DISCURSO DE POSSE DA PROFA. RENÉE ALBAGLI NA ACADEMIA DE MEDICINA DE ITABUNA – Por Renée Albagli Nogueira

Data: 27 de outubro de 2026 

Boa noite, senhoras e senhores! 

Recebo com profunda gratidão o título de membro benemérito da Academia de Medicina de Itabuna. Vejo nesta distinção o reconhecimento de uma caminhada construída a partir da confiança que a comunidade da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) depositou em mim, como reitora, e na professora Margarida Cordeiro Fahel, como vice-reitora, durante os mandatos de 1996 a 2000 e de 2000 a 2004. Embora Margarida Fahel não possa estar conosco nesta noite, compartilho com ela a alegria deste momento. 

Compartilho também a alegria deste momento com todos os ex-reitores da Universidade Estadual de Santa Cruz, especialmente na pessoa da Dra. Adélia Pinheiro, que aqui se encontra presente. Eu peço que ela transmita aos demais reitores Joaquim Bastos, Alesandro Fernandes, e também ao professor Aurélio Farias de Macêdo, a minha menção especial, pela continuidade dos projetos que eu vou falar neste momento.  

Cumprimento o ilustre presidente desta Academia, Dr. Silvio Porto, e, em sua pessoa, saúdo todos os acadêmicos, estendendo meus cumprimentos aos docentes médicos da UESC. 

É uma satisfação receber esta homenagem ao lado do médico Amilton Gomes, cuja trajetória está ligada à sociedade itabunense e à escolha desta região como lugar de atuação e de serviço à população. Dirijo-lhe meus cumprimentos e estendo minha saudação à sua esposa, a professora Laura Gomes, minha colega da UESC. 

Preservar a memória é também uma das responsabilidades da universidade. Por isso, escolhi dedicar este discurso ao resgate de nossa história, com o compromisso de registrar as pessoas e os acontecimentos que marcaram essa construção. 

A missão da universidade não se encerra no ensino e na produção do conhecimento. Ela se realiza também na capacidade de compreender as condições sociais, econômicas e políticas do país e de contribuir para enfrentar os desafios da população.  

Defendemos, por isso, uma educação articulada em suas diferentes etapas, com a universidade exercendo papel estratégico. Políticas públicas que reduzam desigualdades e ampliem o acesso ao saber são essenciais a esse propósito. Ensino, pesquisa e extensão devem caminhar juntos para transformar conhecimento em benefício social. 

Ainda no período da FESPI, sob a direção do professor Aurélio Farias de Macêdo, a autorização da Enfermagem abriu uma nova etapa: era o primeiro curso da instituição na área da saúde. Essa ampliação representou um passo em direção à universalidade do conhecimento, essencial ao projeto de credenciamento da futura UESC. 

A autorização foi concedida pelo Decreto Federal nº 92.497, de 26 de março de 1986, com base no Parecer nº 37/86 do Conselho Federal de Educação. O primeiro vestibular e o início das atividades ocorreram em 1987. 

Como membro da Comissão de Assessoria e Planejamento, participei da elaboração técnica do processo, com a colaboração da professora e enfermeira Cristina Setenta Andrade, consultora da área da saúde, que fez todo o projeto.  

A instituição enfrentava, então, uma grave crise financeira, decorrente do esgotamento de seu modelo privado e das mudanças de regime da CEPLAC, sua principal fonte de financiamento à época. Avançar nesse cenário exigia planejamento e perseverança. 

Anos depois, a implantação da Medicina reuniu a universidade e a sociedade regional em torno de uma antiga aspiração. As discussões com a comunidade médica começaram em 1996 e prosseguiram até o início do curso, em 2001. Foi um período de articulação, de enfrentamento de obstáculos e de preparação das condições necessárias para tornar o projeto realidade. 

A mobilização ultrapassou os limites do campus: envolveu Ilhéus, Itabuna e outras localidades sul-baianas e chegou à capital do estado e a Brasília. Essa união de esforços foi decisiva. 

Em Brasília, apresentamos nosso pleito e buscamos respaldo para ampliar a formação médica no interior da Bahia. Estava em jogo não apenas a abertura de um curso, mas a possibilidade de responder a demandas de saúde do sul do estado. 

Naquele mesmo período, o Aprendendo Down abria outra frente de atuação. Vinculado, em Itabuna, ao Programa de Educação Continuada da UESC, o Núcleo desenvolveu ações educativas, iniciativas de saúde e lazer e apoio às famílias. Ao longo de quase três décadas, acompanhou diferentes gerações. Não surgiu como consequência da criação da Medicina: as duas iniciativas nasceram em um contexto de ampliação da presença social da universidade. 

Mariana (Mári), Dra. Célia, foi a inspiração inicial. Da experiência pessoal nasceu uma iniciativa que alcançou outras famílias sul-baianas. À professora Dra. Célia Kalil, expresso minha gratidão pela participação nessa história. 

Essa aproximação entre formação médica e extensão universitária se concretiza na participação de Célia Neder Kalil Mangabeira. No relato de experiência do Aprendendo Down, ela é apresentada como coordenadora do Núcleo e professora de Medicina da UESC. A ligação entre essas duas frentes mostra como o ensino e a extensão se complementam no cuidado com as pessoas. 

