SONETOS INSPIRADOS EM FERNANDO PESSOA – Por Cyro de Mattos
SONETOS INSPIRADOS EM FERNANDO PESSOA – Por Cyro de Mattos Read More »
SONETOS INSPIRADOS EM FERNANDO PESSOA – Por Cyro de Mattos Read More »
No dia 10 de agosto, ao celebrarmos os 114 anos de Jorge Amado, reconhecemos a permanência de uma obra que continua a produzir sentidos e que, para além de sua dimensão estética, constitui-se como espaço de memória, identidade e representação de um povo. Cada romance configura uma cartografia cultural na qual o território se converte em linguagem e a linguagem, por sua vez, transforma-se em patrimônio.
É nesse horizonte que a grapiunidade adquire centralidade. Antes de alcançar o mundo, Jorge Amado encontrou, na Região Cacaueira da Bahia, o núcleo de uma experiência humana que marcaria definitivamente sua criação. O universo do cacau, longe de ser simples cenário, configura um território simbólico onde se entrecruzam relações de poder, migrações, conflitos, solidariedades e afetos. A paisagem deixa de ser mero pano de fundo para tornar-se protagonista da história.
A literatura de Jorge Amado demonstra que os territórios são também construções culturais. A Região Grapiúna emerge como espaço de memória coletiva, onde vozes, costumes, saberes e narrativas resistem ao apagamento. Nesse contexto, escrever é preservar modos de existência, reafirmar pertencimentos e transformar a experiência regional em patrimônio da humanidade. Aí reside muito da singularidade de sua obra. O escritor não universaliza a Bahia porque abandona o regional; universaliza-a porque mergulha profundamente em sua cultura. Quanto mais enraizada é sua narrativa, mais ampla se torna sua capacidade de dialogar com diferentes povos e tempos. O local converte-se em linguagem universal.
Os clássicos permanecem porque continuam produzindo novas leituras e novos sentidos. Jorge Amado permanece entre nós não apenas pela força de seus personagens, mas porque sua obra nos convida, continuamente, a revisitar os territórios da memória, a reconhecer a diversidade como fundamento da cultura e a compreender que a literatura é também uma forma de resistência ao esquecimento.
Ao celebrar seus 114 anos, celebramos também a vitalidade da grapiunidade como patrimônio cultural e literário. Nesse encontro entre memória, território e palavra — Cacau, Terras do Sem-Fim, São Jorge dos Ilhéus, Gabriela, Cravo e Canela e Tocaia Grande —, Jorge Amado permanece vivo, lembrando-nos de que as identidades não se encerram no passado: renovam-se cada vez que a literatura devolve uma comunidade à consciência de si mesma. E sabemos que sua obra atravessa as fronteiras regionais e conta-canta a Bahia.
A permanência da obra de Jorge Amado projeta-se também para além do campo literário. Seus romances transformaram-se em poderosos mediadores da imagem da Bahia no Brasil e no mundo, convertendo a ficção em experiência cultural e turística. Leitores de diferentes países percorrem ruas, mercados, praias, terreiros e cidades movidos pelo desejo de reencontrar os cenários da narrativa. Trata-se de um singular exemplo em que a literatura não apenas representa um território, mas contribui para sua valorização simbólica, sua preservação e o fortalecimento de sua economia criativa.
O turismo literário, nesse contexto, constitui uma forma de leitura do espaço, na qual memória, patrimônio e identidade se entrelaçam, reafirmando a cultura como um dos mais relevantes ativos do desenvolvimento regional. Assim, Jorge Amado, mais do que um grande romancista, afirma-se como um dos maiores embaixadores culturais da Bahia. Sua obra continua atraindo leitores, pesquisadores e visitantes de diferentes partes do mundo, fortalecendo a imagem da Bahia e, particularmente, da Região Grapiúna como território da cultura, da memória e do turismo literário.
Celebrar seus 114 anos é reconhecer que sua literatura permanece viva, renovando, a cada leitura, o diálogo entre o local e o universal e reafirmando que a identidade de um povo também se escreve pela força de suas narrativas.
Maria de Lourdes Netto Simões (Tica Simões)
DIA 10 DE AGOSTO: CELEBRAR 114 ANOS DE JORGE AMADO – Por Tica Simões Read More »
A Coleção Raízes Grapiúnas — Selo FERRADAS constitui um dos mais amplos projetos literários e historiográficos dedicados à preservação da memória de Ferradas, comunidade situada no sul da Bahia. Mais do que uma sequência de livros, apresenta um projeto autoral de longo prazo voltado à compreensão da formação histórica, social, cultural, ambiental, econômica e política desse território, compreendido na obra como berço da Nação Grapiúna.
Estruturada em diálogo com a tradição do Modernismo Regionalista brasileiro, a coleção incorpora características como a valorização da identidade regional, da oralidade, dos personagens populares, da memória coletiva e dos modos de vida do interior. Contudo, amplia esse horizonte ao reunir pesquisa histórica, documentação, relatos orais, crônicas, contos, poemas, haicais, ensaios e reflexões filosóficas em um único projeto literário.
Seu eixo central é Ferradas. A antiga vila deixa de ser simples cenário para assumir o papel de protagonista de uma narrativa que acompanha sua formação, sua cultura, seus personagens e sua influência na constituição da região cacaueira e do sul da Bahia. Essa perspectiva alcança expressão particularmente significativa no Volume V – Ferradas: Memória e Alma, que transforma a experiência cotidiana da comunidade em literatura.
