2022- Confraternização de Natal da Academia de Letras de Itabuna














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SONETINHO DO MENINO DEUS
Cyro de Mattos
O galo cantou,
a vaca mugiu,
o burro zurrou,
a ovelha baliu.
A rosa acordou,
o peixe sorriu,
a cabra contou
que a cobra sumiu.
Foi tanto balão
que subiu ao céu,
foi tanta canção
que ventou ao léu,
que até hoje luz
do menino a cruz.

NATAL
Cyro de Mattos
Uma estrela afugenta
Da noite o medo
Que se tem das trevas.
O canto do galo
Que fere a aurora
Dessa vez é mais belo.
Num sorriso silencioso
A Virgem Maria sabe
Do amor de Deus no chão.
Da flauta dos pastores
Sai essa canção que comove.
Todos os anjos entoam
O esplendor deste amor,
Em torno do mundo
Abelhas soltam
Zumbidos de ouro.

JESUSCRISTINHO
Cyro de Mattos
Claro dia,
Linda luz,
Sinos tocam,
Nasceu Jesus.
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A ALITA se solidariza neste momento de dor e manifesta profundo sentimento de pesar aos familiares e admiradores da escritora Nelida Piñon, primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras .
Sua passagem deixa um legado na história da literatura brasileira.
Wilson Caitano
Presidente da ALITA
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Dizem que escrever para Papai Noel é bobagem e perda de tempo. Que ele é apenas personagem de uma antiga lenda cristã cada vez menos crível. Mesmo assim, insisto em escrever esta carta:
Querido Papai Noel
Se até hoje você vive na alma de tantas crianças, se permanece na recordação nostálgica dos adultos mergulhados momentaneamente na memória de suas infâncias, se ainda é capaz de evocar tantos sonhos e fantasias em cada mágica madrugada na véspera de Natal, se ainda desperta energia criadora, força e esperança; então, você está muito mais vivo e palpável do que muitas pessoas que vivem enclausuradas nos próprios egoísmos.
Quando criança, a magia de Natal sempre me envolvia ao escrever cartinhas para você, num esforço desesperado de listar supostos atos de bondade durante o ano inteiro querendo receber em troca bonecas com roupinhas bonitas e conjuntos de panelinhas. Depois, eu as entregava aos meus pais convencida de que eles sabiam executar o impossível serviço postal que os levaria até o bom velhinho sentado sobre um trenó puxado por renas num longínquo lugar coberto de neve e cheio de pinheiros.
Sim, era essa magia que me impulsionava a fazer num cantinho da sala de visitas sobre um pouco de areia e folhas de pitangueira, um pequenino presépio cheio de bichinhos de brinquedo e uma caminha de palha com o menino Jesus.
Era magia o que me mantinha acordada certa de que poderia ver entre as sombras da noite e no silêncio da madrugada, sua figura se esgueirando para colocar presentes nos meus sapatinhos ao lado da cama.
Era magia o que enchia as ruas de crianças na manhã seguinte, mostrando seus brinquedos umas às outras, convertendo o mundo numa cidade feliz.
Um dia, puseram fim à magia do meu encanto: uma vizinha, crendo que me fazia um favor, contou-me que Papai Noel, não existia. Naquele instante, o mundo se transformou: Papai Noel eram nossos pais, era a invenção publicitária das lojas,
eram os políticos levando esmolas para os bairros pobres em troca de votos… Como pode haver espaço para a magia num mundo assim?
Mas nesta véspera de Natal, a criança que sobrevive em mim se apossa de minha mão e me impulsiona a escrever esta carta para você, Papai Noel, e ficará dentro de um velho sapatinho ao lado de minha cama com os meus pedidos.