Entre as lembranças desse trabalho, destaco a palestra do pediatra e geneticista Zan Mustacchi, intitulada “Síndrome de Down: recentes avanços”. A ocasião nos ajuda a compreender a base genética dessa condição: a presença de material genético adicional do cromossomo 21. Na forma mais comum, há três cópias desse cromossomo, em vez de duas, totalizando 47 cromossomos nas células, em lugar dos habituais 46.  

A síndrome de Down é uma condição genética presente desde o nascimento, e suas repercussões no desenvolvimento e na saúde variam de pessoa para pessoa. Por isso, o cuidado deve reconhecer as necessidades e potencialidades de cada indivíduo, favorecendo sua autonomia e qualidade de vida. Nesse compromisso, família, escola, serviços de saúde e universidade têm papéis complementares. Acolhimento e afeto devem caminhar lado a lado com acessibilidade, oportunidades e garantia de direitos. 

Essas lembranças revelam o alcance da extensão universitária. Retomo agora a história do curso de Medicina, destacando as etapas de sua aprovação e as pessoas que contribuíram para sua implantação. 

A história do ensino médico na Bahia remonta ao ano de 1808, quando a corte portuguesa se transfere para o Brasil, e Dom João VI cria a Escola de Cirurgia da Bahia, origem da atual Faculdade de Medicina da Bahia. Quase dois séculos depois, a implantação do curso de Medicina na UESC ampliou essa tradição, oferecendo ao interior a oportunidade de formação médica e de atendimento às necessidades da região. 

Durante o ato de assinatura do primeiro credenciamento da UESC, o Governador César Borges demonstrou grande apoio à implantação do Curso de Medicina, cujo Projeto já se encontrava no âmbito do Conselho Estadual de Saúde. 

Em 5 de maio de 2000, a Comissão de Educação da Assembleia Legislativa da Bahia realizou, no campus da UESC, uma sessão extraordinária fora da sede, por proposta dos deputados Edmon Lucas e Fábio Souto. O encontro foi dedicado à implantação do curso de Medicina. 

Integraram a mesa os deputados Antônio Rodrigues, presidente da Comissão, e Zilton Rocha, vice-presidente, além de Edmon Lucas, Aderbal Caldas, José de Arimatéia, Alice Portugal, Michel Hagge e Paulo Câmara. 

A professora Margarida Cordeiro Fahel, vice-reitora, e eu, Renée Albagli Nogueira, então reitora da UESC, participamos da sessão. Esteve presente também o secretário de Saúde do Estado da Bahia, José Maria Magalhães Neto. 

Também estiveram presentes os integrantes da comissão designada para acompanhar as providências governamentais: Eraldo Tinoco, secretário de Educação do Estado da Bahia e presidente da comissão; Jabes Ribeiro, prefeito de Ilhéus; e Fernando Gomes, prefeito de Itabuna. 

Participaram ainda Roque Andrade, presidente da Associação Bahiana de Medicina; Alfredo Boa Sorte, presidente do Sindicato dos Médicos da Bahia; Sérvulo Dourado, diretor do Hospital das Clínicas da Universidade Federal da Bahia (UFBA); e os secretários municipais de Saúde, Paulo Medauar, de Ilhéus, e Isaac Ribeiro, de Itabuna. 

Todos destacavam a necessidade de implantar o curso de Medicina na UESC. À época, eram mencionados 92 cursos de Medicina no Brasil e apenas dois na Bahia, sendo um particular e o outro na UFBA, cuja tradição de ensino médico já ultrapassava 190 anos. 

Em Brasília, durante uma audiência com o Senador Antônio Carlos Magalhães, então Presidente do Senado Federal, formulamos o pleito de implantação de um Curso de Medicina na UESC. Seu apoio seria decisivo, especialmente junto ao Conselho Estadual de Saúde, pois eu havia recebido uma recomendação dele que o procurasse em relação a projetos de grande importância para a região sul da Bahia. Considerei que este projeto traria uma grande expectativa regional, além de ter uma conotação histórica singular. O Senador possuía grande sensibilidade para grandes conquistas para a Bahia. 

Em 25 de maio de 2000, o Conselho Estadual de Saúde reuniu-se para apreciar o projeto, por convocação de seu presidente, Dr. José Maria Magalhães Neto. Com base no parecer do relator, Dr. Maurício Barreto, o Conselho aprovou a implantação do curso de Medicina da UESC. 

A vice-reitora Margarida Cordeiro Fahel, os professores médicos da UESC e eu acompanhamos essa reunião. Também estiveram presentes, como representantes das comunidades regionais, os secretários de Saúde Paulo Medauar, de Ilhéus, e Isaac Ribeiro, de Itabuna. 

A aprovação representou um passo decisivo. A preparação da estrutura física também avançava: a UESC já havia implantado os laboratórios de habilidades, essenciais ao modelo pedagógico escolhido. Na aquisição dos equipamentos, registro a participação da Pró-Reitoria de Administração, então conduzida pelo professor Edmar Orlando Veloso Sodré. 

