Entrevista

UMA CONVERSA COM RITINHA DANTAS – Por Raquel Rocha

Ritinha Dantas, como é carinhosamente chamada, é uma daquelas figuras cuja trajetória se confunde com a própria história cultural, educacional e social de Itabuna. Professora, escritora, gestora pública e intelectual de múltiplas frentes, ela é um nome marcante na cultura Itabunense, nas páginas da literatura regional e nas memórias de todos que com ela conviveram.

Nesta entrevista, Maria Rita revela com rara sensibilidade as raízes de sua formação humana e intelectual, nos contando sobre sua infância vivida entre a zona rural e a cidade de Itabuna, as experiências musicais precoces, o incentivo familiar à leitura e o amor pela educação e pela cultura.

Relembra também momentos marcantes de sua vida pública, como a criação da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania – FICC –, e reflete sobre os desafios que enfrentou com coragem e espírito coletivo. Suas palavras trazem ensinamentos, inspiração e uma paixão contagiante pela vida, pela literatura e pela transformação social por meio do conhecimento.

Com o olhar atento de quem nunca perdeu a capacidade de se indignar diante das injustiças, Ritinha reafirma, nesta conversa, sua crença no poder da cultura, na força da educação e no valor das novas gerações como sementes de um futuro mais justo e criativo.

Raquel Rocha

 

Raquel Rocha: Ritinha, que lembranças mais marcantes você guarda da sua infância em Itabuna?

Rita Dantas: A minha infância em Itabuna é muito rica em vivências rurais e urbanas. Rurais, pois nasci e morava na Castelo Novo, de meus ancestrais, hoje já completamente cercada pelos Bairros Santo Antônio, José Coelho e Lava-Pés. Essas vivências eu as descrevi no meu livro “Bença Vó”. As urbanas, estão cheias de vida, com lembranças das caminhadas para a minha escola 10 de janeiro, da Professora Alzira Paim; da convivência com meus colegas de uma escola seriada, onde meninos e meninas estudavam juntos em série diferenciadas e aprendiam a conviver com as suas diferenças. Brigávamos, nos desentendíamos, fazíamos as pazes, disputávamos a atenção da professora e de sua mãe que chamávamos de Vovó Bebel. Estão também cheias das lembranças das minhas aulas de piano, com Neide Borges, Vanda Montalvão Souza e Célia Pinho Vita; aulas de solfejo com Amália Souza e canto orfeônico com Zélia Lessa. Era um corre-corre a minha vida dos 3 aos 14 anos. Aos 11, em 1951, entrei na Divina Providência onde comecei o ginásio e tive experiências as mais diversas, com meus colegas, aí incluídas atividades política e social. No contexto familiar sempre me senti muito feliz com meus pais, avós, irmãos e os primos Henrique, Rita Marlene e Tonho. Fazíamos teatro em casa, frequentávamos como fadinhas e depois bandeirantes os acampamentos e as reuniões, aprendendo sobre participação e solidariedade. Mais que tudo tivemos pais, irmãos e avós amorosos e dedicados.

 

Raquel Rocha: Poderia nos contar um pouco sobre as raízes da sua família?

Rita Dantas: Cresci sabendo que nossos ancestrais eram sergipanos por parte dos pais de meu pai. Que eles vieram da Chapada dos índios e de Tomar do Geru, o ramo dos Silva Coêlho. Por parte da sua mãe, os Soares Nascimento que vieram de Maruim. Aprendi desde cedo que os líderes da nossa família eram o meu tio avô Paulino Vieira do Nascimento e o meu avô José da Silva Coêlho, ambos falecidos antes de 1940. Eram pioneiros desbravadores e enriqueceram na lida com o cacau, na atividade comercial e no próprio desbravamento das matas e no plantio do cacau.

A família da minha mãe era da região de Muritiba e Castro Alves. O meu avô materno, Ernesto Neves Simões se radicou em Itabuna, viúvo, com seus filhos, Raimundo, Paulo, João e Carmen Diógenes Simões, minha mãe. A minha avó materna, Anita Diógenes Simões era de Castro Alves e faleceu muito jovem.

 

Raquel Rocha: Como a convivência com seus familiares influenciou sua formação humana e literária?

Rita Dantas: Meus pais priorizavam a educação dos filhos: Éramos seis, dois filhos e quatro filhas. O primeiro filho, depois Dr. Fernando Simões Coelho, foi para o colégio Maristas, interno, logo que terminou o primário. Era o meu guru e trazia as novidades da capital para mim, entre elas livros que admirava. Eu era a segunda filha, com duas irmãs mais próximas, Margarida e Heloísa, e uma irmã Carmen Tereza que nasceu, quando eu já tinha 13 anos. Naquela época meu pai comprou o Tesouro da Juventude, uma enciclopédia que nos ensinava muitas coisas. Comprou um Atlas maravilhoso e nos contava sobre o mundo e muitos livros outros, pois meu pai lia muito. Minha mãe adorava cantar enquanto bordava, lia romances de M. Delly e nós ouvíamos no rádio Francisco Alves, Carlos Galhardo, Vicente Celestino, Dalva de Oliveira e muitos outros. Meu tio e padrinho Raimundo tinha em sua casa um quarto só de revistas e livros. Eu adorava ler os gibis e as revistas as mais diversas, inclusive as de terror e Ficava encantada com Flash Gordon e aí começou o meu interesse por ficção científica. Nesse quartinho de leitura ficávamos Fernando, Ubaldo, Henrique e eu. Líamos tudo ou quase tudo. Logo eu quis ir para Salvador também e meu pai me colocou interna no Colégio Santíssimo Sacramento, as Sacramentinas. Lá, continuei meus estudos de piano e francês. Conheci vários poetas e escritores franceses por meio das irmãs francesas que descobriram meu interesse por literatura. Cheguei a fazer uma peça de teatro em francês, Joanna d`Arc, em que eu era a protagonista. Como adolescente passei a ler uns romances que minha mãe tinha em casa, de M. Delly, todos de amor. Só muitos anos depois descobri que eram escritos por dois irmãos que usavam esse pseudônimo. Mas na adolescência fiquei mesmo encantada foi com os livros de ficção científica editados em Lisboa pela coleção Argonauta. Li todos que nos chegavam às mãos. Vivi assim, cercada de livros, revistas, partituras, me formando em nível superior de música em 1957.