Embora cada volume possua autonomia temática, todos integram um conjunto orgânico, voltado à interpretação de Ferradas como referência para compreender processos mais amplos da formação brasileira. Os volumes publicados abordam temas como história colonial e imperial, expansão econômica, romance histórico, atuação missionária, biografia e filosofia, enquanto os já catalogados em publicação ampliam esse panorama com estudos sobre a República, as ciências sociais, o patrimônio esportivo, a memória literária e a trajetória do próprio autor.

Sob essa perspectiva, a coleção pode ser compreendida como uma obra de literatura regional contemporânea de caráter memorialístico e historiográfico, herdeira do Modernismo Regionalista brasileiro, mas dotada de identidade própria. Seu diferencial reside na construção de um amplo mosaico histórico, cultural e literário que toma Ferradas como ponto de partida para refletir sobre a memória, a identidade e a experiência humana.
Ao dedicar onze volumes a um único núcleo histórico, a Coleção Raízes Grapiúnas — Selo FERRADAS desenvolve um empreendimento incomum na literatura brasileira contemporânea. Afirma-se, assim, como um projeto cultural voltado à preservação da memória e à construção de um legado literário e historiográfico para a história e a cultura do sul da Bahia.
Gustavo Velôso
Ferradense, escritor, membro fundador da Academia de Letras de Itabuna (ALITA), ocupante da Cadeira nº 15.
Ilustríssima Senhora Raquel Rocha, digníssima Presidente da Academia de Letras de Itabuna,
Ilustríssimo Senhor Cyro de Mattos, nosso admirável Presidente de Honra,
Confrades e confreiras desta respeitável Academia de Letras, demais autoridades presentes,
Senhoras e senhores,
Recebo esta homenagem, nesta noite, com um sentimento profundo de gratidão, de humildade e, acima de tudo, de responsabilidade.
Gratidão, porque ser reconhecido por uma instituição da grandeza moral e intelectual da Academia de Letras de Itabuna representa muito mais do que uma honraria; representa um gesto que toca o espírito de quem acredita que servir à vida pública é também servir à memória, à identidade e à alma do seu povo.
Humildade, porque sei que nenhum homem constrói nada sozinho. Cada conquista nasce do diálogo, da confiança e da união de pessoas que acreditam em uma mesma causa.
E responsabilidade, porque toda homenagem verdadeira não apenas reconhece o passado, mas também nos lembra do compromisso que temos com o futuro.
A aprovação do título de utilidade pública da ALITA na Câmara Municipal foi, para mim, mais do que um ato administrativo ou legislativo. Foi um ato de justiça!
Justiça para com uma instituição que há tantos anos se dedica a preservar aquilo que nenhuma cidade pode perder: sua cultura, sua literatura, sua memória e a identidade da sua gente.
Graças a vocês, Itabuna não é só “a cidade do cacau”; é a cidade das letras que unem! Em tempos de divisões — políticas, sociais e digitais —, a ALITA é o antídoto. É reconhecer que a ALITA presta um serviço essencial: educa, emociona, une e promove cultura! A ALITA incentiva o surgimento de mentes brilhantes no desafio do rigor acadêmico — quando promove seminários sobre literatura grapiúna e organiza oficinas para jovens —, ao mesmo tempo em que conquista corações com a poesia, fazendo chorar e rir a alma e a essência do seu povo.
Uma cidade não é feita apenas de ruas, de prédios ou de praças. Uma cidade é feita de histórias. É feita de vozes. É feita de pessoas que escrevem, pensam, ensinam e inspiram.
E a ALITA tem sido exatamente isso: um farol cultural para Itabuna.
Ao longo de sua trajetória, esta Academia tem mantido viva a chama da palavra em um tempo em que, muitas vezes, o silêncio da indiferença ameaça apagar aquilo que é mais nobre em uma sociedade: o pensamento.
Por isso, quando esta Casa buscou o reconhecimento público que lhe era devido, eu compreendi imediatamente que não se tratava apenas de aprovar um projeto. Tratava-se de reconhecer oficialmente o valor de uma instituição que já era valiosa há muito tempo no coração da nossa cidade.
Quero aqui expressar minha admiração à Presidente Raquel Rocha, cuja liderança firme, sensível e determinada foi essencial para que esse momento pudesse acontecer.
Sua dedicação à cultura itabunense demonstra que a verdadeira liderança não é aquela que apenas ocupa um cargo, mas aquela que inspira uma missão e busca cumpri-la.
Quero também render minha mais sincera reverência ao mestre Cyro de Mattos, uma das maiores referências literárias do nosso país. Sua trajetória ultrapassa as páginas dos livros.
Sua vida se tornou um capítulo importante da própria história cultural de Itabuna. Escritores como Cyro de Mattos não apenas escrevem palavras — escrevem um legado!
E, quando uma cidade aprende a honrar seus mestres, ela demonstra maturidade para construir um futuro melhor.
Aos confrades e confreiras desta Academia, quero dizer que esta homenagem me toca profundamente porque vem de mulheres e homens que dedicam suas vidas à inteligência, à arte e à preservação da nossa identidade coletiva.