Traga-me de presente forças para ainda crer que é possível construirmos um Brasil e um mundo melhores. Que apesar de tanta corrupção e impunidade, os brasileiros não caiam na desesperança e no erro de que já não vale a pena clamar e lutar. Que apesar de tantas notícias ruins, também acontecem coisas boas e belas. Que ainda há gente honesta, idealista e o melhor está ali, real e ao nosso lado, nas casas vizinhas onde seus moradores dividem conosco as tristezas e alegrias do dia-a-dia. Que nos faça descobrir que podemos nos ajudar uns aos outros, desprovidos do veneno da arrogância e do egoísmo. Que ainda podemos nos unir superando as diferenças e pensando no Brasil que queremos deixar para nossos filhos e netos.
Abraça-lhe com todo encanto da magia de Natal, sua eterna menina:
Lise
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PORTARIA ALITA Nº 03/2022
O Presidente da Academia de Letras de Itabuna, no uso de suas atribuições, em conformidade com o Edital ALITA nº 03/2022, RESOLVE
Art. 1º – Retificar o Edital UESC nº02, de 16 de setembro de 2022, que trata da abertura das inscrições para I Concurso Literário promovido pela Academia de Letras de Itabuna, alterando na forma indicada a seguir:
Do Cronograma
Art. 2º – Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação.
Itabuna 04 de dezembro 2022.
WILSON CAITANO DE JESUS FILHO
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A presença do Presidente de Honra da Academia de Letras de Itabuna, Alita, confrade, Cyro de Mattos, no mundo literário, traduz-se em fidelidade, comprometimento, amplitude de perspectiva e conquista das letras nacionais. Mais um trabalho de fôlego, um romance, mais uma perspectiva, que, ele próprio, generosamente, identifica: […] o autor quebra todas as regras do romance tradicional com a história narrada com princípio, meio e fim, pondo no seu lugar o uso de uma linguagem gráfico visual mesclada com o dialogismo extraído do cotidiano com vozes populares que não se calam, no seu comportamento espontâneo revelam-se na crítica da vida marcada de mazelas, distorções sociais e atitudes políticas absurdas […] Assim, ele mesmo, já configura o novo romance, República Pinapá do Piripicado, como transgressivo, desdobramento da metodologia do ficcionista, da sua inquietação e desejo de contextualizar o universo criativo, estendendo-o continuamente, como resultado de convicções literárias, ideológicas,e, principalmente, humanas.
Votos de lançamento à altura do seu desvelo, aí, em nossa cidade, e também em Salvador, preferentemente, na ALB, assim que retornem as atividades presenciais.
Parabéns, Cyro de Mattos! Nossa referência e contínua exaltação da literatura. Longa vida ao seu projeto soberano, querido confrade!
Heloisa Prazeres sobre República Pinapá do Piripicado, de Cyro de Mattos Read More »
Acaba de ser publicado pela Editora Via Litterarum, o romance transgressivo República Pinapá do Piripicado, de Cyro de mattos, com capa do pintor e escultor Goca Moreno, no qual o autor quebra todas as regras do romance tradicional com a história narrada com princípio, meio e fim, pondo no seu lugar o uso de uma linguagem gráfico visual mesclada com o dialogismo extraído do cotidiano com vozes populares que não se calam, no seu comportamento espontâneo revelam-se na crítica da vida marcada de mazelas, distorções sociais e atitudes políticas absurdas.
O grande personagem é o povo que se define através de vozes nos comentários e mensagens jocosas sobre o cotidiano da vida, nas críticas sobre corrupções de políticos, que fazem do poder fonte inesgotável de sua ganância para o enriquecimento ilícito. Há aqui cenas de causar pena vividas por uma gente esquecida, relegada na camada inferior da vida, ao sabor da sorte, como as do menino que é roubado no troco, dividido depois, longe de seus olhos, pelo feirante com o guarda. E as do pastor que anda na feira sozinho, cambaleia com sede e fome, carrega no pensamento contrito sua crença em Jesus, o salvador da humanidade, mas que termina por sucumbir ante a indiferença e o repúdio dos outros.