 

Raquel Rocha: Quem foram suas maiores inspirações na juventude, tanto na vida quanto na literatura?

Rita Dantas: Não é fácil falar sobre inspirações na juventude. Primeiro, o que é juventude? Eu amava os músicos, sobretudo Grieg, Chopin, Mozart, Vivaldi, Bach, Villa- Lobos, Carlos Gomes e Beethoven. Eles eram inspiradores para mim e algumas de suas peças toquei em concertos em Itabuna e em Salvador. Na literatura, como aos 18 anos eu já estava cursando letras na UFBA, entrei em contato com poetas e romancistas portugueses, brasileiros, italianos e espanhóis. Fui lendo Camões, Fernando Pessoa, Cesário Verde, Mário de Sá Carneiro, Molière, Victor Hugo, Stendhal, Balzac, os poetas simbolistas, Don Quixote, Soror Juana de la Cruz e os brasileiros entre outros Carlos Drummond, Cecília Meireles, Castro Alves, Gonçalves Dias, José de Alencar, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Manoel Bandeira, Jorge Amado e Adonias Filho. Me encantei com os dois últimos e passei a estudar profundamente a obra dos dois. Acho que foi inspirador para mim saber que eu tinha um dom especial para entender os poetas e prosadores.

Na vida, foi a minha mãe que me ensinou como a vida era bela, como eu devia ter sempre uma visão otimista da vida, como devia ser gentil e educada com todas as pessoas não importando a origem, cor ou gênero. Como eu devia estudar, me formar e adquirir independência pelos estudos. Convivi apenas 25 anos com a minha mãe, mas foram definitivos na minha vida.

 

Raquel Rocha: Quando você percebeu que a palavra escrita seria o seu instrumento de expressão?

Rita Dantas: Eu sempre gostei de escrever, de fazer diários e redigir discursos. Mas escrever romances para mim sempre foi impedimento, pois nunca gostei de simular intrigas, desencontros, desavenças e sem isto os romances não existem. Assim, me dediquei a escrever crônicas, relatos, poemas, romance histórico, muitos ainda não editados, pois levá-los a público sempre me angustia. Continuo escrevendo minhas experiências de vida com as pessoas mais significativas na minha vida, a minha relação com meus animais, com as pessoas que me ajudaram no serviço doméstico, as minhas perdas e os meus ganhos.

 

Raquel Rocha: De todos os papéis que exerceu, professora, escritora, gestora cultural, qual lhe deu mais alegrias?

Não existe a que deu mais. Foram todas muito gratificantes e diferentes nas suas missões. Sempre as considerei assim. Tive uma experiência das mais felizes como professora nos níveis médio e superior. Sempre considerando que não estava ali para reproduzir e sim para criar junto com meus alunos. Sempre tive o aprender fazendo como inspiração e sempre estimulei meus alunos a estudarem comigo. Eu escolhia algo que nunca tinha estudado, mas eu tinha a teoria e o método para fazer isso e com eles íamos desbravando aquela selva desconhecida e chegávamos juntos no final. Era uma satisfação enorme. Como gestora, utilizei-me da gestão participativa, em que todos opinam e em consenso decidem o que fazer. Coloquei sempre o respeito às diferenças como prioridade e o reconhecimento do mérito para classificação e recompensa. Conviver com a cultura foi uma experiência criativa sedutora. Conhecer cada artista, seus sonhos, suas dificuldades, suas críticas, tudo isso me ajudou a construir uma visão abrangente sobre a questão cultural no nosso município.

 

Raquel Rocha: A criação da FICC foi um marco na cultura de Itabuna. Poderia falar sobre a criação desta instituição? Que memória mais forte você guarda desse tempo?

Rita Dantas: Na primeira gestão de Ubaldo como prefeito de Itabuna de1983 a 1988, eu era Secretária de Desenvolvimento Social. Durante a campanha eleitoral, eu pedi ao então prefeito, Fernando Barreto, tão logo ganhamos a eleição, levar à Cãmara de vereadores a proposta de criação da Secretaria de Desenvolvimento Social. Eu já tinha feito uma pesquisa no nível nacional e achei a proposta da cidade do Rio de janeiro bem interessante. Eu sabia que tinha de me envolver com a educação e a cultura para que a secretaria alcançasse seus objetivos. Com a chegada de Mário Gusmão, e com a professora Tica Simões à frente da Diretoria de Cultura da Secretaria de Educação, ocupada pela Professora Norma Vídero Santos, iniciamos um projeto de envolvimento dos artistas regionais, com atividades e ações que os qualificassem. Nessa época senti a necessidade de criar uma Fundação para que os artistas tivessem voz no município, o que só ocorreu, quando ganhamos a eleição no ano 2000, em que Ubaldo era o vice-prefeito.

Durante a campanha eu me comprometi a criar a Fundação com o apoio de Ubaldo e do então Secretário de Educação. Fui então nomeada pelo sr. Prefeito como Diretora de Cultura na Secretaria de Educação e começamos a preparar a criação da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania. São tantas as memórias de luta, de desafios, mas a maior lembrança foi a luta conjunta com os artesãos para reformar a antiga delegacia da Rua Rui Barbosa e transformá-la no Shopping dos artesãos, permitindo um maior ganho para eles. A Casa do Artesão passou então a ser a sede da FICC. Essa mudança também é uma memória forte, pois tive de reformar a Casa duas vezes, na primeira gestão de Ubaldo e em 2002.