Receber o reconhecimento de vocês é algo que levarei comigo com enorme honra.
Saibam que meu mandato continuará sempre de portas abertas para esta Academia e para todos os projetos que a impulsionam. Porque acredito que a alocação de recursos em cultura não é gasto. É investimento em consciência. É investimento em educação. É investimento em cidadania. É investimento em humanidade.
Uma sociedade que valoriza seus escritores valoriza seu pensamento. Uma sociedade que valoriza seus poetas valoriza sua sensibilidade. E uma sociedade que valoriza sua memória constrói seu futuro com mais dignidade.
Hoje, recebo esta homenagem não como um ponto de chegada. Recebo-a como um chamado para continuar e prosseguir defendendo aquilo que eleva a nossa cidade, que fortalece a identidade do nosso povo. Por isso, continuarei servindo com seriedade, com respeito e com amor por Itabuna.
Quero encerrar dizendo que existem homenagens que ficam na parede. Mas existem homenagens que ficam na alma. E esta, sem dúvida, ficará guardada em meu coração.
Parabéns, ALITA, pelos seus 15 anos! Avante, ALITA! Avante, Itabuna!
Muito obrigado a todos!


DISCURSO DE AGRADECIMENTO PELA HOMENAGEM – Por Clodovil Soares Read More »
Os amigos não recuam diante da calúnia que feriu o companheiro inocente, de pronto expressam a sua solidariedade contra o malfeitorque macula a honra de quem anda acompanhado do bem. São firmes, solidários, sinceros. Em certas ocasiões oferecem a barca para que alcancemos a outra margem porque sozinho não sabemos como chegar ao outro lado do rio. Põem as suas mãos em nossas mãos para que a vida fique viável. Assim, com o brilho na celebração do afeto, as suas luzes não se apagam, sobrepairam nas manhãs serenas.
São esses que nos vestem de verdade quando menos o bem se espera deles. Trazem no cotidiano do mundo um abraço generoso. No gesto desse abraço a vida expande-se amável. É digna de uma cena inventada, que põe a esperança em nossa caminhada. De nosso ser nada tiram, ao contrário somam, a amizade, dizem, nunca debanda.
E porque na Câmara de Vereadores de Itabuna o vereador Clodovil teve uma atuação relevante para que a Academia de Letras local fosse reconhecida como instituição de utilidade pública, numa conduta irretocável, aquela entidade manifesta agora o seu apreço pelo ato valoroso de um amigo. Homenageia o edil com uma placa de honra ao mérito. Maneira que encontrou para externar a sua gratidão a quem falou alto e trouxe benesses às Letras, às Artes , às Ciências e à Cultura.
Nem sempre os amigos se conhecem pessoalmente na formação da amizade, embora continuem próximos na rotina da vida. Tenho feito amigos que nunca os vi pessoalmente. Os contatos forjados pelo aceno das distâncias se consolidaram na passagem do tempo através da correspondência realizada com afirmações positivas, agradáveis. A ausência foi sendo substituída pela alegria e o prazer de sentir a vida como se estivéssemos próximos. Perto ou distante, a arte da amizade é necessária para que o entendimento decorrente do gesto das mãos nas mãos torne a vida sem dominações, ciúmes e traições.
O ideal seria que as relações de apreço e afeto resultassem duma união geral para que a vida fosse forte e bela, com benesses suficientes para todos que caminham nela. Como tal ainda não aconteceu, lembro um poema do mineiro Elias José, querido amigo, de saudosa memória, que só tive o prazer de ver uma vez quando apareceu por essas bandas de cá no sul da Bahia. Esse mineiro de Guaxupé, escritor de mão cheia, na prosa e no verso, enviou-me o poema “Amigo” quando ainda era inédito.
A palavra AMIGO
Abre-se com a gente
E sabe escutar e guardar
Queixas e segredos.
Chora a dor que é nossa,
Faz festa na nossa alegria.O mundo seria mínimo
E sem a menor graça,
Se não existisse a graça,
Se não existisse a luz
Da palavra AMIGO.

PARA CLODOVIL: DISCURSO DE AMIZADE E DE AMIGOS – Por Cyro de Mattos Read More »
A cada lançamento de uma Guriatã, a sexta arte se enriquece. Aqui, a literatura grapiúna é representada por uma plêiade de intelectuais que, após imergirem em um processo cognoscitivo e sapiencial, exteriorizam, por meio da escrita, sua maneira de entender o mundo. Não o fazem apenas como forma de registro factual ou histórico, mas com elegância, espontaneidade, graça, estilo, suavidade e coesão. Os saberes alitanos são, assim, anualmente transmitidos a insignes e ávidos leitores — aqueles que não se satisfazem com escritos rasos, ordinários e transitórios.
A serventia de uma boa leitura é extraordinária: nutre o intelecto, regala o coração, acalenta a alma e promove agudeza de espírito. É quase um presente divino! Asseguro aos presentes que as confreiras e os confrades da Academia de Letras de Itabuna, cientes de tamanha responsabilidade — quase um sacerdócio —, continuam a produzir textos condizentes com essa expectativa. Sem falsa modéstia, o material publicado em nossa revista é a fina-flor da literatura sul-baiana.
