MEU PROFESSOR LUÍS HENRIQUE – Por Cyro de Mattos

Ano de tristezas, de perdas importantes, irrecuperáveis.  Mal me refaço da perda do amigo João Carlos Teixeira Gomes, o nosso querido Joca, recebo outra notícia que abala e nos tira do sério. Leio no jornal que o professor e escritor Luís Henrique Dias Tavares  também nos deixou. Professor emérito da Universidade Federal da Bahia, membro ilustre da Academia de Letras da Bahia, ficcionista dos bons e um dos mais completos conhecedores de história da Bahia. Há tempos que se comentava na Academia de Letras  sobre o seu estado de saúde delicado.

A vida é curta, a morte é uma coisa deplorável. Mas no caso do professor Luís Henrique, se era para continuar a sofrer, sem possibilidades de voltar ao convívio natural de familiares e amigos, prostrado na cama como alguém inútil, sem forças, em difícil quadro clínico, pensava comigo, talvez fosse melhor partir para o descanso definitivo na cidade onde se tem um sono sem sonho.

Ninguém quer abdicar da esperança de que o ente querido pode retomar a vida saudável, nessas horas críticas em que tudo que é feito não reverte o quadro.  Onde há um fio de vida, sempre o coração é aceso com a chama que nos conforta, com a expectativa que nos dá a fé de que os dias poderão voltar ao ritmo anterior das ocorrências normais.

Luís Henrique Dias Tavares foi meu professor de história no Colégio da Bahia (Central), nos idos de 1955. Era querido pelos alunos, que ficavam seduzidos com sua maneira simples de proferir a aula de história. Fazia-nos ver que a história guardava conhecimentos necessários para que se conhecesse a memória da cidade, inclusive a sua beleza antiga. Dominava com competência o assunto que ensinava com prazer. Ninguém naquele momento, sustentado com o saber do professor de estatura baixa, guardião da memória da cidade, ficava desinteressado do que estava sendo transmitido sem esforço. Seus ensinamentos chegavam precisos, acessíveis, com uma didática lúcida, que só fazia bem aos alunos.

Mostrou-se como mais uma faceta de sua personalidade que era um primoroso escritor, premiado pela Academia Brasileira de Letras.  Ao lado do professor de história, havia nele um escritor que relatava as coisas para que fossem absorvidas com prazer pelo leitor atento. Como ficcionista desempenhava seu papel de mentiroso, não o historiador que conta tudo como se deu, não tirando nem pondo, interessado em dizer a verdade. Na condição de ficcionista, sua prosa prazerosa passava a sensação de que era um bom aluno de Cervantes, esse criador da personalização no romance, eterno narrador clássico.

Aquele homem baixinho, de coração generoso, foi o responsável pelo meu ingresso na Academia de Letras da Bahia. Telefonou-me perguntando se eu não queria fazer parte da entidade, que precisava de gente nova para renovar seus quadros. Fiquei surpreso com o convite, embora a generosidade fosse uma das marcas de seu caráter, andava com ele para que a vida fosse útil, se tornasse beneficiada com novas riquezas de conhecimento.

Um dia tudo tem seu fim.  É assim que fomos feitos para passar como o vento durante as estações. Como esse que agora esteve aqui e num instante foi embora. Nessa estrada em que seguimos como passageiros de uma viagem sem volta, na qual vemos como somos limitados, náufragos de um barco que é levado rumo ao porto de mares desconhecidos.

Adianto que professo os valores cristãos, mas como baiano também tenho a crença nos orixás, herdada de minha bisavó paterna, que foi escrava no Brasil colônia. Essa condição sincrética de fé sempre me motivou a não hesitar ante os desafios na jornada vida. É o que me dá força para ser útil ao outros e assim me veja menos incompleto.  Compele-me que siga adiante escrevendo ficções e poemas na tentativa de fazer a leitura do mundo um pouco mais acessível.  Não vou mudar o mundo com os meus escritos, mas não posso deixar de ser um testemunho de meu tempo quando escrevo.  Justamente como nesse agudo instante em que acabo de concluir um poema para ser dedicado como testemunho afetivo ao meu saudoso professor.

Pensando naquele mestre inesquecível, escrevi o poema curto que transcrevo abaixo, calcado nos enunciados impassíveis do tempo.

 

Ó tempo tu quiseste

 

Tuas asas produzem o voo

no ciclo das questões

que não se decifram.

Até no encanto assustas,

a flor que aparece perfeita

breve no pó desaparece.

Costumas negar o amor

com a solidão das horas

em tua oferta do enigma.

O que se foi não tem volta.

Sempre se esgotam as lições

que deram flores ao presente.

 

Ele ocupou a cadeira 1 da Academia de Letras da Bahia, que tem como patrono Frei Vicente de Salvador. A competência, a eficiência e  o bom trato  foram marcas do caráter do acadêmico que tanto zelou por essa casa das letras.

Um adendo. O professor Luís Henrique nasceu em 25 de janeiro de 1926, em Nazaré, faleceu em 22 de junho de 2020, em Salvador.

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