 

Raquel Rocha: Que desafios mais ensinaram você ao longo da sua trajetória de trabalho público e social?

Rita Dantas: Os desafios foram incontáveis. Um que marcou muito minha trajetória foi a invasão do Pau Caído, onde construímos o Bairro Novo Horizonte, na gestão Equipe Ubaldo Dantas. A invasão foi feita por mulheres de idade mais avançada que estavam vivendo com filhos e netos em um quarto diminuto sem condição alguma de uma convivência digna. Fiz um relato dessa experiência no documento Colheita que faz um resumo da gestão Equipe Ubaldo Dantas. Na FICC, a edição de CDs de artistas itabunenses, assim como de livros, a exemplo do de Ramon Vane, tiveram um forte impacto no nosso trabalho, por termos que lidar com desafios e dificuldades de ordem financeira, já que a cultura não consegue mobilizar os governantes no sentido de a enxergarem como um grande investimento social.

 

Raquel Rocha: O que mais encanta você na vida atualmente? E o que a entristece?

Rita Dantas: Continuo encantada com a vida. Sou uma pessoa otimista e crente na capacidade criativa do nosso povo brasileiro. Vivi muitos anos também como consultora na área da saúde, trabalhando na construção do Saúde da Família, de documentos a serem usados por agentes comunitários de saúde, por médicos e usuários nas áreas de saúde pública dirigidos para hanseníase, malária e muitas outras; de material sobre responsabilidade socioambiental e na utilização de medicamentos comprometedores, a exemplo da Talidomida. Entristecer não é a abordagem correta e sim me indignar. Não perdi a capacidade de me indignar com as injustiças, os maus-tratos, os preconceitos e as discriminações.

 

Raquel Rocha: Como você vê o papel da mulher na sociedade contemporânea, em comparação à época em que iniciou sua carreira?

Rita Dantas: É interessante como a minha vida foi e continua a ser moderna, apesar da passagem do tempo. Eu me formei e comecei a trabalhar, enquanto fazia um ano de pós-graduação. Voltei para Itabuna, em 1963, a convite de Flávio Simões para ensinar no Colégio Estadual de Itabuna e na Faculdade de Filosofia, com a primeira turma se graduando em 1964. Me casei em 1964 e continuei ensinando, na época Filologia Românica e Literatura Brasileira. Passei a minha vida trabalhando e tentando conciliar as minhas atividades profissionais com as dos meus três filhos, João Ubaldo, Luiz Fernando e Afonso Henrique com as do meu marido, Ubaldo Porto Dantas, sempre priorizando as suas escolhas, sem que por isso me sentisse prejudicada. Me considerei sempre uma parceira nas missões que lhe eram confiadas e nunca sofri discriminação por ser mulher, ser casada, ser mãe de três filhos. Até na política me envolvi, quando necessário, mas eu soube colocar a harmonia familiar em primeiro lugar.

Acho que a mulher contemporânea pode muito bem conciliar trabalho e família, a depender dos seus sonhos e expectativas. Assim como também pode optar por viver independente, sem que os laços afetivos a limitem ou impeçam a sua liberdade total.

 

Raquel Rocha: Em sua opinião, qual o maior valor que devemos preservar na nossa convivência humana?

Rita Dantas: O respeito é um valor inestimável. Aprendi com meus pais que é preciso respeitar as opiniões alheias. Em uma convivência harmoniosa tem-se que cultivar paciência, tolerância, amor ao próximo. Sempre considerei que gostar das pessoas em geral era o melhor que a humanidade poderia cultivar. Reconhecer que cada um tem uma visão própria da vida e que precisamos respeitar essas visões, mesmo que elas não correspondam às nossas expectativas.

 

Raquel Rocha: Você acredita que a literatura pode transformar vidas?

A literatura é um caminho de conhecimento. Os livros, sejam em prosa ou poesia, eles nos ajudam a entender a humanidade. Um leitor assíduo pode viver várias experiências por meio de suas leituras. A ficção científica, por exemplo, me ensinou novos caminhos, novas visões, novas perspectivas, novas abordagens, muitas delas transformadas em realidade hoje em dia. Os grandes romances, a exemplo dos de Guimarães Rosa, de Machado de Assis colocam para nós desafios que a própria vida refuta. Os novos escritores japoneses são um exemplo para nós de abordagens que nos chocam, nos emocionam e nos ensinam que cada povo tem suas dores e suas realizações. Sem mencionar os romances de viagens que nos levam a locais desconhecidos e aventurosos. Eu mesma já fui visitar vários locais a partir da leitura de livros interessantes, a exemplo do livro de Ildefonso Falcones, “A Catedral do Mar”, em Barcelona, na Espanha; O romance histórico de Kate Mosse, “O Labirinto”, em Carcassonne, na França. O romance “Istambul”, do prêmio Nobel, Orhan Pamuk. Deste autor, inclusive li um livro muito instigante “Neve”, também na Turquia, que aborda questões religiosas bem marcantes.

 

Raquel Rocha: Que projetos ou sonhos guarda consigo, que gostaria de ver realizados?

Rita Dantas: Ah, são tantos os projetos que habitam os meus pensamentos e tantos os sonhos a realizar que a cada dia penso que “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu”( Eclesiastes 3). Hoje desejo mais que meus descendentes e amigos possam fazer dos seus sonhos realidades e que a Juventude do meu país não deixe de pensar, nem de elaborar projetos que beneficiem o nosso povo brasileiro.

 

Raquel Rocha: Para encerrar: que mensagem gostaria de deixar para as novas gerações de itabunenses e para aqueles que lutam pela cultura e pela educação?

Rita Dantas: Que busquem ser otimistas em relação à cultura e à educação da nossa terra. Nós temos uma herança cultural valiosa que pode embasar a nossa educação. Na gestão Ubaldo Dantas, tivemos um projeto educativo que incentivava os alunos a pesquisarem sobre suas origens, as origens do seu bairro, para que desenvolvessem o sentido do pertencimento, das necessidades e da defesa dos seus contextos culturais.