Em tempos de leitura fast food, de textos rasteiros, de polarização política, de pensamentos engessados por ideologias, de extrema mornidão e acomodação intelectiva e de elogios à parvoíce, certamente o leitor da Guriatã assemelha-se a um tuaregue diante de uma cacimba de água fria.
A nossa revista é obra seminal da literatura grapiúna, servindo, inclusive, para estimular e moldar novos escritores, ao dar azo a criativas e refinadas produções.
Abarcando uma pluralidade de gêneros literários, as produções desta sétima edição são chanceladas por alitanos.
Publicamente, agradeço e enalteço a participação de Ceres Marylise, de Maria Luíza Nora (Baísa) e de Raquel Rocha, conspícuas alitanas que compõem o nosso Conselho Editorial.
Ceres,“compartilhar é palmilhar o mesmo caminho e chegar juntos ao destino desejado.” Baísa, “em cada entrega, reafirmamos nosso compromisso.”
Raquel, “acima de todas as liberdades, dê-me autonomia!”
Confreiras do Conselho Editorial, as palavras que lhes dedico são: compartilhar, entrega e autonomia
Desejo uma leitura proveitosa e prazerosa
Clóvis Silveira Góis Júnior
Diretor da Revista
Ainda há tempo para sonhar!
Ao refletir sobre o Hino da Academia de Letras de Itabuna, de autoria do eminente poeta e Presidente de Honra desta casa, Cyro de Mattos, percebo que suas palavras ressoam com vigor e revelam a beleza de cada novo dia:
A cidade contigo conhece
Que a vida não é coisa vã,
É a palavra solta a dizer
A beleza de cada manhã.
Imortal é tua maneira de ser,
Tua luz que nunca se apaga,
Ideal é a página que escreves
Pra voar com as asas da alma.
Tudo vale, tudo anda, com Deus,
Que nos deu a razão e a emoção,
O sentido de viver com o amor
Pra dizer o que vem do coração.
Com um dos símbolos da Alita, saúdo a ilustre Presidente desta Academia, Raquel Rocha, cuja competência e dedicação engrandecem esta Casa. Saúdo todos os confrades e confreiras e lhes digo que a presença de cada um de vocês na Alita foi a maior inspiração para o desejo de compartilhar desta convivência, nesta Casa de Cultura. Com o trecho do hino da ALITA “O sentido de viver com o amor/Pra dizer o que vem do coração”, saúdo todos os familiares, na pessoa de Cláudio, meu esposo, aqui presente, responsável por todo legado, que lhes ofereço. A Academia de Letras de Itabuna, carinhosamente chamada ALITA, foi fundada em 19 de abril de 2011, tendo como Patrono o escritor Adonias Filho.
Hoje, a Alita celebra 15 anos de atividades dedicadas às Letras e ao Saber, que sob a liderança de Cyro de Mattos, com a participação dos juízes Marcos Antonio Santos Bandeira e Antônio Raymundo Viveiros Laranjeira Barbosa, além do saudoso promotor Carlos Eduardo Lima Passos da Silva, insistiram na criação de mais uma Academia de Letras em Itabuna.
As reuniões preliminares ocorreram na Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania (FICC), onde foram discutidos o quadro de Patronos e de Membros Efetivos, o Estatuto e o Regimento. A saudosa confreira Sônia Maron desempenhou papel relevante na elaboração desses documentos.
Em sua crônica, Cyro de Mattos destaca: “Avante, Academia de Letras de Itabuna, com seu espírito de corpo constituído de valores indiscutíveis e formas de conhecimento da vida desde o seu amanhecer, andamento para o bem das letras e grandeza da cultura local, da Bahia e do Brasil”. E relembra os versos de Fernando Pessoa: “Deus quer, o homem sonha e a obra nasce”.
Sempre compreendi a Universidade como agente de desenvolvimento, cujo compromisso com a sociedade deve estar fundamentado em bases ontológicas, epistemológicas e metodológicas, contribuindo para o avanço educacional, social, político, cultural, econômico e ambiental da região.
Por essa razão, ressalto o imprescindível papel do professor, motivo pelo qual me honra ocupar a cadeira de um docente da Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC, Professor Carlos Valder do Nascimento. E desta forma, homenageio todos os professores da Universidade Estadual de Santa Cruz.
O Professor Carlos Valder bacharelou-se em Direito pela Federação das Escolas Superiores de Ilhéus e Itabuna (FESPI) em 1978 e obteve o doutorado na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). A sua tese abordou a adequação do sistema tributário nacional à ordem econômica e social. Ao longo de mais de três décadas, exerceu a função de Professor Adjunto de Direito Tributário na UESC. Também lecionou na Escola de Magistratura do Trabalho (EMATRA) e na Escola Superior de Advocacia Orlando Gomes da OAB-BA.
Além disso, atuou na área jurídica da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (CEPLAC), foi Procurador Seccional da Advocacia-Geral da União (AGU) entre 1993 e 2003, Procurador-Chefe da Procuradoria Federal da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e advogado parecerista no Estado da Bahia. Era membro efetivo da Academia de Letras de Ilhéus.