Seguiu-se a homologação da decisão pelo governo do estado. Em 28 junho de 2000, durante a inauguração do Centro de Convenções Luís Eduardo Magalhães, em Ilhéus, o Governador César Borges assegurou a implantação do curso de Medicina da UESC e foi aplaudido por cerca de 1.500 pessoas. A reação da plateia expressou a expectativa regional diante dessa conquista. 

Na universidade, a Comissão de Implantação foi presidida pela vice-reitora Margarida Cordeiro Fahel, enquanto a professora Dra. Mércia Margotto coordenou os trabalhos dos docentes médicos. Também integraram a comissão a professora Dra. Adélia de Melo Pinheiro e os doutores Jorge Viana, Fernando Cruz e Emanuel Conrado. 

Assim, a UESC tornou-se a segunda universidade pública da Bahia a implantar um curso de Medicina. 

Merece registro especial o apoio que sempre recebemos da Santa Casa de Misericórdia de Itabuna. À época da implantação do curso de Medicina da UESC, o saudoso Edimar Margotto era o provedor da instituição, e Paulo Bicalho, o diretor médico. 

Na preparação para o início das atividades, em 2001, a comunidade médica de Ilhéus e Itabuna foi convidada a conhecer e debater a proposta didático-pedagógica. A participação dos profissionais da região era fundamental para aproximar o novo curso dos serviços de saúde. 

A convite da comissão interna, cerca de 100 pessoas acompanharam, durante aproximadamente duas horas, as explanações dos médicos consultores Gerson Zanetta de Lima e Ito Kazuhiro. Professores da Universidade Estadual de Londrina, no Paraná, eles prestavam suporte técnico à organização do curso. 

O currículo modular, temático e interdisciplinar integrava teoria e prática desde o primeiro ano. A aprendizagem ocorria em grupos tutoriais, com base na metodologia de aprendizagem baseada em problemas (PBL, do inglês Problem-Based Learning), desenvolvida na Universidade McMaster, no Canadá. As situações-problema orientavam a busca pelo conhecimento e favoreciam a articulação entre diferentes áreas. 

Docentes da comissão estiveram em Londrina para conhecer essa experiência. Ao apresentar o projeto à comunidade médica, Margarida Cordeiro Fahel ressaltou a colaboração entre universidade, instituições e profissionais de saúde. A proposta era formar um médico generalista, com atenção à saúde da família, à prevenção e à saúde pública. 

Em 12 de janeiro de 2007, na administração do professor Joaquim Bastos, a primeira turma colou grau. Com a presença do governador Jaques Wagner, a solenidade celebrou os primeiros médicos formados pela UESC. O que antes era uma aspiração regional se concretizava na formação de profissionais para servir à sociedade. 

À professora Dra. Mércia Margotto, primeira coordenadora do curso de Medicina da UESC, e às coordenações seguintes, deixo meu reconhecimento. A competência, idealismo e liderança asseguraram a Mércia Margotto a permanência nessa função durante quase 25 anos. Sua trajetória continua exitosa, renovando o compromisso com a formação médica e com a saúde da população. Estendo meu agradecimento aos docentes, estudantes, servidores e profissionais dos serviços de saúde que participaram dessa construção e continuam a sustentá-la. 

Entre os resultados significativos dessa trajetória, destaco a classificação publicada em novembro de 2017, com base no Conceito Preliminar de Curso (CPC) do ciclo avaliativo de 2016, na qual o curso de Medicina da UESC alcançou o décimo lugar no país e o primeiro na Bahia. 

Esse resultado merece registro, mas não resume o valor do curso. Sua contribuição mais duradoura está na formação de médicos comprometidos com as necessidades de saúde da população. Atualmente coordenado pelo professor Dr. Nelson Dinamarco, o curso de Medicina da UESC dá continuidade a esse compromisso. 

Da Enfermagem à Medicina e ao trabalho do Aprendendo Down, reconheço expressões de uma mesma missão: transformar o saber em cuidado, ampliar oportunidades e contribuir para uma vida digna. Essas realizações dão sentido à presença da universidade pública no sul da Bahia. 

Trouxe para esta solenidade a memória das pessoas que tornaram possível essa caminhada. Com todas elas, divido o reconhecimento desta noite. À professora Margarida Cordeiro Fahel, renovo meu carinho pela parceria na condução da UESC em anos tão significativos de sua história. 

À Academia de Medicina de Itabuna, agradeço a acolhida e a honraria que me concede. Recebo esta distinção como um incentivo para continuar a defender a universidade pública e a fortalecer os laços entre educação, ciência e saúde. 

Esta homenagem aproxima minha trajetória na educação do campo da medicina e renova meu sentimento de pertencimento a esta região. Que nossa convivência fortaleça a colaboração entre a universidade e a comunidade médica, em benefício da população a que servimos. É com alegria e gratidão que celebro este momento. 

Dedico este legado ao meu esposo, Cláudio, aqui presente; à minha filha, Cláudia, e ao meu genro, Ciro; aos meus netos, Luís Fernando e Isabel; e a todos os membros da minha família. 

 

Muito obrigada!

 

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