Que se lembrem, sempre, que nossa região é rica em termos culturais: Temos escritores, poetas, atores, músicos, historiadores e mesmo que estejam atuando em outras terras, serão sempre itabunenses e mais que tudo grapiúnas. Não devemos pensar pequeno, e sim pensar nessa região fértil que engloba a Nação Grapiúna: Ilhéus, Buerarema, Itajuípe, Uruçuca, Ipiaú, Ibicaraí, Una, Canavieiras, Belmonte, e todos os outros, com nomes de peso na nossa Literatura Brasileira, a exemplo de Jorge Amado, Adonias Filho, Cyro de Mattos, Telmo Padilha, Hélio Pólvora, Jorge Medauar, Sonia Coutinho, Heloisa Prazeres, Sosígenes Costa, Euclides Neto, José Bastos, Florisvaldo Matos, Ruy Póvoas, Margarida Cordeiro Fahel. Sem falar nos artistas Marcelo Ganem, Jean Costa, Jackson Costa, Jafet, Sabará, Ébano, José Henrique, Azulão, Alba Cristina, Betão, Fernando Caldas e tantos outros. A nossa maestrina Zélia Lessa, a nossa formadora musical Mariângela Montalvão Souza Oliveira e a nossa eterna musa Candinha Dórea.

Que se convençam que a educação é uma prioridade para todos que valorizam a vida.

Que como jovens sonhadores exijam uma educação integral de qualidade em toda a nossa região que os possibilite participar ativamente na construção de uma sociedade mais desenvolvida, mais justa e mais igualitária.

 

Julho, 2025

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ENTREVISTA COM HELOISA PRAZERES – Por Raquel Rocha

Uma Vida Feita de Memória, Beleza e Poesia

 

As palavras de Heloisa nos remetem à formação de uma geração que aprendeu a olhar o mundo pela lente da beleza e da palavra. Professora, poeta, ensaísta e pensadora da linguagem, Heloisa atravessou décadas cultivando o silêncio criativo e o gesto preciso, fosse na sala de aula, na vida intelectual ou nas páginas onde resgata o que nos constitui: infância, paisagens, memórias, exílios e retornos.

Nesta entrevista, Heloisa revela a mulher por trás da escritora: filha de um lar sergipano que chegou ao sul da Bahia buscando sonhos; jovem que viveu Itabuna e Salvador nos anos de efervescência cultural; mãe, esposa, professora e amiga.

Mais do que responder perguntas, Heloisa compartilha sua visão de mundo, construída com poesia, mas também com rigor, ética e sensibilidade. Entre memórias de infância, referências literárias, reflexões sobre dor e beleza, e a defesa de valores fundamentais, ela nos lembra que viver é criar, e que a poesia não é apenas um gênero, mas uma maneira de existir no mundo.

 

Raquel Rocha

 

Raquel- Antes de falarmos sobre sua trajetória literária, queria que você contasse quem é a pessoa por trás da escritora: quem é Heloisa Prazeres em sua essência?

Heloisa- Entendo que a minha personalidade deriva de um lar harmonioso, formado por meus pais, Agrícola Santana Prata e Alzira de Oliveira Prata, família oriunda do estado de Sergipe, primeiros imigrantes, atraídos pela notícia do Eldorado no Sul da Bahia.

A consolidação de minha adolescência — final dos anos 1950-1960– deu-se na cidade natal, Itabuna, Ba. Lugar, então, próspero, economia criativa e pioneira no cultivo das roças de Cacau, que conheci como lugar referencial, fazendas de meu tio Raimundo de Oliveira Cruz.

Por iniciativa de meus pais, ambos conscientes da importância da educação, sou fruto da educação formal do Colégio Ação Fraternal de Itabuna e, musicalmente, do coral da maestrina Profª Zélia Lessa e das Professoras de piano Gladys e Lourdes Dantas. Recordo, em minha adolescência, os espetáculos colegiais da cidade, as apresentações de canto regidas pela Professora Maestrina Zélia Lessa, a quem devo a iniciação musical.

Então, fascinavam-me as canções folclóricas, considerava encantatória a mistura entre as palavras e as sonoridades, embora não alcançasse esclarecer bem sua complexidade. Peças do folclore nacional, notadamente de Villa Lobos.

 

Nos verões desta citada faixa de tempo, fui habitante temporária da paisagem da Mata Atlântica Costeira, frequentei Olivença, Pontal de Ilhéus e Barra de Itaípe, acompanhada pelos meus pais, irmãos, avós, tios e primos da família Oliveira João Manuel e Georgina Oliveira Cruz.

Itabuna, no final dos anos 50, era esse burgo de vocação agro-comercial; quem tinha alguma atividade criativa beneficiava-se dos eventos promovidas pelas quermesses juninas e natalinas, mais das vezes sob a liderança do historiador popular, agitador cultural, meu saudoso tio, José Dantas de Andrade.

Outras opções, às quais me foi dado acesso, o Centro Cultural da cidade, onde ouvia e assistia, em arrebatada suspensão, ao poder da oratória e da recitação de poetas condoreiros. Pela primeira vez, ouvi a voz de nomes baianos de impacto nacional, especialmente o fervor e lustre das Espumas flutuantes, de Castro Alves. Como tinha não muito mais que uma dezena de anos, e ali era levada pela sede de conhecimento de outro dos meus mentores, João Martins de Oliveira, meu tio, era a atmosfera e a musicalidade que permanenciam, formando-me o gosto e fazendo emergir o prazer da convivência e a talvez prematura indagação sobre arte, poesia e vida criativa. Ali escutei fascinada versos do poeta da cidade, Firmino Rocha, de sua hoje coleção, O canto do dia novo. Ali ouvi sonetos majestosos do grande Sosígenes Costa, nosso bardo maior.
Esses são feitos, fatos, pessoas e lugares que me constituíram na infância e adolescência.