Na instalação da Academia de Letras de Itabuna, Sabóia Ribeiro foi escolhido Patrono da Cadeira número 23, que tenho a honra de ocupar nesta solenidade. Sua escolha representa grande valor cultural, pois foi precursor da Literatura do Cacau e único ficcionista grapiúna a retratar, nas letras do cacau, a geografia típica da região com seus dramas, costumes e valores, descrevendo episódios da Barra do Rio de Contas, Taboquinhas e Vila do Arcanjo São Miguel, núcleos humanos do início do século XX, pertencentes a Ilhéus e hoje integrando Itacaré.
Sua obra reflete o cotidiano da Região Cacaueira, com ênfase em contos realistas que capturam tipos e cenários locais.
Nascido em 07 de janeiro de 1898, em Jaguaribe, Ceará, era filho de Raymundo Francisco Ribeiro, Juiz de Direito e um dos fundadores da Faculdade de Direito do Ceará, e Maria José (Bandeira de Melo) Saboya Ribeiro, de famílias tradicionais. Casado com Georgina Xavier de Oliveira, teve quatro filhos: Temira, Gilberto, Nélia e Eliane.
Sua vida multifacetada exemplifica a intersecção entre medicina, política e literatura no Brasil do século XX.
Sua vocação literária surgiu cedo: aos dezoito anos, quando estreou como crítico na Folha do Povo, de Fortaleza, analisando o romancista Rodolfo Theófilo, com quem manteve uma longa amizade, seguido de um ensaio sobre Pápi Junior.
Após mudar-se para Salvador em 1920 e, posteriormente, para Ilhéus, imergiu na cultura baiana, que inspirou suas narrativas. Nesse período colaborou com as revistas A Luva e Renascença.
Em 1921, em visita ao Ceará, sob influência do Romantismo e Parnasianismo, recitou seus primeiros versos, editados na Bahia, sob o título de Rosas de Malherbe, álbum de poesia publicado como suplemento de O Malho.
Formou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina da Bahia, doutorando-se em 1926 com a tese Ensaio Nasográfico de Augusto dos Anjos, analisando aspectos psiquiátricos da poesia do autor paraibano.
Após ser contratado pela Companhia Industrial de Tecidos, transferiu-se para Valença. Posteriormente, casou-se com Georgina (Xavier de Oliveira) Sabóia Ribeiro em 4 de fevereiro de 1928. Já estabelecido em Itapira (Ubaitaba), foi responsável pela instalação da agência dos Correios e Telégrafos na localidade. Aí, escreveu Rincões dos Frutos de Ouro e decidiu depois exercer a medicina em Tijucas e Florianópolis, em Santa Catarina.
Aos 36 anos, em 1933, publicou Rincões dos Frutos de Ouro, livro de contos ambientados na região do cacau do Sul da Bahia. Essa obra, também conhecida como Tipos e Cenários do Sul Baiano, permaneceu como sua principal marca literária, sendo objeto de referências e estudos acadêmicos.
O livro foi aprovado por unanimidade no plenário da Academia Brasileira de Letras, concedendo a Sabóia Ribeiro o Prêmio Ramos da Paz. A obra destaca-se pelo realismo na representação de paisagens agrestes, vaqueiros e costumes locais. Os contos evocam o sertão baiano através de descrições vívidas de penedos, rios e tropeiros, evidenciando a influência do regionalismo.
Após passar um ano no Acre, Sabóia Ribeiro retornou a Itapira (atual Ubaitaba), onde foi eleito prefeito, exercendo o cargo entre 1937 e 1941. Durante sua gestão, realizou a implantação da luz elétrica e a urbanização das praças.
Entre 1941 e 1947, Sabóia Ribeiro viveu em Ilhéus, onde exerceu atividades em Pediatria e Clínica Geral, atuando tanto em seu consultório particular quanto no Ambulatório Santa Isabel. Além disso, dirigiu a Escola Comercial de Ilhéus, ministrando aulas de Português, e colaborou com o Diário da Tarde, utilizando o pseudônimo João da Terra de Ninguém.
Em dezembro de 1947, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se especializou em Medicina Neonatal e passou a exercer funções no Hospital General Vargas, atualmente conhecido como Hospital Bonsucesso.
Ele publicou em 1957 o livro Roteiro de Adolfo Caminha, um estudo dedicado ao romancista cearense, que lhe rendeu o Prêmio Adolfo Caminha.
Sabóia Ribeiro faleceu em 07 de agosto de 1968 e o seu corpo está sepultado na Catedral de São Sebastião no Rio de Janeiro.
Os dados biográficos do escritor foram colhidos da biografia assinada por sua filha, a professora e biblioteconomista Eliane de Oliveira Sabóia Ribeiro, membro da Academia de Letras de Ilhéus.
A produção literária de Sabóia Ribeiro inclui contos, poesias e ensaios, com foco em temas regionais baianos e análises literárias. Embora não extensa em quantidade, sua obra é impactante, especialmente na literatura regionalista.
Sabóia Ribeiro destaca-se pelo uso apurado da linguagem regional e pela riqueza vocabular, conferindo à sua narrativa profundidade e autenticidade. Sua escrita revela um domínio singular das palavras, valorizando o universo cultural do Sul da Bahia.
No conto Gente Nativa, do livro Rincões do Cacau, o autor retrata com intensidade a volatilidade dos preços do cacau e seus efeitos devastadores sobre a vida dos pequenos lavradores. O protagonista, Manuel Calixto, simboliza o produtor rural que, entre a esperança de uma safra promissora e a decepção com a queda dos preços, enfrenta adversidades provocadas por fatores externos e especulações de mercado. Após árdua dedicação, Calixto vê sua produção desvalorizada e, movido pelo desespero, opta por destruir o fruto de seu trabalho no rio, diante do olhar perplexo da comunidade.