República Pinapá do Piripicado, novo romance de Cyro de Mattos Read More »
Eleito por Aclamação, na sessão Plenária da ALITA na última quarta feira, dia 30 de novembro, Clóvis Góis Junior ocupará a cadeira nº 34, cujo patrono é Jorge Calmon.
Clóvis Góis Junior é historiador, administrador e Especialista “Gerenciamento de Micro e Pequenas Empresas”. Vem desenvolvendo ao longo dos anos a práxis literária e cultural no campo do conhecimento humano, com vistas à valorização da Língua Portuguesa e o cultivo da Historia Regional e das Ciências Humanas em Geral. Possui livros publicados tais como “Sequeiro do Espinho: passos de um conflito” e “A Gênese do Adventismo Grapiúna´´ É ativo disseminador da cultura grapiúna na mídia através de pagina de natureza histórico-cultural .
A sessão solene de posse do novel acadêmico, Clóvis Silveira Góis Junior,será conduzida pelo Presidente da Alita, Prof. Wilson Caitano de Jesus Filho e terá como recipiendário o ilustre historiador Charles Nascimento de Sá. A solenidade se realizará na sede da ALITA- Saguão da Reitoria da UFSB, Praça José Bastos, S/N no dia 19 de abril de 2023 às 19:30h.
DISCURSO DE POSSE
HELOÍSA PRATA E PRAZERES
19 DE NOVEMBRO DE 2022
Senhor Presidente da Academia de Letras de Itabuna, Professor Wilson Caitano de Jesus Filho
Senhoras e senhores acadêmicos, autoridades, familiares e amigos
Saúdo-os, ilustres Sras. e Srs., neste ato solene de posse, consciente de que a Academia de Letras de Itabuna, ALITA, que ora me recebe, é o resultado do sonho de apaixonados pela arte literária, a cultura o saber e a Língua Portuguesa. Agradeço a honra e o privilégio desta indicação de titularidade ao Ilm.º Sr. Presidente de Honra da Instituição, insigne escritor, Dr. Cyro de Mattos, e aos apoios confiantes das confreiras e confrades que me recepcionaram.
Encontro-me feliz entre vocês, mestres e mestras. Cabe-me, também, saudar e agradecer aos que me prestigiam, nesta noite festiva. Se somos o tempo que nos resta, encontro-me em circunstancial completude. E, consciente do nobre significado da distinção, aqui me apresento, presencialmente, após prolongado período de privação social, em face da pandemia, que ainda nos impacta.
Almejo que eu possa contribuir com ações literárias e culturais, implementadas pelo ilustre corpo colegiado acadêmico da nossa ALITA. Já antes, estive em reunião deste honorável sodalício, quando com emoção assisti ao seu nascimento, em 2011, na solenidade, que empossou os membros fundadores, entre aqueles, o premiado poeta itabunense, Renato de Oliveira Prata, meu irmão.
A Academia de Letras de Itabuna demonstra lealdade à sua missão ao promover a literatura, a riqueza e o dinamismo da Língua Portuguesa, com um espírito, que defendo, honro e ao qual me associo, “O Abraço das Letras” (Litteris Amplecti), conforme insígnia inscrita no seu símbolo.
I
Inicio pedindo passagem às nove musas do Olimpo, ao padroeiro da cidade, São José e às forças espirituais, responsáveis por portas e portais, que acolham esse gesto de gratidão, deferência e admiração, que devoto às vozes, que me antecederam, na expectativa de que a homenagem, em memória de duas ilustres escritoras, conterrâneas, seja merecedora.
Começo com a patronesse, escritora e pensadora grapiúna, referência inspiradora da cadeira número 14, que ora ocupo, Valdelice Soares Pinheiro (1929 – 1993). Cito sua voz, para nos conectarmos com a emoção:
[…] eu sou artista, este ser que não precisa se comprometer com nada, porque ele próprio, por si, já é o olho mágico que descobre o presente, que recria o objeto e o fato para o ângulo maior da história[1].