Poeticamente, fiz o registro desta pequena história e do meu precoce gosto literário:

 

Diáspora ao Sul da Bahia

A Georgina e Luís Manoel Oliveira Cruz

com essa luz de olhos já antigos

acolho o legado de adereços

(no trânsito do clã dos Oliveira)

herdei candeias de janelas móveis

de leves ou maciços parapeitos

déco importado de além-mar

frisos de envieses e ornamentos

colho o saber da estirpe nortista

do feudo de Georgina e Luís

espelho-me em retinas centenárias

(coleção de memórias rurais)

primeiro a dispersão e o rumo

 a outro destino − novo estado

nas pegadas de Sumé ao eldorado

matriarcas aurora Alzira Amélia

meninas gêmeas Lourdes/ Louralina

caçula Sula como o nome

viajante de olhos capitais

 na arribação fora determinado

 avós deixaram sítios das suas terras

 nortistas rumo ao dourado porto

 do jequitibá

 sementes do fruto pariram burgos

(Tabocas Almadina Arataca

Água Preta Camacã Itajuípe)

e a razão marginal: um topônimo Tupi

pedra preta lar Itabuna

ouro antigo de cascas brunidas.

 

Raquel- Quando foi que a literatura entrou em sua vida? Lembra do primeiro livro que leu e lhe marcou?

Heloisa: No alvorecer da década de 1960 e visando ao aprimoramento dos nossos estudos, minha família veio para Salvador. Vivemos no bairro dos Barris. Meu pai deslocando-se para a cidade baixa, para a matriz do Banco da Bahia, para onde viera transferido, e minha mãe a experimentar mais um deslocamento na sua já assinalada experiência de exílios. Sua alma revelava a angústia das separações, daí a presença da poesia, o gosto pela declamação e pelo canto, em sua linda voz de contralto. Talvez daí o meu gosto secundário pela música. Vivendo em Salvador, a partir de 1961, Estudei no Colégio Severino Vieira, onde alcancei a aproximação do coral da instituição e do reclamo de aperfeiçoamento do gosto artístico e literário, tendo como Professora de português Dona Belmira, leitora de Os Lusíadas, de Luís de Camões, educando-nos pelo ouvido.

Poucos anos depois, no colégio Central da Bahia, à época ainda um celeiro de novidades − conheci a geração seguinte à que promovera o histórico processo de renovação e conceituação vanguardista da cidade de Salvador. Minha casa, as mais duradouras amizades, o centro de minha juvenil emoção, encontra-se derramado nas experiências de acesso aos espaços culturais de então: sessões do cinema de arte do Cine Guarani, no coração da cidade, em frente à Praça Castro Alves; frequência ao teatro Vila Velha, que marcou o momento cultural brasileiro e albergou movimentos sociais; auditório da Reitoria da Universidade Federal da Bahia, espaço de intensa movimentação e divulgação culturais, conferências, debates, recitais, concertos e simpósios; Livraria e Editora Progresso, única editora baiana, a publicar textos· de ciências sociais, filosofia, ensaios literários, romances e livros de poesia. Por meio das edições dessa livraria e secundando os passos de meu irmão, poeta Alitano, Renato de Oliveira Prata, fui formando e aprimorando o meu gosto literário, iniciado nas estantes familiares da minha família de leitores.

 

Raquel- Como foi o início da sua trajetória acadêmica e literária?

No curso de Letras Vernáculas, com Inglês, da Universidade Federal da Bahia, UFBA, e, muito na sequência, após o Bacharelado, fui monitora junto à cadeira de Literatura Portuguesa, a convite dos saudosos mestres Hélio Simões, conquistador de audiências pela singular recitação da Cantigas de Amigo e Amor da tradição ibérica, e da saudosa Jerusa Pires Ferreira, ambos me incentivaram à concorrência ao ingresso no Departamento de Vernáculas. Concomitantemente, na Universidade Católica de Salvador, onde, como jovem professora, convivi com duas mestras da língua e literatura nacional, Joselita Castro Lima e Terezinha Moreira. Literariamente, nos anos 1970, e em companhia de Jamison Pedra, meu esposo, já falecido, companheiro de mais de meio século, escrevi os versos que constaram do desfecho da película/ curta-metragem “Caranguejomem”, que logrou o 5° Prêmio Nacional no Festival Brasileiro de Cinema Amador (Jornal do Brasil). Incentivada pelos mestres aqui citados, produzi os primeiros artigos, publicados no Suplemento de Cultura do Jornal Tribuna da Bahia. Em meados dos anos 1970, comecei a perceber e a assumir com mais consciência um papel intelectual, como escritora e também Professora do Curso de Graduação em Letras. Tal perspectiva, dirigiu-me ao comparativismo, orientada pelos saudosos mestres, Cláudio Veiga, Antônio Barros, Davi Salles e Ildásio Tavares; tal escolha viria a tornar-se a metodologia de trabalhos futuros, desenvolvidos nos cursos de pós-graduação, dentro e fora do país, quando me foi dada a experiência de viver, no gelado centro-oeste norte-americano, na cidade de Cincinnati, EUA. Então, professora universitária baiana, com minha família, já no formato que permanece, vivemos com nossos três filhos, Letícia, Ana e Daniel, em idades entre doze e dois anos. Na vigência do curso, fui orientada pelos mestres, Edward Coughlin, Juan Valencia e pelo hispanista Donald Bleznak. Essa experiência foi recolhida em alguns poemas.

Raquel- Além da escrita, que outras paixões ou interesses fazem parte da sua vida?

Encontro-me naturalmente ligada à área de Letras e Artes. Em verdade não tenho outro forte interesse, senão os versos livres, plenos de ritmo, musicalidade, plasticidade. Gosto de ler, de experimentar, crio efeitos sinestésicos, com o entrecruzamento de sensações e sentidos nos planos semântico e sintático. A pulsação da vida em algum momento alcança voo, por meio da musicalidade que imprimo aos versos. Portanto, poesia, leitura e música.