A narrativa de Sabóia Ribeiro dialoga com a realidade atual, deixando evidente que o pequeno produtor permanece vulnerável a oscilações relevantes causadas por fatores como mudanças climáticas, doenças nas lavouras, variações na demanda global e a influência de grandes agentes financeiros internacionais.
O autor emprega termos típicos do universo rural baiano, como arrobas, burrama, embandeirar, panacú, tulha dos caroços, entre outros, compondo um retrato vivo e particular do ambiente cacaueiro. Essa escolha lexical não apenas ambienta o leitor, mas também valoriza a cultura local e o aproxima das experiências dos lavradores.
Sabóia Ribeiro constrói sua beleza poética a partir da oralidade, da força das imagens e da musicalidade das palavras, como se observa em trechos de Gente Nativa, de Rincões do Cacau:
Ao iniciar o conto, o autor descreve o otimismo que permeia a comunidade rural diante das promessas de uma safra abundante: “Florara, cedo, o cacaueiro, a mais não poder, e os preços se anunciavam bastante altos, com tendência a subir sempre, adiantavam as pessoas que liam os jornais vindos da capital. Todos exultavam diante da próspera perspectiva” (Ribeiro.2005, p.73).
Essa euforia é reforçada pelas imagens da natureza exuberante, que Sabóia Ribeiro retrata com delicadeza, revelando o cenário das plantações de cacau em pleno florescimento:
Logo em março, a floração vestia, abundante, as extensas plantações — pequenina, branca, cor de espermacete, pétalas escancaradas. O tempo permanecia sempre ótimo. Sol escasso, chuvas miúdas, as terras bem refrescadas. O vento, uma eterna e fagueira brisa (Ribeiro, 2005, p.73).
No entanto, o autor também revela o ambiente agreste e suas sutilezas, com uma descrição visualmente marcante, em que Manuel Calixto, tomado pelo desespero e raiva, leva seus burros até o rio para romper os sacos de cacau com golpes de faca, despejando toda a produção na água.
Diante das pétreas lâminas, que se continuavam, desde a margem, rio a dentro, desenhando uma imagem confusa, que obrigava à maior cautela, com frequentes hiatos, que formavam, dentro da caudal, pequenas poças invisíveis e traiçoeiras — os animais velhacavam, fungando, ao encostar as broncas narinas na superfície da água (Ribeiro, 2005, p.81).
Sabóia Ribeiro destaca a importância do pequeno produtor como origem e sustentáculo do ciclo produtivo, ao tempo que evidencia a desigualdade existente entre os diferentes agentes do campo, revelando o ciclo de endividamento que marca a trajetória do pequeno cacauicultor.
No seu conto O Cacau e o Fazendeiro, escrito em 1966, ele diz:
Era simples, antigamente, ser fazendeiro de cacau. O pequeno, esse, já possuía denominação diferente, própria: burareiro. Mas era desse que nascia aquele.
[…] O invasor, de seu, só trazia uma coisa, afora a família: sua disposição de trabalhar, deitar roça.
Outros vieram, depois, de mais longe: de Sergipe, da caatinga, do São Francisco.
Sim, havia o comércio. O pequeno lavrador fazia a sua compra, acertava pagar com o cacau, quando o colhesse. Fazia, assim, a sua conta. Cacau, é bom saber, só dá colheita depois de cinco anos. Então, aos primeiros frutos, aquela conta já havia crescido bastante, com juros e tudo. De modo que o burareiro, ao estrear como produtor, é já um endividado (Ribeiro, 2005, p.165).
Assim, Sabóia Ribeiro entrelaça, com sensibilidade, a esperança dos lavradores, a beleza da natureza e os desafios do cotidiano rural, proporcionando ao leitor uma experiência poética e realista da vida na região cacaueira do Sul da Bahia.
Este ano, a Editus – Editora da Universidade Estadual de Santa Cruz, fundada em 1996, celebra três décadas de trajetória. A criação da editora representou um dos projetos culturais mais significativos de nossa gestão à frente da reitoria, idealizado para dar voz escrita à produção literária, científica e cultural do corpo docente, reafirmando o papel da universidade como produtora de conhecimento, e publicar títulos de escritores regionais.
A Editus teve uma estreia brilhante sob a direção da Professora Maria Luiza Nora Andrade, autora do livro de poemas A Ética da Paixão e uma das integrantes da ALITA.
Vale destacar que a inauguração da Editus contou com obras publicadas de dois grandes escritores: Cyro de Mattos (Doutor Honoris Causa pela UESC), do romancista e articulista Euclides Neto, além do Professor Flávio José Simões Costa, personalidade importante na história do ensino superior de nossa região. Cyro de Mattos apresentou o livro Berro de Fogo e Outras Histórias; Flávio Simões lançou Antônio Conselheiro, Louco?; e Euclides Neto publicou o seu livro Dicionareco das Roças de Cacau.
A Quarta Revolução Industrial trouxe a Revolução Digital, baseada no aprendizado de máquina e na inteligência artificial. Essencialmente, a inteligência artificial substitui tarefas repetitivas.