Valdelice Soares Pinheiro nasceu em Itabuna, em 24 de janeiro de 1929. Formou-se no Magistério, mais tarde, licenciando-se em Filosofia, em Porto Alegre, RS. Titulada nos estudos superiores, a Prof.ª Valdelice Pinheiro engajou-se, em sua terra, como uma das fundadoras da Faculdade de Filosofia de Itabuna, tendo sido, também, sua diretora[2]. Mais do que paradigmática, a sua obra contribui para a diversidade, que caracteriza o mundo Sul baiano. Valdelice Pinheiro[3], nos textos poéticos (poemas, prosa poética), filosóficos ou autorreflexivos, bem como na expressão visual dos seus desenhos, rascunhos e fotografia, opta por caminhos que não acolhem interpretações simplistas, adotando a complexidade do pensamento crítico.
Algumas de suas obras:
De dentro de mim. Itabuna: Itagraf, 1961; Pacto. Rio de Janeiro: Olímpica, 1977; Retomada. Revista FESPI, Ilhéus, p. 131-135, 1984; e aqueles estabelecidos pela confreira, professora e pesquisadora, Dra. Tica Simões: Restauração: um canto brasileiro. Ilhéus: Editus, 2000. (Poema de Folha Solta, Projeto Inéditos Valdelice Pinheiro. Coord. MLNSimões); Poesias. In: SIMÕES, Maria de Lourdes Netto. Expressão poética de Valdelice Pinheiro. Ilhéus, BA: Editus, 2002. 150 p.
Valdelice Soares Pinheiro faleceu em Itabuna, no dia 29 de agosto de 1993.
Com peculiar emoção, ocupo-me, a seguir, da biobibliografia de homenagem e preito de gratidão à minha ilustre antecessora, Titular da Cadeira nº14, Sônia Carvalho de Almeida Maron (1940 – 2021). A magistrada nasceu em Itajuípe e viveu em Itabuna; percorreu os caminhos do saber, nas áreas jurídica, acadêmica e literária. Mestre em Direito Penal pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), foi uma das fundadoras da Academia de Letras de Itabuna (ALITA). Na Instituição, confirmada presidente por dois mandatos, dispensava formalidades, preferia ser chamada pelo primeiro nome, sem títulos que a afastassem do interlocutor, porque queria proximidade e afeto ˗ palavras raras em nossa civilização “líquida”, descrita pelo do teórico polonês Zygmunt Bauman.
Ex-aluna do Ginásio Divina Providência. Sônia Maron foi juíza do Tribunal de Justiça da Bahia. Atuou nas cidades de Salvador e Itabuna, na Universidade Estadual de Santa Cruz, Uesc, na docência do curso de Direito. As suas contribuições para as áreas jurídica e acadêmica encontram-se na dissertação “O Instituto da Legítima Defesa: sua relevância no contexto da dogmática penal”. Seis anos após, lançou Legítima defesa no tribunal do júri. Mais alguns títulos, O Instituto da Legítima Defesa: sua relevância no contexto da dogmática penal, 2003; Sócrates, o homem e o mito. Diké: Revista jurídica do curso de direito da UESC, Ilhéus, BA, v.3 e artigos, como colaboradora de sítios eletrônicos, inclusive no da ALITA. A saudosa Sonia Maron, nos legou textos, que comprovam vontade de participação, em todas as instâncias do seu fazer, com voz amigável e lírica, ela anotou registros pessoais,
Aquela amiga que caminhou ao nosso lado para o colégio, dividiu o lanche, posou para retratos em preto e branco na máquina fotográfica Kodak, cantou de mãos dadas as cantigas de roda é única […]
(Cf. Amiga de ontem, amiga de sempre, in: alitaacademia.blogspot.com/2015/05)
Os seus companheiros lembram-se com apreço de histórias compartilhadas. Cyro de Mattos dela despediu-se, com uma elegia, da qual cito excerto:
[…]
Hora que não tem cura,
Vez que não tem volta
Enquanto a noite chega
Para soterrar o dia.