 

Raquel- Há algo que você goste profundamente — e algo que não goste muito?

Sim. Gosto muito de ler me acalma e me auxilia no processo imaginativo, bem como aumenta a minha capacidade de memorização, pois gosto muito de recitação. Caminhar, estar em contato com a natureza, me permite refletir. Cinema, Teatro são expressões de arte que muito aprecio, bem como a música, que me ajuda na escrita, na recordação e no registro de pensamentos e percepções. Valorizo a conversa com amigos e o tempo de intimidade e solidão. Por outro lado, não gosto de eventos sociais de grandes proporções. Canso-me e desejo seu rápido desfecho.

 

Raquel- Se tivesse que descrever sua personalidade em poucas palavras, como se definiria?

Creio que sou uma mistura de pessoa comunicativa, mas também sensível e intuitiva . As pessoas me consideram intelectual e emocional ao mesmo tempo.

Raquel- Você se recorda de algum conselho que recebeu e que a acompanha até hoje?

Vivi a juventude na década de sessenta, prezo a liberdade e a justiça social. Meu tempo foi marcado por grandes mudanças sociais e culturais. Pessoalmente, admiro e conservo conselhos e valores de liberdade e busca por novas experiências. Também fui principalmente aconselhada a valorizar a autenticidade e procurar a realização pessoal por minha mãe e por minhas muitas tias. Não me afasto muito desta visão de mundo.

Raquel- Em sua trajetória, houve algum momento de desafio que a marcou profundamente? Como o superou?

Sim. Vivi nos EUA a experiência da incomunicabilidade, o luto moral das desavenças entre raças. Como brasileira, creio nas amplas relações inclusivas e miscigenadas. A minha herança cultural e as convicções que defendo, sempre me ajudaram na superação desses choques culturais.

Raquel- Que temas ou preocupações mais atravessam sua obra?

A minha poesia aborda temas universais. Ressalto o amor, a amizade, a maternidade, perdas, deslocamentos, a relativa incomunicabilidade, o luto moral, a história, a natureza, o mundo digital, as relações possíveis na contemporaneidade e a globalização. As ideias resultam da minha vivência social e intelectual com base nas percepções da cidadã, poeta, mulher, docente e intelectual. Há um apelo de imagens e temas próprios dessas vivências. Lembro, ainda, que a  poesia está do lado do ser e contra o seu aniquilamento. Cito o verso de Hölderlin, presente no poema Recordação: O que resta, porém, fundam-no os poetas.

 

Raquel- Quando escreve, busca mais expressar o que sente ou compreender o mundo ao seu redor?

A linguagem poética, em verdade, ultrapassa a função comunicativa, transformando-se em objeto artístico, mediante o desvio e a contaminação semântica, ou seja, poesia implica texto onde a linguagem é explorada em todas as suas dimensões. A subjetividade será sempre filtrada pela intencionalidade.
Mas como escritora do gênero lírico, posso dizer que a minha escrita é o esforço de uma individualidade feminina na direção daquilo que me cerca. Como disse Theodor Adorno, a dimensão subjetiva está apegada à expressão lírica, tanto quanto a sociedade, ou seja, embora pareça distante da esfera social, a lírica, na verdade, carrega em si as marcas da experiência socialmente experimentada.

Raquel- Como vê a relação entre dor e beleza na criação literária?

Desde a modernidade, a beleza não mais se limita ao ideal clássico. Hoje, a busca pela beleza não dispensa o transitório ou o circunstancial; a relação entre dor e beleza é de complementaridade e interdependência.
Não mais um obstáculo à beleza, a dor torna-se um meio de alcançá-la, revelando novas dimensões da experiência humana. Por exemplo, na poesia de Cecília Meireles, há uma relação complexa e paradoxal. A poeta explora a beleza presente no sofrimento, na decadência, elevando o desgosto e as mais humanas condições a distintos patamares temáticos. Porque a poesia é necessária mesmo em tempos de guerra.

Raquel- O que significa, para você, ser poeta em um mundo tão acelerado como o nosso?

Ser poeta exige o encontro e a demonstração de que há espaço para a reflexão e a expressão da sensibilidade, sempre e em quaisquer circunstâncias. Será necessária a dedicação ao tempo da escrita e da leitura e, mais das vezes, será possível encontrar momentos de quietude para a observação. No mundo contemporâneo, a atividade da poesia é de transformação, ou seja, a mudança do cotidiano em arte, em momentos simples do dia a dia que se transformem em poemas. O poeta confronta a dificuldade; cultiva a observação do cotidiano; observa a vida com um olhar interrogativo e questionável e encontra a natureza, nela reconhecendo fontes de observação (seus ciclos, cores e sons). Afinal, os filósofos compreendem a necessidade e incentivam a prática da poesia mesmo em tempos de guerra.

Raquel- Que valores ou princípios considera essenciais para a vida?

Na qualidade de cidadã, consciente da importância da vida em sociedade, comungo com o sistema estabelecido com a finalidade de possibilitar socialmente a vida, a saber, basicamente: honestidade, respeito, justiça, liberdade e amor.

 

Para você, qual o sentido da vida ?

Uma vez que encontro significado na experiência da vida e construo a minha visão impressa em tudo aquilo que publico, em verdade, com base nessa experiência, de mais de quarenta anos de trabalho, posso admitir o sentido da vida como criação, ou seja, uma vida cuja razão e significado têm sido dados pela poesia, que assino. Entendendo-se, portanto, que a poesia não compreende apenas um determinado gênero, mas, também, um esforço “poiético” de transfiguração da existência em formas ou da metamorfose da experiência existencial em palavras. Minha relação com o mundo e comigo mesma, o sentido da vida, liga-se à capacidade autoral de inventar, divulgar e tocar o mundo por meio da arte.