Entretanto, nesta nova era, a criatividade humana continuará sendo indispensável, assim como a empatia e a coragem. As dimensões emocionais e afetivas permanecem exclusivas do ser humano; as máquinas jamais serão capazes de tocar uma sinfonia de Beethoven, cantar uma ária de La Traviata de Verdi ou interpretar uma peça de Shakespeare nos palcos.
Para ilustrar, gostaria de afirmar que a inteligência artificial não será capaz de interpretar as emoções do nosso Reitor Poeta Alessandro Fernandes de Santana, quando escreveu o seu livro Rascunhos Reais.
Do mesmo modo, a inteligência artificial jamais substituirá a pesquisadora e ensaísta Maria de Lourdes Neto Simões (Tica Simões), cuja produção literária capta o pensamento sobre os limites do gênero que orientam o século XXI, unindo questões teóricas relativas à literatura, ao patrimônio cultural e à viagem, ao tempo em que adentra o olhar para a produção literária sul-baiana.
Tampouco poderá replicar a literatura em versos e prosas de Ruy do Carmo Póvoas, Doutor Honoris Causa pela UESC, autor de obras como Vocabulário da Paixão, A linguagem do Candomblé, A Fala do Santo, Da Porteira para Fora e A Viagem de Orixalá.
Igualmente, a inteligência artificial não conseguiria conceber e executar os projetos da historiadora Janete Ruiz de Macêdo, responsável pela criação do Centro de Documentação Regional – CEDOC, na UESC, e pela implementação de arquivos municipais em 23 municípios.
E para provar que os componentes emocionais e afetivos são atividades que a Inteligência Artificial não saberá fazer, citamos a escritora e romancista Margarida Cordeiro Fahel, cujas obras são reveladoras não só da sua inteligência, alta sensibilidade e sentido ético da vida, além de, para mim, proporcionar uma experiência enriquecedora de convivência.
Na segunda orelha do livro Entre Margens, de Margarida Fahel, o jornalista e cronista Antônio Lopes escreveu:
A autora fala de gente, e gente oscila entre a extrema bondade e a reles mesquinharia, temas universais, idiossincrasias que formam esse tipo faceiro dito homo sapiens[…]. Na tessitura de Margarida Fahel, bordadeira de invejável perícia, o bem vence o mal, a virtude se impõe ao pecado: os maus recebem o castigo; os bons a recompensa. Não creio que possa haver melhor mensagem para nossa tão sofrida realidade (Fahel, 2018).
Esta é Margarida Fahel, escritora e ex-vice-reitora da UESC, com quem tive o privilégio de conviver!
Reitero: os componentes emocionais e afetivos são atividades que a inteligência artificial jamais saberá realizar, como se observa no cuidado exemplar oferecido por meu genro Cyro Serpa e minha filha Cláudia aos meus netos, Luís
Fernando e Isabel, para que cultivem e preservem valores essenciais como inteligência, sensibilidade e ética.
Para concluir, afirmo: a máquina nunca poderá substituir a grandeza do ser humano! Esta é minha convicção. E, ao assumir uma cadeira nesta Casa de Produção Literária, convido todos à reflexão sobre esse tema.
Referências:
RIBEIRO, João Felipe Sabóia. Rincões dos frutos de ouro (tipos e cenários do sul baiano). 2. ed. Rev. e ampl. Ilhéus, BA: Editus, 2005.
FAHEL, Margarida Cordeiro. Entre Margens. 1. ed. Ibicaraí, BA: Via Litterarum Editora: 2018.
Minicurrículo
Renée Albagli Nogueira. Doutora em Educação pela Universidade Federal da Bahia. Mestra em Gestão Universitária pela Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro. Aperfeiçoamento na DePaul University, em Chicago, USA. Especialista em Genética pela Unicamp e em Biologia Geral pela PUC Minas. Licenciada em Biologia Celular pela Universidade Santa Úrsula. Reitora da Universidade Estadual de Santa Cruz (1996-2000 e 2000-2004); Conselheira Estadual de Educação (2004-2008 e 2008-2012); e Presidente do Conselho Estadual de Educação (2007-2008).


DISCURSO DE POSSE NA ACADEMIA DE LETRAS DE ITABUNA (ALITA) – Por Renée Albagli Nogueira Read More »
*Gustavo Velôso
19/04/2026
Dezenove de abril é dia de celebrar a palavra, a memória e a cultura. Parabenizo a Academia de Letras de Itabuna — ALITA — pelos seus 15 anos de criação e fundação, trajetória construída com dedicação, compromisso e amor à literatura. Registro meu respeito e gratidão aos idealizadores e fundadores que transformaram um sonho em instituição viva. Faço uma menção especial ao Confrade Cyro de Mattos, pela indicação que me trouxe a esta Casa, honra que carrego com responsabilidade. Orgulho-me de ser fundador desta Academia, ocupando a cadeira 15, que tem como patrono José Haroldo Castro Vieira, referência que inspira nosso compromisso com a palavra e com a cultura. Aos confrades e confreiras, e a todas as diretorias que ajudaram a construir essa história, meu reconhecimento. Registro, de forma especial, à presidente confreira Raquel Rocha, que vem exercendo um papel ímpar como presidente da Academia, ao confrade Silvio Porto e à Santa Casa de Misericórdia de Itabuna, pela realização de um sonho alitano: nossa sede. Que a ALITA siga firme como guardiã da literatura grapiúna, projetando o passado, vivendo o presente e construindo o futuro. Parabéns, ALITA, pelos seus 15 anos.
