomia e vínculo. Viver é negociar esse ponto.

A ideia de independência absoluta é mais construção do que realidade. Toda ação, mesmo a mais simples, se apoia em estruturas que não aparecem de imediato. Há redes de suporte, trocas contínuas, influências que atravessam decisões e moldam caminhos. O que se chama de escolha individual raramente nasce isolado. Surge de um campo de relações que a torna possível.

Na prática, interdependência se manifesta em diferentes níveis. No plano material, envolve produção, circulação e acesso. No plano social, organiza convivência, regras e pertencimento. No plano humano, sustenta afetos, linguagem e construção de sentido. Esses níveis não operam separados. Se cruzam, se reforçam e, por vezes, entram em tensão.

Reconhecer a interdependência não significa abdicar da própria posição. Significa compreender limites e possibilidades dentro de um sistema mais amplo. A autonomia, nesse contexto, não é ausência de vínculo, mas capacidade de agir sem romper o tecido que sustenta a convivência. É movimento consciente dentro de uma rede que não se controla por completo.

Há, porém, um risco recorrente: confundir interdependência com submissão. Quando a relação deixa de ser troca e passa a ser imposição, o equilíbrio se rompe. O vínculo deixa de sustentar e passa a limitar. Nesse ponto, a interdependência perde seu caráter estrutural e se torna assimétrica. O desafio está em perceber esse deslocamento antes que ele se consolide.

Pensar a interdependência é abandonar a ideia de centro isolado. Não há ponto único de controle. Há conexões. Há fluxos. Há ajustes constantes. A estabilidade não vem da rigidez, mas da capacidade de adaptação dentro das relações que se estabelecem.

No fim, a interdependência revela um princípio direto: ninguém se sustenta sozinho, mas nem por isso deixa de ser responsável pelo que constrói nas relações que mantém.

*Gustavo Velôso é escritor ferradense, autor da Coleção Raízes Grapiúnas – Selo FERRADAS e Membro Fundador da Academia de Letras de Itabuna (ALITA).

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MEU PROFESSOR LUÍS HENRIQUE – Por Cyro de Mattos

Ano de tristezas, de perdas importantes, irrecuperáveis.  Mal me refaço da perda do amigo João Carlos Teixeira Gomes, o nosso querido Joca, recebo outra notícia que abala e nos tira do sério. Leio no jornal que o professor e escritor Luís Henrique Dias Tavares  também nos deixou. Professor emérito da Universidade Federal da Bahia, membro ilustre da Academia de Letras da Bahia, ficcionista dos bons e um dos mais completos conhecedores de história da Bahia. Há tempos que se comentava na Academia de Letras  sobre o seu estado de saúde delicado.

A vida é curta, a morte é uma coisa deplorável. Mas no caso do professor Luís Henrique, se era para continuar a sofrer, sem possibilidades de voltar ao convívio natural de familiares e amigos, prostrado na cama como alguém inútil, sem forças, em difícil quadro clínico, pensava comigo, talvez fosse melhor partir para o descanso definitivo na cidade onde se tem um sono sem sonho.

Ninguém quer abdicar da esperança de que o ente querido pode retomar a vida saudável, nessas horas críticas em que tudo que é feito não reverte o quadro.  Onde há um fio de vida, sempre o coração é aceso com a chama que nos conforta, com a expectativa que nos dá a fé de que os dias poderão voltar ao ritmo anterior das ocorrências normais.

Luís Henrique Dias Tavares foi meu professor de história no Colégio da Bahia (Central), nos idos de 1955. Era querido pelos alunos, que ficavam seduzidos com sua maneira simples de proferir a aula de história. Fazia-nos ver que a história guardava conhecimentos necessários para que se conhecesse a memória da cidade, inclusive a sua beleza antiga. Dominava com competência o assunto que ensinava com prazer. Ninguém naquele momento, sustentado com o saber do professor de estatura baixa, guardião da memória da cidade, ficava desinteressado do que estava sendo transmitido sem esforço. Seus ensinamentos chegavam precisos, acessíveis, com uma didática lúcida, que só fazia bem aos alunos.

Mostrou-se como mais uma faceta de sua personalidade que era um primoroso escritor, premiado pela Academia Brasileira de Letras.  Ao lado do professor de história, havia nele um escritor que relatava as coisas para que fossem absorvidas com prazer pelo leitor atento. Como ficcionista desempenhava seu papel de mentiroso, não o historiador que conta tudo como se deu, não tirando nem pondo, interessado em dizer a verdade. Na condição de ficcionista, sua prosa prazerosa passava a sensação de que era um bom aluno de Cervantes, esse criador da personalização no romance, eterno narrador clássico.

