Em suas criações literárias, Adonias Filho movimenta-se como resultado da união harmoniosa nascida da inspiração e transpiração. Uma técnica moderna que o autor concebe e executa para montar suas histórias imprime na escrita atraente uma densidade dramática, tão dele, que preenche o conteúdo com várias dimensões, formado de conflitos, já demonstrando seu discurso coeso a intenção de romper com os elementos da cronologia linear, de princípio, meio e fim, sempre presentes no texto previsível constituído de acontecimentos excepcionais das narrativas tradicionais. Na escrita mítica, de expressão elíptica, pulsa um estilo nervoso, tantas vezes poético, carregado de significados e abrangências que ultrapassam a realidade imediata.
A obra literária motivada por certa região enfoca o peculiar de determinada cultura, tendo por fundo um cenário típico, cujas condições refletem-se no conteúdo da narrativa, conferindo-lhe nota especial. Os estudiosos dizem que o que faz uma obra regional é o fato de mostrar-se presa, em sua matéria narrativa, a um contexto cultural específico, que se propõe a retratar e de onde vai haurir a sua substância. Isso não a impede de adquirir sentido universal, em função de seu significado portador de humanidades, sentimento do mundo, mensagem vertical da existência, fazendo com que ultrapasse as fronteiras da região retratada.
É o caso desse consagrado narrador, muitas vezes um criador de histórias que tem como cenário a região cacaueira baiana na época da infância quando a selva era impenetrável e hostil. Percebe-se nesse artesão da linguagem uma moderna forma de ser contada a história, harmonizada com a representação das essencialidades da criatura, as quais são retiradas do ambiente onde habitam.
Esse narrador de estilo sincopado e poético é uma das vozes fundamentais da melhor literatura de todos os tempos. Influenciado pelos dramaturgos gregos, Shakespeare, o cinema, do fundo trágico de seus romances, novelas e contos emanam personagens em cujos passos e travessias ressoam os sortilégios da morte através de entonações bíblicas.
Sua arte literária é um corpo vivo decorrente de sentimento humano trabalhado em nível do estético, metáfora aguda da vida, como forma de conhecimento do outro mais o mundo. Emerge de acontecimentos que o escritor captou, em suas auscultações no interior da vida ou que tomou conhecimento através da fala dos mais velhos, principalmente quando a história recriada é desenvolvida na infância da região cacaueira baiana. Tudo que escreveu como ficcionista reveste-se de qualidades expressivas.
Digamos que a liberdade como valor do comportamento humano é a condição essencial para o exercício da vida. A vocação criadora do sujeito sucumbe sem ela. Desvia-se do caminho que o leva para a democracia. Era essa a crença de Adonias Filho como um homem político, intelectual que pensa e sente a arte de governar os povos na difícil e misteriosa lei da existência. Seu pensamento é contrário aos regimes totalitários, nos quais uma classe de governantes detém o poder, tornando-se uma nova classe, que domina e dirige, dita as normas para que todos cumpram, sem possibilidade de efetuar o diálogo franco e a crítica livre. E dela tira proveito como uma classe dotada de privilégios. Era contrário, portanto, que fosse instaurado no Brasil o regime autoritário no qual a classe proletária fosse a beneficiada no contexto socioeconômico e político. Isso se opõe à própria índole do nosso povo, que no curso da história lutou pela liberdade e procurou preservá-la no sentimento de mundo sob vários aspectos.
A liberdade nasce com o homem, é da própria índole do povo brasileiro. Nasceu com o povo, que é dela herdeiro de um bem indisponível. É parte fundamental de seu instinto e do seu caráter, gerando no complexo social a própria personalidade nacional e, por extensão, demonstrando que o povo assim já dispõe de vocação democrática.
“A liberdade e o humanismo se fundem como se um estivesse a mover o outro”. (In: A nação grapiúna, editora Tempo Brasileiro, Rio, 1965, p. 9).
Para Adonias Filho, fora da liberdade todos os resultados são condenáveis.
“O homem nasce senhor de si mesmo, livre em sua consciência e seu trabalho, nessa liberdade todo o direito, toda a ordem, toda a justiça, a segurança inteira da sociedade.” (In: A nação grapiúna, p. 10)
Achava que na liberdade se contém a própria inteligência com a sua função intelectual.
“A liberdade exige a luta contra a censura ideológica, contra o comando do partido único nas artes e nas ciências, contra o bloqueio cultural, ainda hoje oprimindo povos e humilhando o homem.” (In: A nação grapiúna, p. 22)
No entanto, se no regime totalitário, de extrema esquerda com base na ideologia marxista, a liberdade é algemada pela classe que detém o poder e dita a norma para que todos obedeçam, em campo oposto, de extrema direita veemente, tal fato de caráter niilista não deixa de acontecer. Aqui também, nesse sistema político organizado oposto ao regime comunista, tudo é censurado e controlado para que as ideias e a utopia não funcionem como ameaças ao regime instalado.
Setores da intelectualidade brasileira sempre acharam que Adonias Filho era um bom romancista em qualquer boa literatura, mas seu credo político de direita não passava de grave equívoco. O autor de Memórias de Lázaro defendia o direito de liberdade e expressão, mas combatia com as armas da inteligência quando de sua concepção política divergia-se, argumentavam seus opositores. Cobravam dele uma postura política coerente, humana e verdadeira.
Tentavam tirar o foco sobre o romancista esplêndido para o do homem político, discutível, nivelando dimensões diferentes para subtrair o valor literário e ferir a construção estética de um projeto bem-sucedido.
Adonias Filho era um homem sem vaidade, inveja, não guardava ódio. Elegia a generosidade e o diálogo proveitoso na discussão dirigida para colher os bons frutos da vida. Muitas vezes se incompatibilizara com generais e coronéis para que soltassem artistas da esquerda presos. E sempre conseguia, apesar de que muitos escritores tidos como da extrema esquerda denunciarem companheiros, à época, levando-os à prisão e ao exílio.
Mas o que importa mesmo não é o seu credo no regime político de direita com bases democráticas, mas a sua condição de escritor que inventou com engenho e arte uma das obras mais importantes da ficção brasileira. Deixando de lado um dos momentos de sua fase de adolescente político, militante da direita, o que vale é a visão pertinente de um dos maiores intérpretes da natureza humana sob o pesadelo de sangue e de servidão da morte. Sua dicção, ora com entonação bíblica, ora em mergulhos profundos no existencial entrelaçado com o regional, enfatiza o trágico, mas exalta também o lírico, como se vê em algumas narrativas primorosas de Léguas de promissão e Largo da Palma.
Referência
FILHO, Adonias. AMADO, Jorge. A nação grapiúna, Discursos na Academia Brasileira de Letras, Editora Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, 1965.
BERTIÉ, Ludmila. Adonias Filho – a força da terra, Editora Solisluna, Lauro de Freitas, Bahia, 2015.
ELLISON, Fred. Adonias Filho, in Dictionary of literary biography, volume One
Hundred Forty-Five, Modern latin-american fiction writers, Detroit, A Brucccoli
Clark Layman Book Gale Research Inc. Detroit, Washington, D. C., London,
- (pág. 10).
MATTOS, Cyro de. As criações de Adonias Filho, Edição da Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, 2017.