*Gustavo Velôso é escritor ferradense, autor da Coleção Raízes Grapiúnas – Selo FERRADAS e Membro Fundador da Academia de Letras de Itabuna (ALITA).
PARABÉNS, ALITA – Por Gustavo Velôso Read More »
*Gustavo Velôso
13/04/2026
Simbiose é convivência que não se explica por isolamento. Dois organismos se encontram, se ajustam e passam a existir em relação. Não é fusão nem perda de identidade. É presença recíproca. Cada um permanece o que é, mas já não é o mesmo fora do vínculo. A vida, nesse ponto, deixa de ser individual para se tornar relacional.
Na biologia, a simbiose assume formas distintas. Há relações em que ambos se beneficiam, como no mutualismo. Outras em que um se favorece sem prejuízo do outro, como no comensalismo. E há aquelas em que um se sustenta à custa do outro, como no parasitismo. A diferença entre elas não está apenas no resultado, mas na forma como a interação se estabelece e se mantém. Em todos os casos, o que se revela é um princípio comum: a vida se organiza em rede, não em isolamento.
Essa lógica não se limita ao campo biológico. A experiência humana também se constrói em relações que sustentam, tensionam ou transformam. Comunidades, instituições e vínculos cotidianos operam em regimes de interdependência. Ninguém se forma sozinho. O que se chama de autonomia frequentemente repousa sobre estruturas invisíveis de apoio, troca e influência. A simbiose, nesse sentido, não é exceção — é condição.
Mas nem toda relação é equilíbrio. Há vínculos que fortalecem e há vínculos que consomem. Reconhecer a natureza dessas relações é parte do discernimento necessário para sustentar a própria existência. A simbiose que constrói não elimina conflitos, mas os atravessa sem romper a base que mantém os envolvidos. Já a relação que se torna predatória dissolve essa base e compromete o conjunto.
Pensar a simbiose é deslocar o olhar. Em vez de perguntar o que algo é por si, passa-se a observar como se conecta, como responde e como se mantém no tempo. A identidade deixa de ser ponto fixo e passa a ser processo. A existência, então, não se define pelo isolamento, mas pela capacidade de coexistir.
No fim, a simbiose revela um princípio simples e exigente: viver é sustentar relações. Algumas ampliam, outras limitam. O que define o percurso não é a ausência de vínculos, mas a qualidade deles.
*Gustavo Velôso é escritor ferradense, autor da Coleção Raízes Grapiúnas – Selo FERRADAS e Membro Fundador da Academia de Letras de Itabuna (ALITA).
ARTIGO — SIMBIOSE – Por Gustavo Velôso Read More »
*Gustavo Velôso
06/04/2026
Interdependência não é dependência disfarçada. É reconhecimento de que nenhuma existência se sustenta sozinha. O indivíduo não desaparece na relação, mas também não se completa fora dela. Há um equilíbrio silencioso entre autonomia e vínculo. Viver é negociar esse ponto.
A ideia de independência absoluta é mais construção do que realidade. Toda ação, mesmo a mais simples, se apoia em estruturas que não aparecem de imediato. Há redes de suporte, trocas contínuas, influências que atravessam decisões e moldam caminhos. O que se chama de escolha individual raramente nasce isolado. Surge de um campo de relações que a torna possível.
Na prática, interdependência se manifesta em diferentes níveis. No plano material, envolve produção, circulação e acesso. No plano social, organiza convivência, regras e pertencimento. No plano humano, sustenta afetos, linguagem e construção de sentido. Esses níveis não operam separados. Se cruzam, se reforçam e, por vezes, entram em tensão.
Reconhecer a interdependência não significa abdicar da própria posição. Significa compreender limites e possibilidades dentro de um sistema mais amplo. A autonomia, nesse contexto, não é ausência de vínculo, mas capacidade de agir sem romper o tecido que sustenta a convivência. É movimento consciente dentro de uma rede que não se controla por completo.
Há, porém, um risco recorrente: confundir interdependência com submissão. Quando a relação deixa de ser troca e passa a ser imposição, o equilíbrio se rompe. O vínculo deixa de sustentar e passa a limitar. Nesse ponto, a interdependência perde seu caráter estrutural e se torna assimétrica. O desafio está em perceber esse deslocamento antes que ele se consolide.
Pensar a interdependência é abandonar a ideia de centro isolado. Não há ponto único de controle. Há conexões. Há fluxos. Há ajustes constantes. A estabilidade não vem da rigidez, mas da capacidade de adaptação dentro das relações que se estabelecem.
No fim, a interdependência revela um princípio direto: ninguém se sustenta sozinho, mas nem por isso deixa de ser responsável pelo que constrói nas relações que mantém.
*Gustavo Velôso é escritor ferradense, autor da Coleção Raízes Grapiúnas – Selo FERRADAS e Membro Fundador da Academia de Letras de Itabuna (ALITA).
ARTIGO — INTERDEPENDÊNCIA – Por Gustavo Velôso Read More »