[…] [4].
Sônia Maron faleceu aos 81 anos, deixando-nos um exemplo de excelência e protagonismo feminino. Ave, Sônia Carvalho de Almeida Maron, sua memória é uma inspiração para todos nós, que tanto lhe agradecemos e admiramos.
II
Não cessaremos nunca de explorar
E o fim de toda nossa exploração
Será chegar ao ponto de partida
E o lugar reconhecer ainda
Como da vez primeira que o vimos.
(T.S. Eliot. (“Little Gidding”) Quatro Quartetos.
Tradução de Ivan Junqueira)
Aqui nasci e esta cidade continua a evocar a minha identidade. Pessoal e literariamente vivo este vínculo espiritual e telúrico, preso à amizade, à raiz e à benignidade de minha herança familiar, conforme registros poéticos, que podem ser considerados um mesmo e único livro, pois, não se esgotando na biopoética, ocupam um espaço emocional e geográfico. Identifico-me como poeta, ensaísta e professora adjunta, aposentada, da Universidade Federal da Bahia. Titular da Cadeira nº 26 da Academia de Letras da Bahia.
Se somos o tempo que nos resta, tenho, para o meu próprio bem, mais de um daqueles sucessivos lugares a que o meu espírito viajante me levou. Concentro, porém, muitas das minhas predileções na maleável noção de pátria natal ˗ pois mais sedutoras são as lembranças da terra de origem, tema poetizado por Fernando Pessoa, nas composições do seu Cancioneiro (1930).
Ao recordar o consentimento, em manhãs luminosas de janeiros, no final dos anos 1950-1960 ˗ faixa temporal, companhia e memória literária para toda a vida ˗ há espaços essenciais, que me vêm à lembrança como o pedaço de costa da Mata Atlântica. Experiência que é a minha semente, extensão humana, que vejo da janela da vida. A casa onde vive a intimidade, o lugar onde sempre fui feliz, como resume a frase latina “Ubi bene ibi patria”, ou seja, onde se está bem, aí é a pátria.
A poesia se manifesta em minha vida precisamente por recobrir essa perspectiva existencial, liberdade da arte, virtude do silêncio. Desde que nasci aqui, junto à elevação do Pontalzinho, retorno, em estado de percepção absoluta ˗ navegação em todas as geografias que conheci, são pueris réplicas desses mapas essenciais. O Cachoeira, em sua realidade visível e, de modo algum, totalmente compreensível ˗ o que poderia muito bem assemelhar-se à dimensão aventureira da infância. Nesta cidade, pela primeira vez senti a espécie de contato único com a natureza e a cultura. Anos, muitos anos após, ficcionalmente, em poemas, narro descobertas, como quando, pela primeira vez, senti a comunicação imediata com a natureza criadora e aniquiladora. Deu-me a paisagem grapiúna lições de nova sensibilidade. Foi ali mesmo, na solidão sonora do mar da Barra de Itaípe, de Pontal de Ilhéus ou de Olivença, onde me apropriei de uma noção de geopoética. De não menor importância, a evocação da literatura, que herdei das estantes familiares e o sentimento de fascinação e medo, que me provocou a primeira visão dos cacauais. Não sem alguma aflição e considerável dose de dúvida, despedi-me desta cidade, onde fui recompensada por não poucas experiências, hoje, na poesia, percebo que não há percepção de obra poética completa, a escrita está sempre a se manifestar.