Aquele homem baixinho, de coração generoso, foi o responsável pelo meu ingresso na Academia de Letras da Bahia. Telefonou-me perguntando se eu não queria fazer parte da entidade, que precisava de gente nova para renovar seus quadros. Fiquei surpreso com o convite, embora a generosidade fosse uma das marcas de seu caráter, andava com ele para que a vida fosse útil, se tornasse beneficiada com novas riquezas de conhecimento.

Um dia tudo tem seu fim.  É assim que fomos feitos para passar como o vento durante as estações. Como esse que agora esteve aqui e num instante foi embora. Nessa estrada em que seguimos como passageiros de uma viagem sem volta, na qual vemos como somos limitados, náufragos de um barco que é levado rumo ao porto de mares desconhecidos.

Adianto que professo os valores cristãos, mas como baiano também tenho a crença nos orixás, herdada de minha bisavó paterna, que foi escrava no Brasil colônia. Essa condição sincrética de fé sempre me motivou a não hesitar ante os desafios na jornada vida. É o que me dá força para ser útil ao outros e assim me veja menos incompleto.  Compele-me que siga adiante escrevendo ficções e poemas na tentativa de fazer a leitura do mundo um pouco mais acessível.  Não vou mudar o mundo com os meus escritos, mas não posso deixar de ser um testemunho de meu tempo quando escrevo.  Justamente como nesse agudo instante em que acabo de concluir um poema para ser dedicado como testemunho afetivo ao meu saudoso professor.

Pensando naquele mestre inesquecível, escrevi o poema curto que transcrevo abaixo, calcado nos enunciados impassíveis do tempo.

 

Ó tempo tu quiseste

 

Tuas asas produzem o voo

no ciclo das questões

que não se decifram.

Até no encanto assustas,

a flor que aparece perfeita

breve no pó desaparece.

Costumas negar o amor

com a solidão das horas

em tua oferta do enigma.

O que se foi não tem volta.

Sempre se esgotam as lições

que deram flores ao presente.

 

Ele ocupou a cadeira 1 da Academia de Letras da Bahia, que tem como patrono Frei Vicente de Salvador. A competência, a eficiência e  o bom trato  foram marcas do caráter do acadêmico que tanto zelou por essa casa das letras.

Um adendo. O professor Luís Henrique nasceu em 25 de janeiro de 1926, em Nazaré, faleceu em 22 de junho de 2020, em Salvador.

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IDEOLOGIA E DIGNIDADE DE ADONIAS FILHO – Por Cyro de Mattos

Em suas criações literárias, Adonias Filho movimenta-se como resultado da união harmoniosa nascida da inspiração e transpiração. Uma técnica moderna que o autor concebe e executa para montar suas histórias imprime na escrita atraente uma densidade dramática, tão dele, que preenche o conteúdo com várias dimensões, formado de conflitos, já demonstrando seu discurso coeso a intenção de romper com os elementos da cronologia linear, de princípio, meio e fim, sempre presentes no texto previsível constituído de acontecimentos excepcionais das narrativas tradicionais. Na escrita mítica, de expressão elíptica, pulsa um estilo nervoso, tantas vezes poético, carregado de significados e abrangências que ultrapassam a realidade imediata.

A obra literária motivada por certa região enfoca o peculiar de determinada cultura, tendo por fundo um cenário típico, cujas condições refletem-se no conteúdo da narrativa, conferindo-lhe nota especial. Os estudiosos dizem que o que faz uma obra regional é o fato de mostrar-se presa, em sua matéria narrativa, a um contexto cultural específico, que se propõe a retratar e de onde vai haurir a sua substância. Isso não a impede de adquirir sentido universal, em função de seu significado portador de humanidades, sentimento do mundo, mensagem vertical da existência, fazendo com que ultrapasse as fronteiras da região retratada.

É o caso desse consagrado narrador, muitas vezes um criador de histórias que tem como cenário a região cacaueira baiana na época da infância quando a selva era impenetrável e hostil. Percebe-se nesse artesão da linguagem uma moderna forma de ser contada a história, harmonizada com a representação das essencialidades da criatura, as quais são retiradas do ambiente onde habitam.

Esse narrador de estilo sincopado e poético é uma das vozes fundamentais da melhor literatura de todos os tempos. Influenciado pelos dramaturgos gregos, Shakespeare, o cinema, do fundo trágico de seus romances, novelas e contos emanam personagens em cujos passos e travessias ressoam os sortilégios da morte através de entonações bíblicas.

Sua arte literária é um corpo vivo decorrente de sentimento humano trabalhado em nível do estético, metáfora aguda da vida, como forma de conhecimento do outro mais o mundo. Emerge de acontecimentos que o escritor captou, em suas auscultações no interior da vida ou que tomou conhecimento através da fala dos mais velhos, principalmente quando a história recriada é desenvolvida na infância da região cacaueira baiana. Tudo que escreveu como ficcionista reveste-se de qualidades expressivas.