 

Salvador, 01/07/2025

Heloísa Prata e Prazeres

ENTREVISTA COM HELOISA PRAZERES – Por Raquel Rocha Read More »

ENTREVISTA COM CLÓVIS JÚNIOR- Raquel Rocha

E N T R E V I S T A COM CLÓVIS JUNIOR

 

Nascido em Ibicaraí, Clóvis Silveira Góis Júnior construiu uma trajetória que entrelaça fé, memória, serviço e palavra. Leitor voraz, pesquisador dedicado, servidor público da Justiça do Trabalho há mais de três décadas e profundo conhecedor da história da região cacaueira, Clóvis é alguém que escreve para que o tempo não apague e para que as novas gerações saibam de onde vieram.

Casado com a pedagoga Iara Souza Setenta Góis e pai de Felipe e João Marcos, sua vida familiar é espelho daquilo que aprendeu na infância: valores como respeito, honestidade, solidariedade e temor a Deus. Esses mesmos princípios estão presentes em seus livros, nos perfis digitais que administra, como o @historiagrapiuna, e nos tantos registros que vem produzindo com esmero e constância.

Autor de A Gênese do Adventismo Grapiúna (2016), Sequeiro do Espinho: passos de um conflito (2020) e A História de Itabuna em 1.300 eventos cronológicos e ilustrados (2025), ele ocupa a cadeira nº 34 da Academia de Letras de Itabuna (ALITA), cujo patrono é o jornalista, político e escritor Jorge Calmon.

Nesta entrevista, a mim concedida com a dedicação que lhe é característica, Clóvis revela lembranças vívidas da infância em Palestina (Ibicaraí), fala sobre o papel da fé em sua formação, da influência dos pais, do amor pela história, da sua devoção à verdade, e da certeza de que “quem não vive para servir, não serve para viver”. O resultado é um retrato bonito e sincero de um homem que se comprometeu a deixar como legado não apenas livros, mas exemplos.

Raquel Rocha

Raquel Rocha (RR): Clóvis, você nasceu em Ibicaraí, mas carrega consigo todo um território simbólico da Região Grapiúna. Que imagens ou memórias da infância mais marcaram sua trajetória de vida?

Clóvis Júnior (CJ): Eu sou um pouco de tudo que vivi na meninice. Fragmentos de minha infância teimam em brotar nas minhas reflexões e ações. Pedaços do meu passado saltam a todo instante no meu caminho. Louvo ao Eterno por serem reminiscências aprazíveis e saudáveis. A feira livre da antiga Palestina. Os animais de carga descansando num curral circunvalado entre o leito do rio e o fundo do edifício do Cine Teatro Ana; esse redil, guardava as bestas, enquanto seus proprietários negociavam seus pertencentes na feira. Naquele ambiente vi e aprendi coisas inimagináveis para crianças de tenra idade. A beira do rio Salgado, principalmente em momentos de cheias, entre os meses de novembro e janeiro. O jogo de bola em campos improvisados e em locais ermos (futebol de várzea), onde quase sempre eu era o goleiro ou, quando dono da bola, poderia até ser convocado para jogar na linha. O cheiro do cacau mole nos cochos ou das amêndoas a secar na barcaça de pequena propriedade rural da família. O banho no ribeirão do Luxo, corrente d’água cristalina, piscosa e doce. A chuva intensa, quase o ano todo, a ponto de fazer suar as telhas de barro. As noites eram belíssimas, frescas, cheirosas, com mantos verdes de gafanhotos sobre os postes, atraídos pela energia elétrica, e mantos luminares de pirilampos (hoje quase extintos) a imitarem, na terra, estrelas do céu. Me pego ainda ouvindo os antigos conversando suas experiências, suas aventuras, suas mágoas, suas bravatas …

RR: Seu discurso de posse na ALITA traz um tom confessional e poético. Nele, você fala do cheiro do cacau seco, da jaca madura e da terra molhada. Que significado esses elementos têm na sua construção pessoal e literária?

CJ: Eu projeto o mundo hodierno, com base no meu antigo quintal. Aquele início comezinho e pueril delineou minha vida quase que por completo, deixando pouco espaço para adições do presente. Construo minha estrada dando passos para frente e também olhando para trás. Neste ponto penso como o poeta Manoel de Barros: “Sou hoje um caçador de achadouros da infância. Vou meio dementado e enxada às costas cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos”.

RR: Como sua família, especialmente, seus pais contribuíram para a formação do seu caráter e do seu olhar sobre o mundo?

CJ: Não consigo entender ou divisar um mundo justo e saudável sem que todos seus participantes exerçam princípios éticos. Aprendi em casa, no seio da família, o respeito, a lealdade, a honestidade, a equidade, o amor ao próximo, a solidariedade, o temor a Deus etc. Nunca ouvi meus pais pronunciarem qualquer palavra torpe, nunca. Uma certa feita, acompanhando meu pai à feira, encontrei, embolado no chão, uma nota de um cruzeiro. Meus olhos brilharam de alegria, prontamente meu pai ordenou que deixasse a cédula onde estava, pois o dono poderia vir ao seu encontro; tirando outra nota idêntica do bolso me restituiu aqueloutra. Pode existir um mulher-mãe igual a minha em zelo, trabalho, honestidade e preocupação com a prole, duvido que no universo inteiro exista outra maior. Não recebi um único bem material deles, nenhuma herança físico-monetária, porém seus princípios suplantam a tudo.

RR: Em que momento a fé e o amor pela história começaram a caminhar juntos na sua vida?

CJ: Em 2016, com a escrita do meu primeiro livro.

RR: O que mais o motivou a escrever A Gênese do Adventismo Grapiúna ?

CJ: A lacuna na historiografia. O Movimento Adventista estava presente na Região Cacaueira desde 1908, sem que existisse um escrito que relatasse a incursão dos primeiros missionários sabatistas nas roças de cacau.