A participação mítica com o mundo natural, os homens e todo o cosmos constituem o segredo da criação artística e seus efeitos, segundo a Fenomenologia ou como nos comprovam a obra poética de Cyro de Mattos, o universo narrativo de Adonias Filho ˗ Dono e Senhor desta Casa ˗ a prosa de Jorge Amado ou o luxo do universo do belmontino Sosígenes Costa; a liberdade de Firmino Alves; o Reverdor da recuperação épico-lírica, de Florisvaldo Mattos.
Lembro-me e aqui homenageio as mestras, Prof.ª Alzira Paim, a Maestrina Zélia Lessa e a minha sensível professora de piano, Lourdes Dantas. Faço essas vivas referências, pois, foi assim que elos livrescos e musicais da minha história particular foram decantados e enriquecidos, com soldas poderosas, jamais esquecidas. Ressalto a importância de familiares e amigos, num caminho de busca literária, tudo impulsionado pelo desejo de ir além das últimas fronteiras, uma vez que a grapiunidade é inclusiva.
A linhagem dessa correlação de contingências serviu-me para inventar transferências juvenis, já que me sinto herdeira desse mundo rico, que é também devido aos escritores, os quais, considero minha própria tradição, no que diz respeito a criadores, que antecederam a contemporaneidade. Poetas clássicos, renascentistas, barrocos, românticos e modernos do cânone ocidental; lusos (António Vieira, Luís de Camões, Fernando Pessoa), brasileiros (Castro Alves, Casimiro de Abreu, Augusto dos Anjos, Cecilia Meireles, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade); ingleses, franceses, espanhóis e latino-americanos (Emily Dickinson, Paul Verlaine, António Machado, Gabriel García Lorca, T.S. Eliot, Gabriela Mistral, César Vallejo, Octavio Paz), e prosadores nacionais ( Machado de Assis, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Adonias Filho, Guimarães Rosa, Clarice Lispector); estrangeiros (Tolstoi, Kafka, Juan Rulfo, Jorge Luis Borges, Montaigne, Marcel Proust, Ernest Hemingway, William Faulkner, Thomas Hardy, José Saramago). Uma tradição sincrética e fecunda, na qual, deve-se lembrar, que o conceito de tradição ou patrimônio literário não pode ser dissociado de sua operação, graças ao cruzamento de hábitos, culturas e arquétipos da magnífica mestiçagem da qual somos filhos.
Junto à presença terna dos meus avós, pais, tios, irmãos e parentes, que me fazem sentir o ramo sergipano da família, e, principalmente, o ensinamento pelo exemplo. Vitral de memórias, conhecimentos, que acessam o dom das recapitulações, concepções de mundo até o alcance de eixos mais nobres, algumas verdades, sempre no território da poesia.
Tudo isso intensifica o caráter mítico, quase sagrado, que as terras grapiúnas possuem para aquela borda da mata; para a margem do rio Cachoeira ou junto ao primordial oceano. Cito o poeta Cyro de Matos, cujo eu-lírico nos adverte: Bebo tudo no mistério (Cf. MATTOS, 2020. “Cerco das águas”, p. 454)
Ou como anotou José Dantas de Andrade, meu tio e preceptor,
quando as terras do Sul do Estado da Bahia começaram a criar fama, atraindo sergipanos, sírio-libaneses, sertanejos e gente de todos os pontos do Estado e do país, o arraial de Tabocas foi um dos preferidos por esses imigrantes.[5]
O cacau protagoniza narrativas; possui ressonância merecida, pelo tratamento literário, que o insere no espaço das letras brasileiras. A densidade e a qualidade da produção artístico-cultural da região constituem fato incontestável. Representado por grandes romancistas, como os citados, Jorge Amado e Adonias Filho, dela fazem parte os ficcionistas Jorge Medauar, Cyro de Mattos, Euclides Neto, Hélio Pólvora, Ruy do Carmo Póvoas, Marcos Santarrita, e poetas como Sosígenes Costa, Telmo Padilha, Firmino Rocha, Minelvino Francisco Silva, o poeta Cyro de Mattos, Florisvaldo Mattos, dentre tantos.