Digamos que a liberdade como valor do comportamento humano é a condição essencial para o exercício da vida. A vocação criadora do sujeito sucumbe sem ela. Desvia-se do caminho que o leva para a democracia.  Era essa a crença de Adonias Filho como um homem político, intelectual que pensa e sente a arte de governar os povos na difícil e misteriosa lei da existência. Seu pensamento é contrário aos regimes totalitários, nos quais uma classe de governantes detém o poder, tornando-se uma nova classe, que domina e dirige, dita as normas para que todos cumpram, sem possibilidade de efetuar o diálogo franco e a crítica livre. E dela tira proveito como uma classe dotada de privilégios. Era contrário, portanto, que fosse instaurado no Brasil o regime autoritário no qual a classe proletária fosse a beneficiada no contexto socioeconômico e político. Isso se opõe à própria índole do nosso povo, que no curso da história lutou pela liberdade e procurou preservá-la no sentimento de mundo sob vários aspectos.

A liberdade nasce com o homem, é da própria índole do povo brasileiro. Nasceu com o povo, que é dela herdeiro de um bem indisponível.   É parte fundamental de seu instinto e do seu caráter, gerando no complexo social a própria personalidade nacional e, por extensão, demonstrando que o povo assim já dispõe de vocação democrática.

“A liberdade e o humanismo se fundem como se um estivesse a mover o outro”. (In: A nação grapiúna, editora Tempo Brasileiro, Rio, 1965, p. 9).

Para Adonias Filho, fora da liberdade todos os resultados são condenáveis.

“O homem nasce senhor de si mesmo, livre em sua consciência e seu trabalho, nessa liberdade todo o direito, toda a ordem, toda a justiça, a segurança inteira da sociedade.” (In: A nação grapiúna, p.  10)

Achava que na liberdade se contém a própria inteligência com a sua função intelectual.

“A liberdade exige a luta contra a censura ideológica, contra o comando do partido único nas artes e nas ciências, contra o bloqueio cultural, ainda hoje oprimindo povos e humilhando o homem.” (In: A nação grapiúna, p. 22)

No entanto, se no regime totalitário, de extrema esquerda com base na ideologia marxista, a liberdade é algemada pela classe que detém o poder e dita a norma para que todos obedeçam, em campo oposto, de extrema direita veemente, tal fato de caráter niilista não deixa de acontecer. Aqui também, nesse sistema político organizado oposto ao regime comunista, tudo é censurado e controlado para que as ideias e a utopia não funcionem como ameaças ao regime instalado.

Setores da intelectualidade brasileira sempre acharam que Adonias Filho era um bom romancista em qualquer boa literatura, mas seu credo político de direita não passava de grave equívoco. O autor de Memórias de Lázaro defendia o direito de liberdade e expressão, mas combatia com as armas da inteligência quando de sua concepção política divergia-se, argumentavam seus opositores.  Cobravam dele uma postura política coerente, humana e verdadeira.

Tentavam tirar o foco sobre o romancista esplêndido para o do homem político, discutível, nivelando dimensões diferentes para subtrair o valor literário e ferir a construção estética de um projeto bem-sucedido.

Adonias Filho era um homem sem vaidade, inveja, não guardava ódio. Elegia a generosidade e o diálogo proveitoso na discussão dirigida para colher os bons frutos da vida. Muitas vezes se incompatibilizara com generais e coronéis para que soltassem artistas da esquerda presos.  E sempre conseguia, apesar de que muitos escritores tidos como da extrema esquerda denunciarem companheiros, à época, levando-os à prisão e ao exílio.

Mas o que importa mesmo não é o seu credo no regime político de direita com bases democráticas, mas a sua condição de escritor que inventou com engenho e arte uma das obras mais importantes da ficção brasileira. Deixando de lado um dos momentos de sua fase de adolescente político, militante da direita, o que vale é a visão pertinente de um dos maiores intérpretes da natureza humana sob o pesadelo de sangue e de servidão da morte. Sua dicção, ora com entonação bíblica, ora em mergulhos profundos no existencial entrelaçado com o regional, enfatiza o trágico, mas exalta também o lírico, como se vê em algumas narrativas primorosas de Léguas de promissão e Largo da Palma.

 

Referência 

FILHO, Adonias. AMADO, Jorge.  A nação grapiúna, Discursos na Academia  Brasileira de Letras, Editora Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, 1965.

BERTIÉ, Ludmila. Adonias Filho – a força da terra, Editora Solisluna, Lauro de  Freitas, Bahia, 2015.

ELLISON, Fred. Adonias Filho, in Dictionary of literary biography, volume One

Hundred Forty-Five, Modern latin-american fiction writers, Detroit, A Brucccoli

Clark Layman Book Gale Research Inc. Detroit, Washington, D. C., London,

  1. (pág. 10).

MATTOS, Cyro de. As criações de Adonias Filho, Edição da Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, 2017.

 

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