RR: Em um depoimento seu sobre a Gênese do Adventismo Grapiúna, você afirmou que “cada pioneiro que morria levava parte da nossa história para o túmulo”. De onde vem esse impulso por registrar o que poderia ser esquecido?

CJ: Em minhas pesquisas, descobri fatos que ninguém conhecia, tanto no universo de membros da Igreja Adventista  (7.000 membros em Itabuna e 5.000 em Ilhéus), como na Região Cacaueira (centenas de milhares de habitantes). Histórias interessantíssimas, curiosíssimas e importantíssimas (de propósito utilizo o superlativo absoluto) caíram na vala do tempo ou foram sepultadas pela areia da história. Imbróglios políticos e sociais enormes seriam entendidos – e quiçá, resolvidos – se soubéssemos suas origens. Mas suas gêneses não mais existem. É necessário conhecer o passado para se responder perguntas e questões do presente. Se seus atores e protagonistas morrem, sem registrar ou contar o que ocorreu ou como aconteceu, e aí como fica?

RR: Como você percebe o papel da escrita como meio de resgate identitário e espiritual dentro da sua fé adventista?

O membro de qualquer denominação religiosa somente consegue amar e se esmerar em seu mister quando conhece aquele sacerdócio. Como dedicar sua vida, seu tempo, seu talento, e seu dinheiro em algo vazio que não sabe de onde veio nem para onde vai? Você só ama verdadeiramente aquilo que conhece. Eu amo a Cristo porque sei o que fez por mim, que abdicou do trono do universo, que se fez homem e quedou-se numa rude cruz em meu favor. Como não amar alguém que me ama tanto? Assim acontece do ponto de vista terreno. Você só ama aquela agremiação que se sente pertencente. Aí entra o conhecimento histórico. O conhecimento do processo formativo do Movimento. A missão e o alvo que o grupo iniciador fomentava. Que caminhos trilharam os pais adventistas para implantarem o Movimento no mundo e aqui na Região? Por que se submeteram a vir para um local extremamente perigoso e de difícil acesso? Que base bíblica possuíam para sustentar seus discursos? Qualquer fiel que conhece sua origem tende a ser um adorador de proa.

RR: O perfil @historiagrapiuna, no Instagram, tem sido um canal de educação histórica no ambiente digital. Como nasceu esse Projeto?

CJ: Da inexistência no Instagram de um perfil que se preocupasse com nossa rica história.  Surgiu durante o período da Pandemia da Covid-19, na minha ociosidade laborativa pecuniária. Hoje (maio/2025), são 11.000 seguidores. Considero um grande feito, em se tratando de um espaço que se ocupa da História, Memória, Literatura e Arte Regional Cacaueira.

RR: Você é um leitor atento e grato aos autores da Literatura Grapiúna. Que nomes mais o influenciaram e por quê?

CJ: Elencar nomes é certamente perigoso, corro risco de cometer graves injustiças. Mas, vejamos:

João da Silva Campos, que se preocupou em aglutinar registros hemerográficos regionais; Jorge Amado, o paladino da verve e dos tipos humanos grapiúnas; Cyro de Mattos, a maior representação viva da Literatura Cacaueira; Hélio Pólvora, um mágico das crônicas; Euclides Neto, cujos escritos falam da vida, da gente comum e ainda exalam a justiça social; Adylson Machado, dono de um vocabulário consistente e de uma escrita refinada; Sosígenes Costa, dificilmente surgirá outro igual.

RR: Você ocupa a cadeira 34 da ALITA, cujo patrono é Jorge Calmon. Poderia falar um pouco sobre seu patrono?

CJ: Calmon é baiano, nascido em Salvador, em 1915. Foi jornalista, político, escritor, historiador e professor. Escreveu e promoveu a cultura com afinco, a ponto de ser reconhecido como o último grande mecenas baiano quando nos deixou, em 18 de dezembro de 2006. Atuou no Jornal A Tarde, Instituto Histórico e Geográfico da Bahia, Universidade Federal da Bahia, Academia de Letras da Bahia, Associação Baiana de Imprensa, Tribunal de Contas do Estado da Bahia e Assembleia Legislativa da Bahia. Estas são suas obras publicadas em vida: Sua bibliografia inclui: A Flotilha Itaparicana, Problemas da  Indústria do Jornal, Manoel Quirino, político e jornalista, Grã Colômbia Vista e Comentada: Notas de um cronista às vezes indiscreto, Imprensas Oficiais no Brasil: Aspectos de sua história e seu  presente, Conceito de História, A cara dos fatos, As Estradas Correm para o Sul: A migração nordestina  para São Paulo, Promessas se Pagam com Pedra e Cal:  Crônicas de viagem, Santo Amaro: Devoção de José Silveira e A Revolução Americana.

 RR: Que papel sua família tem na sua caminhada?

CJ: A importância benévola dos meus pais foi imensa. É aflitivo para o ser humano não ter sido oriundo de uma família equilibrada que lhe serviu de base, de norte e de aio. Agradeço ao Eterno por ter me concedido tal mercê.

RR: Como você vivencia a transmissão de valores dentro da sua casa? Há ensinamentos dos seus pais que hoje você busca passar aos seus filhos?

CJ: Penso nisto todos os dias. Na verdade, em tudo que faço procuro repeti-los no seio familiar.

Por fim, o que você espera que permaneça de sua contribuição — não apenas como escritor ou historiador, mas como homem, cidadão e servo de Deus?

CJ: Anelo não ser pedra de tropeço. Espero ser, mesmo de forma pálida, um imitador do Cristo. Raquel, quem não vive para servir, não serve para viver.

Deuteronômio 16:19, serve como um lema para todo o que defende o ideal cristão: “Não pervertam a justiça nem mostrem parcialidade. Não aceitem suborno, pois o suborno cega até os sábios e distorce as palavras dos justos”.

 Entrevista publicada em 20 de maio de 2025.

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