Encaminho-me para a conclusão e relembro a alegria genuína, que relaciona a disposição para o novo, como vitória do espírito acadêmico, que permite a esta Casa de Adonias Filho receber vocações diversas. A ALITA também está viva, no Facebook, no Instagram, na sua página institucional, por iniciativa e talento da confreira, Raquel Rocha.
Já finalizando, peço-lhes licença para a referência a um legado familiar, povoado de preceptoras, mundo feminino, que tem muitos nomes: Georgina, Aurora, Alzira, Amélia, Lourdes, Louralina e Athaíde, tia Sulinha. Preito e memória de gratidão aos meus pais, Agrícola Santana Prata e Alzira de Oliveira Prata; afeto e fidelidade aos irmãos, Renato de Oliveira Prata e Regina Amélia Prata Vidal; primas e primos, companheiros de infância, aqui representados pelos Martins de Oliveira, Marcia, Mercedes e Marcelo; Oliveira Dantas, Marilene, Ronaldo, Marisa e Maruse e Roberto; Oliveira Menezes, Rubem e Rosevaldo; e, em memória, Rita, Raimunda Elba e Margarida Menezes; também, em memória, os meus mentores afetivos, intelectuais e culturais, a quem dedico não poucos textos: João Martins de Oliveira, José Dantas de Andrade, Chiquinho e Raimundo Oliveira Cruz, esses últimos, filhos de Luís Manoel da Cruz, meu avô materno.
Alcanço por derradeiro o meu porto seguro, que me apoia e acompanha, Letícia, Ana e Daniel, joias geradas de uma vida cinquentenária, em comunhão, com Jamison Pedra Prazeres, esposo e companheiro de vida, presença que enriquece com beleza visual todo o meu projeto de escrita ˗ família nuclear, multiplicada, que alcança treze vidas, com Nilson Bolgenhagen, Oscar Goodman e Michele Mascarenhas Prata, e os amados cinco netos, João Filipe, Samuel, Olivia, Pedro e Leonardo, vidas vinculadas, que abraço, como meu patrimônio amoroso .
Muito obrigada!
Itabuna, 19 de novembro de 2022
[1] PINHEIRO In :.HISTÓRIA de Itabuna: Valdelice Pinheiro, poeta e artista plástica. Itabuna, 14 abr. 2020. Disponível em: http://www.historiadeitabuna.com.br/2020/04/valdelice-pinheiro-poeta-e-artista.html . Acesso em: 30 ago. 2022. p.1.
[2] MIRANDA, Antonio. Valdelice Soares Pinheiro (1929 – 1993). [S.l: S.n.], 2020. Disponível em: https://academiadeletrasdeitabuna.com.br/2021/12/24/adeus-a-juiza-sonia-maron-exalta-mulher-a-frente-de-seu-tempo/. Acesso em: 30 ago. 2022.
[3] PINHEIRO, Valdelice. Restauração: um canto brasileiro. Ilhéus: Editus, 2000. p. 8. (Poema de Folha Solta, Projeto Inéditos Valdelice Pinheiro. Coor. MLN Simões).
[4] MATTOS, Cyro de. Pesares de Sônia Maron. In: ROCHA, Raquel (Prod.). Homenagens dos Alitanos à querida Sônia Carvalho de Almeida Maron: uma das fundadoras e ex-presidente da Instituição. Itabuna: Academia de Letras de Itabuna (ALITA), 2021b. Disponível em: https://academiadeletrasdeitabuna.com.br/2021/12/22/homenagens-dos-alitanos-a-querida-sonia carvalho-de-almeida-maron-uma-das-fundadoras-e-ex-presidente-da-instituicao/ . Acesso em: 18 set. 2022.
[5] ANDRADE, José Dantas de. Documentário histórico ilustrado de Itabuna. 2. ed. Itabuna: Gráfica, 1986. p.84.








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