Margarida Cordeiro Fahel
Ruy do Carmo Póvoas lançou o seu SAMBORÁ. Chegou ele em junho deste nosso 2025. Poeta avassalador, assim o vejo, no sentido de uma produção efervescente. Parece não dormir, nem labutar com o cotidiano da vida. Grande engano! O poeta descansa? Talvez muito pouco, pois trabalha, estuda, pesquisa, ora, lidera e escreve. Parece que versos em profusão recaem em cataratas sobre ele. Aliás, o poeta deve lembrar, com sua prodigiosa memória, de um sonho já de antigos anos, com uma velha casa, numa beira de estrada, na qual do seu reservatório, que deveria conter água, saiam pilhas em cachoeiras. PILHAS! Não pareciam mostrar a marca.Hoje, nesta lembrança chegada, imagino a analogia: estariam ali os versos borbulhantes que chegariam em cascata? E o poeta obedientemente os acolhe e lhes dá sua voz? Deve haver uma musa que faz dele o que quer. E ele obedece, suponho, não importa o dia, não importa noite ou madrugada.
E esse seu SAMBORÁ encanta: às vezes, o verso é até doce como o mel, mas, em muitas outras, há uma certa acidez contida, ou mesmo meio escondida. Porém, numa sede de descobertas, SAMBORÁ indaga e ousa revelar. Para mim, o poeta não gostaria de tanto revelar-se. A culpa é do SAMBORÁ… Os versos de Ruy Póvoas, numa cadência poética suavemente percebida, expressam a visão de mundo do poeta ou, mais exatamente, como ele o sente. Sentir ou pensar? Qual seria a percepção real? Uma visão convicta de mundo? Qual seria ela? A brevidade da vida? O inevitável das coisas? A impossibilidade de fugir ao previsto? Mas percebo então com surpresa, em alguns momentos, que o poeta já não se entristece, nem se revolta. E parece agora enxergar “o universo e a vida”, as coisas, as gentes e os fatos dentro de si mesmo, para assim melhor compreendê-los, interpretá-los e até perdoá-los. Em SAMBORÁ, quem sabe pela doçura do mel, o poeta até aconselha a aceitação, da qual poderíamos mesmo duvidar. Entretanto, ali está dito, claro como mel.
O poeta Ruy Póvoas faz poesia filosófica, na maioria das vezes, embora em alguns momentos, brincando com as palavras, não sabemos se ele fala a sério. Ele é um sabedor das palavras e as usa com graça, por muitos momentos, em outros com empenho, com força, manipulando-as com seu profundo conhecimento e até esclarecendo-as, como pesquisador que é, escolhendo a cor e a textura que lhe convém.
Não estou, neste momento, fazendo uma análise crítico-literária dos poemas de SAMBORÁ, num sentido rigidamente acadêmico. Isso talvez fique para outro momento, quem sabe… Na verdade, preocupo-me apenas em falar sobre como o senti, de como entendi e enxergo o poeta neste seu SAMBORÁ. E o vejo como uma alma sempre a expressar uma visão de mundo, e uma profunda necessidade de compreender, interpretar e aceitar a realidade, realidade que se faz história, na difícil caminhada humana sobre a terra. É algo vital, na profundidade maior do termo. Como ele a enxerga, como a recebe, e como a transforma e elabora em si mesmo.
Alguns poemas, tais como COSMOGONIA, COROLÁRIO, CONSCIÊNCIA, DINASTIA, ELA, ESCOLHA, GARANTIA, DESASTRE e ENIGMA, dentre outros, a mim pareceram mais reveladores, mais evidentes do que o poeta precisa ou quer demonstrar, ou, ainda, daquilo que o persegue.Entretanto, cada leitor poderá descobrir muitos outros DADOS EVIDENTES, conforme seu próprio entender, sentir, ou até decifrar. E aqui relembro que o “dado evidente” é algo fundamental na concepção literária desse escritor.
Enfim, este é apenas um comentário cujo propósito, repito, é evidenciar a força da palavra poética em Ruy Póvoas, conforme a recebi do seu dourado SAMBORÁ, que é mel, mas não deixa de lembrar-nos o SAMBURÁ, um cesto artesanal típico do viver de nossa gente. E eu aqui o trago, evocando o parentesco fonético, e o que ele tem de belo no seu trançado, falando -nos de coisas também guardadas, às vezes doces, às vezes amargas, mal entrevistas através das frestas do torcido emaranhado, inteligente e belo que lhe dá forma.
Assim, SAMBORÁ e SAMBURÁ: um dentro do outro. E brinco com o poeta, desculpando-me por essa breve mistura de mel e cipó…
Margarida Cordeiro Fahel
Cadeira 29 da Academia de Letras de Itabuna -ALITA. Patrono GIL NUNESMAIA.
PÓVOAS, Ruy do Carmo. SAMBORÁ,Ibicaraí, BA: Via Litterarum, 2025.